Observatório do Cotidiano

Reflexões e artigos sobre o dia a dia, livros, filmes, política, eventos e os principais acontecimentos

domingo, 6 de outubro de 2019

A Vingança de Gaia

James Lovelok
ESPECIAL PARA O "INDEPENDENT" 
Imagine uma jovem policial que se sente totalmente realizada na sua vocação. Então, imagine-a tendo de dizer a uma família cujo filho estava desaparecido que ele foi encontrado morto, assassinado, num bosque vizinho. Ou pense num jovem médico que tem de lhe dizer que a sua biópsia revelou um tumor agressivo em metástase.
Médicos e policiais sabem que muitos aceitam a verdade simples e horrenda com dignidade, mas muitos tentam em vão negá-la. Nós livramos os juízes da terrível responsabilidade de aplicar a pena de morte, mas ao menos eles tinham algum conforto em suas freqüentes justificativas morais. Médicos e policiais não têm como escapar de seu dever.
Este artigo é o mais difícil que eu já escrevi, e pelas mesmas razões. Minha teoria de Gaia diz que Terra se comporta como se estivesse viva, e qualquer coisa viva pode gozar de boa saúde ou adoecer. Gaia me tornou um médico planetário e eu levo minha profissão a sério. Agora, também devo trazer as más notícias.
Os centros de climatologia espalhados pelo mundo, que são os equivalentes aos laboratórios de patologia dos hospitais, têm relatado as condições físicas da Terra, e os climatologistas acham que ela está gravemente doente, prestes a passar a um estado de febre mórbida que pode durar até 100 mil anos. E eu preciso dizer a vocês, como familiares da Terra e parte integrante dela, que vocês e a civilização em especial estão em grave perigo.
Nosso planeta tem se mantido saudável e apto à vida, assim como um animal, por mais de 3 bilhões de anos de sua existência. Foi má sorte que nós tivéssemos começado a poluí-lo numa época em que o Sol está quente demais. Nós causamos febre a Gaia e logo seu estado irá piorar para algo parecido com um coma. Ela já esteve assim antes e se recuperou, mas levou mais de 100 mil anos. Nós somos os responsáveis e nós vamos sofrer as conseqüências: no decorrer deste século, a temperatura subirá 8C nas regiões temperadas e 5C nos trópicos.
Boa parte das terras tropicais se tornará caatinga e deserto, e não servirá mais para regulação do clima; isso se soma aos 40% da superfície terrestre que nós já devastamos para produzir nosso alimento.
Curiosamente, a poluição por aerossóis no hemisfério Norte reduz o aquecimento global ao refletir a radiação solar de volta ao espaço. Esse "apagamento global" é transitório e pode desaparecer em poucos dias junto com a fumaça que o carrega, deixando-nos expostos ao calor da estufa global. Estamos num clima de loucos, resfriado acidentalmente pela fumaça, e antes do fim deste século bilhões de nós morreremos e os poucos casais férteis que sobreviverão estarão no Ártico, onde o clima continuará tolerável.

