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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A era da incompetência

Em 20 de janeiro de 2017 o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, vai tomar posse após ter recebido quase 3 milhões de votos a menos do que sua concorrente. E trabalhará com uma maioria republicana no Senado, cujos membros conquistaram 13 milhões votos a menos do que seus adversários democratas. Apenas a maioria republicana na Câmara dos Deputados, encabeçada por seu presidente, Paul Ryan, pode dizer com propriedade que representa a maioria numérica de 55% dos americanos que votaram no dia da eleição de 2016.
Trump, além disso, começará seu mandato como presidente com um índice de aprovação inferior a 50%. Isso é sem precedentes ["unprecedented"] - ou "sem presidente" ["unpresidented"], conforme figurava em um de seus tuítes semianalfabetos (antes de ele o deletar) - na história dessas avaliações. O governo da democracia mais antiga do mundo é, na verdade, não democrático. O que também é sem precedentes é o fato de tão poucos membros do próprio partido do presidente eleito, e nenhum da oposição democrata, o considerarem apto para cumprir os deveres da Presidência, além de atuar como 'Comandante em Chefe da Torcida'.
O fenômeno Trump, é claro, vinha sendo gestado há muito tempo. Com a honrosa exceção de George H. W. Bush, que tinha o conhecimento, a inteligência, o temperamento e os valores necessários para governar o país, a última vez que um republicano plenamente capacitado foi empossado foi em 1957. Ninguém nega que Richard Nixon tinha o conhecimento e a inteligência para ser presidente; mas a maioria das pessoas reconhece que seu temperamento e valores deixavam a desejar.
Trump parece não perceber que sua campanha acabou, que ele poderá fracassar catastrófica e permanentemente em seu novo papel e que é de seu próprio interesse garantir que suas propostas sejam sólidas, não apenas como slogans
No mesmo sentido, a maioria das pessoas considerava Ronald Reagan desprovido do conhecimento e da inteligência indispensáveis para o cargo. De acordo com o jornalista Peter Jenkins, a ex-premiê britânica Margaret Thatcher disse uma vez de Reagan: "Coitadinho, não tem nada na cabeça". E os dotes que Reagan efetivamente tinha no Dia da Posse se desgastaram com o passar do tempo, após ele sair ferido de uma tentativa de assassinato fracassada ocorrida após seus 69 primeiros dias de mandato, e, posteriormente, quando começou a sofrer do mal de Alzheimer.
Mesmo assim, o temperamento e os valores de Reagan (de maneira geral) se adequavam à Presidência. Ele entendia plenamente que ser o protagonista não significava que ele era o chefe. Tanto como ator de Hollywood quanto como presidente dos EUA, Reagan tinha profissionais inteligentes, dedicados e diplomados que escreviam seus pronunciamentos e dirigiam seus movimentos. Ele sabia que sua função era estar na tela, e não interferir junto às pessoas que ficavam por trás das câmeras nas salas de edição pós-produção, responsáveis pelo produto acabado.
Era isso que a maioria dos observadores esperava ver quando George W. Bush foi empossado, em 2001: um líder de torcida descontraído que seguiria a direção dos sábios assessores que tinha herdado de seu pai. Mas o Bush filho passou a se encarar não apenas como o protagonista como também como "a instância decisória". E, embora o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, tivessem sido experientes formuladores de políticas públicas na década de 1970, eles tinham ficado um tanto instáveis no começo da década de 2000. 
Por algum motivo, Bush se ligou aos dois, o que selou seu destino. Ele não compareceu a nenhuma Convenção Nacional republicana desde que deixou a Presidência, e pode ter desejado jamais ter mandado James Baker à Flórida, em novembro de 2000, para garantir sua vitória sobre Al Gore.
Com certeza, Trump não tirou qualquer lição do segundo mandato presidencial de Bush. Ele sabe que é o protagonista, mas também acredita, equivocadamente, que tem o conhecimento e a inteligência para ser o chefe. Parece não perceber que sua campanha acabou, que ele poderá fracassar catastrófica e permanentemente em seu novo papel e que é de seu próprio interesse garantir que suas propostas sejam sólidas, não apenas como slogans, e sim como políticas reais responsáveis por manter os EUA seguros e por criar prosperidade no país. 
Em vista disso, o que os milhões de americanos que agora temem pelo futuro deveriam fazer? Em primeiro lugar, podemos trabalhar em nível estadual para tentar neutralizar quaisquer iniciativas deficientes ou inviáveis da política de governo de Trump. Os democratas e os republicanos íntegros dos Legislativos estaduais têm de trabalhar juntos para manter o fluxo da arrecadação fiscal e para custear os vários programas de gastos que forem do interesse do país, independentemente do que estiver ocorrendo em Washington. E deveriam prometer uns aos outros que, independentemente de quem assumir o poder em 2021, eles não vão se condenar mutuamente por ter agido como elementos coibidores hoje. 
Em nível nacional, devemos lembrar constantemente os republicanos do Senado de que eles falam em nome de 13 milhões eleitores a menos do que os democratas. E devemos recordar Paul Ryan de que ele errou ao aceitar as desacreditadas iniciativas das políticas econômica e externa do governo Bush entre 2001 e 2008, e que é um desserviço ao país dar apoio partidário incondicional a um governo tão obviamente inepto.
E, se tudo o mais falhar, devemos lembrar que fazer frente a um presidente impopular que recebeu quase 3 milhões de votos a menos do que sua adversária não é apenas a coisa certa a fazer; é a matéria-prima para um ótimo "reality show". 
(Tradução de Rachel Warszawski)
*J.Bradford DeLong, ex-vice-secretário-assistente do Departamento de Tesouro dos EUA, é professor de Economia da Universidade da Califórnia e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA.

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