Tarefa impossível
Ao não perceber que a Terra regula seu clima e sua composição, nós cometemos a trapalhada de tentar fazê-lo nós mesmos, agindo como se estivéssemos no comando. Ao fazer isso, condenamos a nós mesmos ao pior estado de escravidão. Se escolhermos ser os guardiões da Terra, somos os responsáveis por manter a atmosfera, os oceanos e a superfície terrestre aptos para a vida. Uma tarefa que logo acharíamos impossível -e algo que, antes de termos tratado Gaia tão mal, ela fazia para nós.
Para entender o quão impossível é a tarefa, pense sobre como você regularia a sua temperatura e a composição do seu próprio sangue. Quem tem problemas renais conhece a dificuldade diária inesgotável de de ajustar sua ingestão de água, sal e proteínas. A muleta tecnológica da diálise ajuda, mas não é substituto para rins saudáveis.
No meu livro"A Vingança de Gaia", expande essas idéias, mas você ainda pode perguntar por que a ciência demorou tanto para reconhecer a verdadeira natureza da Terra. Eu acho que é porque a visão de Darwin foi tão boa e tão clara que demorou até agora para que ela fosse digerida. No tempo dele, pouco se sabia sobre a química da atmosfera e dos oceanos, e teria havido pouca razão para que ele imaginasse que os organismos modificavam seu ambiente além de se adaptarem a ele. Se fosse sabido à época que a vida e o ambiente estão tão conjugados, Darwin teria visto que a evolução não envolve apenas os organismos, mas toda a superfície do planeta.
Nós então poderíamos ter enxergado a Terra como um sistema vivo, teríamos sabido que não podemos poluir o ar ou usar a pele da Terra -seus oceanos e sistemas florestais- como uma mera fonte de produtos para nos alimentar e mobiliar nossas casas. Teríamos sentido instintivamente que esses ecossistemas devem ser deixados intocados porque eles são parte da Terra viva.
Então, o que fazer? Primeiro, precisamos ter em mente a velocidade espantosa da mudança e nos dar conta do quão pouco tempo resta para agir. Então, cada comunidade e nação precisará usar da melhor forma os recursos que tem para sustentar a civilização o máximo que puderem. A civilização usa energia intensamente, e não podemos desligá-la de forma abrupta; é preciso ter a segurança de um pouso motorizado.
Aqui, nas ilhas britânicas, nós estamos acostumados a pensar em toda a humanidade e não apenas em nós; a mudança ambiental é global, mas precisamos lidar com as conseqüências dela aqui. Infelizmente nossa nação é tão urbanizada que se parece mais com uma grande cidade, e temos apenas uma área pequena de agricultura e florestas. Dependemos do mundo do comércio para o nosso sustento; e a mudança climática nos negará suprimentos constantes de comida e combustível do exterior.
Nós poderíamos produzir comida o bastante para nos alimentar na dieta da 2ª Guerra, mas a noção de que há terras sobrando para plantar biocombustíveis ou para abrigar usinas eólicas é ridícula. Nós faremos o possível para sobreviver, mas infelizmente eu não consigo ver os EUA ou as economias emergentes da China e da Índia voltando no tempo -e eles são as maiores fontes de emissões. O pior vai acontecer, e os sobreviventes terão de se adaptar a um clima infernal.
Talvez o mais triste seja que Gaia perderá tanto quanto ou mais do que nós. Não só a vida selvagem e ecossistemas inteiros serão extintos, mas na civilização humana o planeta tem um recurso precioso. Não somos meramente uma doença; somos, por meio da nossa inteligência e comunicação, o sistema nervoso do planeta. Através de nós, Gaia se viu do espaço, e começa a descobrir seu lugar no Universo.
Nós deveríamos ser o coração e a mente da Terra, não sua moléstia. Então, sejamos corajosos e paremos de pensar somente nos direitos e necessidades da humanidade, e enxerguemos que nós ferimos a Terra e precisamos fazer as pazes com Gaia. Precisamos fazer isso enquanto somos fortes o bastante para negociar, e não uma turba esfacelada liderada por senhores da guerra brutais. Acima de tudo, precisamos lembrar que somos parte dela, e que ela é de fato nosso lar.

James Lovelock é um dos mais renomados cientistas ambientais do mundo e membro da Royal Society, do Reino Unido. Em 1979, lançou a hipótese Gaia, de que o planeta se comporta como um organismo vivo/span>

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

O Gandhi da Energia Nuclear


Por Eduardo Szklarz - Superinteressante (Brazil) - December 2018
Quem diria. A energia nuclear, alvo histórico dos protestos ambientalistas, pode ser a chave para nos salvar do aquecimento global. Mais surpreendente ainda: quem defende a idéia é o inglês James Lovelock, uma espécie de guru dos ecologistas. Aos 98 anos, o cientista afirma que precisamos interromper imediatamente a queima de combustíveis fósseis, que piora o efeito estufa. "A única forma de energia imediatamente acessível que não causa aumento de temperatura é a nuclear. Não temos tempo para experimentar", diz. A idéia logo foi rechaçada por organizações ambientais como Greenpeace e Amigos da Terra. E fez o cientista ver renegado o apelido que ganhou da revista New Scientist: "Gandhi da ciência".
Na teoria que o consagrou, Lovelock descreve a Terra como uma espécie de superorganismo formado pela superfície, ar e oceanos. O planeta funcionaria como um sistema vivo capaz de regular a composição atmosférica, o clima e a salinidade dos mares, o que o manteria sempre adequado para a vida. Fez um baita sucesso com os verdes. O problema é que agora o aquecimento global agiria como uma armadilha para Gaia: o calor proveniente do efeito estufa gera ainda mais calor, num círculo vicioso.
Químico com doutorado em medicina e biofísica, Lovelock foi um dos primeiros ambientalistas a falar do aquecimento global, num relatório elaborado em 1989 para o gabinete da primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher. Best sellers como As Eras de Gaia o tornaram um dos cientistas mais influentes do século 20, com títulos de doutor honoris causa em diversas universidades ao redor do mundo. Lovelock concedeu esta entrevista de sua casa em Launceston, na Inglaterra.

Por que usar energia nuclear e não outras formas tidas como ecologicamente corretas, como a eólica e a solar?
Seria ótimo se pudéssemos contar somente com essas fontes de energia, mas elas não satisfazem nossas necessidades. Se houvesse 1 bilhão de pessoas no mundo, bastaria usar as energias solar, eólica, hidrelétrica e uma quantidade modesta vinda da queima de madeira. Mas já somos mais de 6 bilhões e a população continua aumentando. A energia nuclear é limpa e não provoca aquecimento. Uma estação pode ser construída em três anos. É também uma fonte de energia altamente disponível, não está acabando nem ficando mais cara, como o petróleo.

Um desastre como o de Chernobyl, na União Soviética, não seria suficiente para banir as usinas nucleares?
Há muita mentira em torno desse assunto. De acordo com informes da ONU, houve 45 mortos em conseqüência da explosão do reator em Chernobyl. Quase todos eram trabalhadores da usina, bombeiros e integrantes das equipes que sobrevoaram o fogo para apagá-lo. Os 45 morreram principalmente devido à radiação recebida pelo reator aberto e pelos escombros altamente radioativos que se espalharam ao redor dele. Aqueles que moravam perto da usina foram expostos à radiação, mas continuam vivos. É verdade que alguns podem morrer antes do esperado com cânceres provocados por radiação, mas lembre-se: em 1952, 5 mil pessoas morreram em Londres, num único dia, envenenadas por fumaça de carvão. Estima-se que centenas de milhares morreram desde então em decorrência de câncer do pulmão causado pela inalação de substâncias cancerígenas na fumaça. Mas a mídia não fala da queima de carvão como causa massiva de tumores.


Por que, então, há tanta oposição ao uso da energia nuclear?
As pessoas sempre têm medo de algo. Antes, eram fantasmas e vampiros. Hoje, energia nuclear. A oposição baseia-se numa ficção hollywoodiana, na mídia e em lobbies do movimento verde.

Você sempre foi considerado um guru dos ecologistas e agora não perde uma oportunidade para criticá-los. Qual é o motivo desse desentendimento?
Os verdes são importantes, mas estão errados. Eles se preocupam com as pessoas e esquecem da saúde da Terra. Não percebem que somos parte do planeta e dependemos dele. Eu mesmo sou um verde, mas tento mostrar que estão errados sobre energia nuclear.

Ao quebrar átomos, as usinas nucleares não alteram o equilíbrio de Gaia?
Ao contrário. Se você olhar para o Universo, verá que sua energia natural é nuclear. Toda estrela é uma estação nuclear, inclusive o Sol. O único método anômalo de obtenção de energia é a queima de combustíveis aqui na Terra. É muito mais natural usar energia nuclear do que queimar carvão e mandar gás carbônico para a atmosfera.

Você pede o fim da queima de óleo e carvão. Mas muitos países, como o Brasil, têm na água a maior fonte de energia. Como a troca que você propõe mudará um quadro com tantas variáveis?
Concordo que diferentes países terão soluções distintas para o problema. Mas, no momento, usar energia nuclear é a saída mais acessível e realista para o aquecimento global. Estados Unidos, China e Europa precisam cortar imediatamente 60% do combustível fóssil queimado para não termos conseqüências desastrosas. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, a temperatura no planeta aumentará em média 3,5 graus até 2100. Para comparar, na última era do gelo, que terminou há 12 mil anos, a média de temperatura era 3,5 graus menor que em 1900. Ou seja: a mudança até 2100 será comparável àquela entre a era do gelo e 1900. A floresta amazônica não existia naquele tempo. E ela pode também não existir no fim deste século.

Basear a eletricidade em energia nuclear não provocará uma exploração desenfreada de urânio que ameaçaria a natureza de países como o Brasil?
Não, porque as quantidades são pequenas. Um quilo de urânio produz aproximadamente 10 milhões de vezes mais energia que a mesma quantidade de carvão ou petróleo. Na verdade, o Brasil poderia ter benefícios econômicos com a mudança, tornando-se um grande provedor mundial de urânio.

E o que faremos com o lixo atômico?
O volume de lixo atômico de alto nível produzido pelas usinas nucleares do Reino Unido, em seus 50 anos de atividade, equivale a 10 metros cúbicos. É tamanho de uma casa pequena. Se colocado numa caixa de concreto, esse lixo seria totalmente seguro e a perda de calor ainda poderia ser aproveitada para aquecer minha casa.

As usinas nucleares não podem se tornar alvo preferencial de terroristas?
Não creio. As estações nucleares estão localizadas em construções fortes. Parecem mais bunkers que edifícios normais. Tenho informações de que elas podem suportar o choque de um avião, por exemplo. O grande perigo em relação aos terroristas é que eles roubem plutônio ou urânio em quantidade suficiente para fazer uma bomba atômica rudimentar. Enormes estoques desses elementos foram armazenados na Europa, na ex-União Soviética e Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Você acredita que as multinacionais do petróleo podem encampar sua proposta e produzir energia nuclear?
Certamente. Elas não se consideram companhias de petróleo, e sim energéticas. Não lhes importa de onde a energia vem, mas o lucro que conseguem nesse preocesso. Creio que elas poderiam, inclusive, investir na construção e operação de usinas nucleares.
James Lovelock

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Luís Eduardo Soares lança livro em Salvador

Considerado um dos maiores especialistas em segurança pública do Brasil, o escritor e antropólogo Luiz Eduardo Soares esteve em Salvador nesta quarta-feira (31). Coautor dos volumes 1 e 2 da série Elite da Tropa, que inspirou os filmes Tropa de Elite, ele participará da abertura da 15ª edição do Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), que rola até sábado (3), na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Durante o evento, o ex-Secretário Nacional de Segurança Pública deu a palestra Política como Experiência: Ódio e as Linguagens da Intensidade, às 18h30, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Ufba. E ainda lançou seu mais novo livro, Desmilitarizar; Segurança Pública e Direitos Humanos (Boitempo, 2019
O CORREIO conversou com Luiz Eduardo Soares sobre a nova obra, a palestra no Enecult e o cenário da segurança pública no Brasil atualmente. Confira:
No Enecult, o senhor lançará seu mais novo livro, Desmilitarizar; Segurança Pública e Direitos Humanos. O que significa, de fato, desmilitarizar? 
Significa permitir que a polícia ostensivo-preventiva se organize de modo descentralizado, com flexibilidade adaptativa a circunstâncias locais, de acordo com as necessidades impostas por suas finalidades: servir à cidadania, garantindo-lhe os direitos, preservando-lhe a vida e a incolumidade. Hoje, como força reserva do Exército, a PM é obrigada a copiar seu modelo organizacional e sua cultura corporativa, adequados à guerra, não às metas de natureza policial, no estado democrático de Direito. Além disso, sendo militares, os policiais não podem se organizar e expressar, tornando-se vítimas de todo tipo de abuso e da superexploração de sua força de trabalho.
(Foto: Divulgação)

Também na obra, o senhor associa vários problemas relacionados à violência no Brasil com o racismo estrutural. Pode nos explicar essa relação?
Em 2017, segundo o Atlas da Violência mais recente, a taxa de homicídios dolosos cujas vítimas são negros foi de 43,1 por cem mil habitantes, enquanto a taxa relativa a vítimas brancas foi de 16 por cem mil. 75,5% das vítimas dos 65.602 homicídios eram negros. Entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios de negros cresceu 33,1%, enquanto a de não-negros cresceu 3,3%. São negros cerca de 70% dos presos no perverso sistema penitenciário brasileiro, nesse processo de encarceramento que criminaliza a pobreza, focalizando varejistas não-violentos, não-armados e não-organizados do tráfico. Temos a terceira população carcerária do mundo, já estamos nos aproximando dos 800 mil presos, e a que cresce mais velozmente. Trata-se de um apartheid e de um verdadeiro genocídio. Por outro lado, o encarceramento em massa fortalece as facções. Ou seja, nosso país está destruindo vidas jovens e contratando violência futura. Isso tudo não ocorre no vácuo: há uma história multissecular de escravismo e racismo, que se inscreveram nas estruturas sociais e nas instituições. É preciso com urgência caminhar para a legalização das drogas e o desencarceramento.
O senhor comenta que é difícil convencer a opinião pública que não é uma boa ideia liberar policiais a abater criminosos. Por quê? 
Há a crença de que, agindo com liberdade para matar, sem respeito à legalidade, as polícias serão mais efetivas no combate ao crime. Trata-se de uma ilusão, cujas consequências são trágicas, como demonstra a história recente do Brasil. Quando se dá ao policial na ponta liberdade para matar, dá-se também liberdade para não fazê-lo e negociar com o suspeito sua vida. Nenhuma moeda é mais atraente do que a sobrevivência. A vida não tem preço. Cria-se aí uma fonte poderosa e inesgotável de corrupção policial e anarquia institucional, de que derivam as articulações entre polícia e crime, por um lado, e o desdobramento desse fenômeno, as milícias. Portanto, em vez de polícia forte e eficiente, o resultado é polícia indissociável do crime. Ou seja, mais crime e crimes cada vez mais graves.
Por que o senhor dedica o livro às mães de jovens e policiais mortos? 
As mães são as que mais sofrem com a guerra fratricida entre jovens pobres, oriundos dos mesmos territórios vulneráveis. Policiais e as vítimas da brutalidade policial letal tornam-se inimigos, mas são irmãos. Se tivessem consciência política, se uniriam contra o racismo e a violência, em torno da vida, da verdadeira justiça, da democracia e dos direitos humanos.
O senhor foi Secretário Nacional da Segurança Pública em 2003. Percebe algum avanço e/ou retrocesso na área desde então? 
Houve alguns esforços meritórios, que não tiveram continuidade. Mas a grande reforma da arquitetura institucional da segurança pública e do modelo policial ainda estão por se fazer. Seria obra de Estado, não de governos, e teria de contar com ampla participação da sociedade e dos próprios profissionais. Entretanto, os militares, que são a maioria dos policiais, estão proibidos de qualquer participação, por serem militares. Claro que mudanças nas polícias e na arquitetura institucional não produziria transformações sem que, no plano da sociedade, não combatêssemos o racismo estrutural e as desigualdades.
Como avalia a situação atual do país? Quais as perspectivas para a segurança pública? 
A situação de nosso país é dramática. O governo federal tem feito o oposto do que seria necessário, promovendo a devastação da soberania nacional e dos direitos sociais, mergulhando o Brasil no obscurantismo mais sinistro. O pacote de Moro aponta para mais violência policial e mais encarceramento, enquanto Osmar Terra defende mais guerra às drogas. Estamos diante do abismo e o governo da ultra-direita nos empurra para o desastre.
Também no Enecult, o senhor dará uma palestra, "Política como experiência: ódio e as linguagens da intensidade". Como será?
Vou tratar do que o país tem vivido, na relação da subjetividade com a política, nos últimos anos, seus fundamentos e suas implicações.
Quais os seus projetos para 2019? 
Tenho andado pelo Brasil para apresentar meu livro e dar minha modesta contribuição à defesa do que nos resta de democracia

sábado, 27 de julho de 2019

Começo a ficar intolerante com os que se alegram com o fracasso do país


Ives Gandra Martins*
Toda manhã, ao ler os jornais, hábito que os mais jovens criticam como próprio da velhice, consumo minha dose de irritação com o desenvolver dos acontecimentos e por ver que a periferia do que é relevante é sempre a matéria de maior destaque nas manchetes jornalísticas.

Leia-se, por exemplo, o caso do ex-presidente Lula. Toda a defesa daquele ex-mandatário concentra-se em ter, o julgador, conversado de forma inapropriada com os promotores federais, o que, de rigor, não alterou o amplo direito de defesa que lhe foi assegurado durante todo o processo nas quatro instâncias. As provas, todavia, constantes dos autos, que serviram à condenação nas quatro instâncias, não são objeto das manchetes, tendo-se, inclusive, a impressão de que os diálogos criminosamente obtidos e conivente e convenientemente veiculados, se verdadeiros, valeriam mais que o fato material objeto da condenação. Como advogado há 61 anos, sempre entendi que a advocacia não tem sido bem tratada por magistrados, imprensa e população, que não percebem a importância do direito de defesa numa democracia.

No caso, todavia, o que menos se discute na imprensa é se haveria ou não prova material condenatória, o que levou um juiz, três desembargadores, cinco ministros do STJ e seis do STF a entender que haveria crime na conduta do ex-presidente.

Outra das minhas irritações reside nas turbulências destes primeiros meses. Aspectos positivos não têm repercussão na mídia, como o da maior safra de grãos, o da entrada do capital estrangeiro na casa de quase US$ 100 bilhões, a existência de saldos altos na balança comercial, a inflação abaixo da média estabelecida, a possibilidade de queda dos juros, o fato de as reservas serem superiores a US$ 380 bilhões, o relatório favorável do FMI sobre o estado das contas públicas, o sucesso nas programações de infraestrutura, a assinatura de um acordo emperrado há 20 anos entre Mercosul e União Europeia, o avanço e a liderança entre as nações na defesa dos valores familiares, a manutenção do combate à corrupção, inclusive até no que demonstra, na linguagem popular, ser pé quente, a vitória da seleção brasileira na Copa América, após anos de insucesso internacional. Até a boicotada reforma previdenciária avança.

Reconheço que a equipe presidencial, sem o traquejo político da anterior, está aprendendo a “andar de bicicleta andando”, mas a busca, da imprensa, por desacertos em cada um dos menores incidentes, que ganham, assim, proporções descomunais, parecem torná-los mais importantes do que alguns dos aspectos relevantíssimos da evolução do país. De longe, para tais caçadores de insucessos, vale mais o que vale menos e vale menos o que vale mais.

Começo a ficar intolerante com os que se alegram com o fracasso do país e que se vangloriam em ver a nação afundar por força de suas, quase sempre, infundadas críticas.

Outra das minhas irritações diz respeito à fantástica cobertura que se dá ao crime cibernético. Um gangster digital invade a privacidade das pessoas, regiamente financiado, utiliza-se do sigilo da fonte para que um jornalista, a conta-gotas, vá revelando o produto de seu crime e tal crime e tal parceiro do criminoso são alcandorados pelos que dizem que a mídia vive das más notícias, pois as boas não vendem jornal. De tal maneira, nenhuma cobertura se dá à investigação dos delinquentes da privacidade alheia. Não compartilho da teoria de que os fins justificam os meios, pois gera uma enorme insegurança jurídica, e o ideal de justiça, que é o desiderato maior do Direito, fica pisoteado, transformando-se em uma briga mesquinha pelo poder entre amigos e inimigos.

Tudo isso para um velho advogado de 84 anos gera desconforto, pois, neste final de vida, percebo que o país terá ainda que evoluir muito para viver a democracia que desde os bancos acadêmicos minha turma almejava para o Brasil.

“The last but not the least”, impressiona-me a crítica cerrada de determinada imprensa a ter o presidente declarado que não financiará um filme que enaltece a prostituição como meio de vida, por entender que a família é a base da sociedade e o filme ser corrosivo e deletério aos valores da família. Ora, o que o presidente declarou é o que está na Constituição, ao dizer que a família é a base da sociedade (artigo 226 caput) e que os meios de comunicação deverão ser utilizados para a defesa dos valores éticos da família e da sociedade (artigo 221, inciso IV). Não tem o menor sentido gastar dinheiro do povo para divulgar prostituição. É de se lembrar que a queda das grandes civilizações deu-se quando os costumes se deterioraram, com as mulheres prostituindo-se nos templos da Babilônia para conseguirem dotes para seus casamentos, assim como com o relaxamento dos costumes em Atenas, que terminou perdendo a guerra do Peloponeso para Esparta, e com a degradação familiar no Império Romano Ocidental, como Políbio referiu-se em seus escritos. Ora, ao cumprir o que determina a Constituição, valorizando a família — criou, inclusive, uma Secretaria Nacional da Família —, está o governo cumprindo rigorosamente a lei suprema. É preferível gastar dinheiro do povo com a saúde e educação do que com filmes dessa natureza.

Concluo estas linhas afirmando que em nenhum momento defendo preferências de magistrados pelos membros do Ministério Público ou desequilíbrio de tratamento entre o parquet e advocacia, como demonstrei no livro que coordenei com Marcos da Costa, intitulado A Importância do Direito de Defesa para a Democracia e a Cidadania, com a colaboração de ilustres advogados e juristas brasileiros. Toda a verdade deve ser apurada. Entendo, todavia, que os brasileiros deveriam dar aos fatos conhecidos a sua devida relevância, sem riscos de manipulação, seja pelos criminosos cibernéticos, seja pelas autoridades dos Três Poderes, pela mídia, por partidos políticos ou pelos formadores de opinião. Só assim poderemos entregar a nossos filhos e netos um país melhor do que o que recebemos de nossos ancestrais.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Governos do PT não aproveitaram o boom das Comodities

Em meados da década passada, até 2014, o Brasil e outros países da América Latina viveram uma abundância de recursos trazida pela alta internacional dos preços das commodities. Esses produtos, como petróleo, cobre, soja e minério de ferro, são a base de muitas indústrias de peso, e a China, uma de suas principais compradoras. 
Agora, a China passa por um momento de ajuste de sua economia para um ritmo de crescimento mais modesto que o da década passada – mas ainda assim colossal: Em vez dos 9% de anos atrás, agora o país cresce “apenas” 6%. 

(Foto:  O economista chileno José Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge)
Esse rearranjo chinês tem derrubado as bolsas de valores em todo o mundo, reflexo do pessimismo dos investidores com o quadro da economia e finanças globais para os próximos anos. Na América Latina, o que fica patente é que a região não aproveitou os recursos trazidos pelas commodities em alta para aumentar sua industrialização e diversificação produtiva, diz o economista José Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge e especialista em América Latina e Ásia. “Muitos dizem que a década perdida para a América Latina foi a de 1980”, afirma o professor. “Para mim, a década perdida foi a da alta dos preços das commodities e acesso facilitado às finanças. Não se fez praticamente nada pela indústria.”
Palma esteve em São Paulo na última semana para participar da sexta edição do Latin American Advanced Programme on Rethinking Macro and Development Economics, ciclo de debates sobre a economia latino-americana organizado pela Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas. O professor falou ao blog:
As previsões do mercado para queda do PIB do Brasil este ano já beiram os 3%, o que marcaria o segundo ano seguida de retração. O que explica uma recessão tão forte? Faltou uma reengenharia do modelo, que precisava ser repensado. No fim da década de 1990, o Brasil já produzia commodities em nível mundialmente competitivo, já tinha serviços de tecnologia, grande capacidade de gerar emprego em serviços. O que faltava era ênfase na manufatura. Naquela época, assim como agora, o país já necessitava de outro tipo de câmbio, de uma política industrial, um investimento público mais alto, e uma regulação efetiva das finanças para colocá-la a serviço da economia real. Há muitos anos, esse repensar de modelo, para mim, já era óbvio. E ninguém fez nada. Seja porque não se considerava necessário ou porque era muito complicado, não sei. Faltou a percepção para a necessidade dessa reengenharia e vontade de pô-la em prática. Isso explica a desaceleração da economia brasileira, porque esse modelo já deu o que tinha que dar.
Agora, desde a desaceleração até a crise há um salto. Essa inércia se somou à queda dos preços das commodities, na qual China tem metade da responsabilidade; a outra metade são dos mercados financeiros globais. Eles [os mercados] já estiveram tão líquidos e havia escassez de ativos financeiros sólidos para orientar essa liquidez. Então as commodities, como tinham um valor intrínseco, passaram a ser muito interessantes, e se tornaram ativos financeiros. Essa valorização e a demanda da China explica a alta de preços das commodities. O problema é que a China se desacelerou e o mercado financeiro está com problemas internos de uma magnitude quase do nível de 2007 e 2008. Então, eles tiveram que se desfazer de suas posições de commodities, afetando o preço e golpeando fortemente países como o Brasil. A soma de desaceleração, queda do preço das commodities e complexidade e fragilidade dos mercados financeiros levou à crise. A quarta força que motivou a crise foi a incerteza política, que não ajuda ninguém.
O Brasil e seus vizinhos subaproveitaram o período de commodities em alta?Muitos dizem que a década perdida para a América Latina foi a de 1980. Para mim, a década perdida foi a década de alta dos preços das commodities e acesso facilitado às finanças. Não se fez praticamente nada. Essas duas condições eram uma base potencialmente muito sólida para essa que chamei de reengenharia do modelo. Um ponto de partida para se implantar uma política industrial, com um câmbio mais competitivo, mais investimento público. Quando há recursos é que podemos fazer coisas. Atualmente, em meio à grande instabilidade, não há muito grau de liberdade fora de manejar a crise. O pior país de todos foi o Chile. As empresas estrangeiras de cobre no Chile tiraram, em doze anos, o equivalente a um PIB chileno, como repatriação de recursos. Era o momento de usar esse dinheiro para industrializar a exportação de cobre para que o governo tivesse royalties para financiar educação e saúde, entre outras coisas.
O caso do Brasil é diferente, pois havia muitas empresas brasileiras exportando commodities, não tantas estrangeiras. Mas se formos olhar o que ficou desse período de vacas gordas, olhamos para trás e não vemos nada. Não vemos mais investimento público, reindustrialização, melhora nos serviços. É como se esse boom não tivesse acontecido. O que ficou foram agentes financeiros muito ricos, aumento do consumo importante. São reflexos que, em si, não vão produzir diversificação produtiva, incremento de capacidade. No fundo, perdeu-se uma oportunidade que ocorre uma vez por geração. Parte disso foi porque em toda a América Latina se imaginou que esses preços altos das commodities durariam para sempre.
E como o Brasil pode sair da recessão sem depender de um novo ‘boom’ de commodities? O primeiro passo é pensar que pacote de políticas e ações vão ajudar o país a superar a crise. Depois disso, vem o “como começar a crescer” de novo. Os preços das commodities seguirão baixos por um período considerável. Portanto, não haverá estímulo dessa frente. Por outro lado, a situação fiscal do Brasil é um desastre. No ano passado, o déficit público nominal brasileiro foi quase 9% do PIB, um número muito grande. É algo que vai complicar muito a saída da recessão. E a situação financeira, pelas perdas de grau de investimento, tem pouco acesso a recursos externos.
Neste momento, ter saldo na balança de pagamentos só se consegue com um crescimento de zero. A balança de pagamentos, que foi bastante afetada pela queda das commodities e pelo pouco crescimento das exportações de manufaturas, hoje está em uma situação relativamente tranquila. Mas só porque a economia está estancada.
O grande problema do Brasil agora é como retomar o crescimento com uma balança de pagamentos que possa ser relativamente sustentável, sem ter os preços altos da commodities. O câmbio a 4 reais é fundamental para reestimular outros tipos de exportações, de semimanufaturados e manufaturados. Não há possibilidade de o Brasil retomar o crescimento enquanto as exportações de semimanufaturados e manufaturados não tenham dinâmica. Isso para que eles fechem a balança de pagamentos, já que as commodities não cumprirão esse papel.
Mas o Brasil já está preparado para ser um país relevante na exportação de manufaturas? Sem dúvida que há um processo lento, mas há suficiente capacidade instalada ociosa para começar a exportar. As fábricas e máquinas estão aí. Mas, para manter essa dinâmica, é preciso acesso a crédito e investimento em novas atividades. Mas o fundamental é ter mais industrialização do setor exportador, mais industrialização das commodities. Esse é o grande nicho brasileiro no mercado global.
O baixo nível de investimento, tanto público quando privado, preocupa? Não só preocupa como é o grande calcanhar de Aquiles. É o ponto central que determinará se o Brasil pode sair da crise e, depois, pode crescer. Os investimentos público e privado são baixíssimos. Durante todo o ciclo de preços altos das commodities e de fácil acesso ao crédito internacional, o investimento por trabalhador no Brasil foi menor em termos reais que o vista em 1980. Na Ásia, diferentemente, era ao menos cinco vezes maior. E o problema é que o Brasil, e outros vizinhos, tem uma dívida corporativa, em dólares, muito alta. O cenário é ainda mais difícil com esse novo câmbio. Diferentemente do governo, que tem reservas, as empresas têm que ter recursos para pagar suas dívidas. Se olharmos todos os países emergentes nos últimos sete anos, o Brasil é o quarto onde a dívida corporativa privada em dólares cresceu mais. Aí se pergunta: O que fizeram com esses recursos, que não foram para investimentos? Agora, eles têm de pagar, sem ter havido investimentos, e a um câmbio a 4 reais, e uma taxa de juros internacional que sobe.
Como a queda do preço do petróleo afeta o Brasil e outros países da região? O efeito é muito diferente, por exemplo, para Chile e Brasil. O Chile não produz petróleo, e 20% de suas importações é de petróleo. Então a baixa do preço quase compensou a retração do preço do cobre. É 100% positivo e salvou a balança de pagamentos. Mas para o Brasil, que produz, que tem uma Petrobras, em projetos de investimento muito grande, o efeito é mais complexo e misto. Há aspectos positivos e negativos. Ajuda alguns setores, que usam muito petróleo para sua atividade, mas castiga fortemente a produção e outras atividades relacionadas ao petróleo.
Outro aspecto a se considerar é que o mercado financeiro emprestou muito dinheiro a empresas de petróleo. Hoje, essa indústria, com o petróleo ao redor de 60 dólares, tem dificuldades de pagar. A crise que existe nos bônus corporativos no mundo começou com o problema de petróleo, pois empresas de emergentes, como a própria Petrobras, se endividou tanto que essa dívida é muito frágil.
A desaceleração da China é, de fato, negativa para todos? Tem aspectos positivos e negativos. Em economia, uma lei fundamental é a de que quando algum país tem que fazer um ajuste e não tiver outra alternativa, é muito melhor fazê-lo do que procrastiná-lo. A China se complicou numa “rua sem saída”. Desde a crise de 2007, toda a dinâmica de crescimento era incremento de investimento, que chegou a 47% do PIB. No Brasil, a taxa de investimento é muito menos da metade disso. Daí uma pergunta se coloca: Até quando se pode crescer só subindo o investimento? Isso gera, por um lado, muita fragilidade financeira, porque a alta de investimento gera dívida. Por outro lado, gera capacidade produtiva, as famosas “cidades fantasmas” na China, que ninguém sabia o que fazer com elas.
É um processo de crescimento que funciona no curto prazo, mas logo se esgota. O gigante asiático tinha duas tarefas fundamentais: reordenar suas fianças e reorientar seu crescimento. Assim como o Brasil precisa de uma reengenharia de modelo, a China também – e a fez. Lá, ainda que o investimento seja de 47% do PIB, o dobro do Brasil, o consumo das famílias é de apenas um terço do PIB, a metade do Brasil. Tanto a China precisa orientar-se rumo a menor investimento e maior consumo interno, como o Brasil precisa fazer o oposto.
Para dar um dado, o estoque da dívida da China havia crescido de 9 bilhões a 28 bilhões de dólares em sete anos. Só o crescimento é cerca de todo estoque da dívida dos Estados Unidos. A China tem que reordenar suas finanças para reorientar seu crescimento, e está fazendo a lição de casa. Os efeitos colaterais, que são consequência, se refletem no preço das commodities; o mercado internacional tem medo da dívida corporativa chinesa – e boa parte dela é impagável. Ou seja, todo o ajuste tem efeitos, com impactos para todo o mundo. A queda das ações de bolsas chinesas assusta mercados europeus e americanos. O efeito colateral é importante, mas vem de um processo inevitável. Postergar-lo não ajudaria ninguém. O pouco otimismo que tenho com a economia mundial é que a China está fazendo o que precisa ser feito.
O que difere tanto os países da Ásia e da América Latina? Não é que não saibamos o que temos que fazer; é que nunca fazemos. Os chineses sabem o que querem fazer e colocam em prática. A Ásia tem o pragmatismo, esse sentido de realidade de quando há uma necessidade, se faz, custe o que custar, doa a quem doer. Nós ficamos na vontade, no debate, e nada é feito.
Qual a sua perspectiva para a Argentina,  sob o comando de Mauricio Macri? O melhor que posso desejar ao governo de Macri é que consiga fazer o ajuste necessário na Argentina, que é muito complicado e difícil. Ele herdou uma economia com um câmbio altamente sobrevalorizado, contas públicas quase mais difíceis que as do Brasil, com um setor exportador pouco dinâmico, uma inflação muito reprimida. A economia que ele recebeu foi o pior presente de grego de quase toda a América Latina.
Tomara que faça um ajuste ordenado. Há duas formas: Um tratamento de choque ou ordenado. Se fizer um ajuste desordenado, rápido, para culpar o Kirchnerismo de todos os problemas resultantes, pode ser uma situação perigosa. Mas, com um ajuste do câmbio ordenado, assim como o dos preços e dos finanças públicas, a Argentina pode conseguir voltar a ter uma situação de estabilidade econômica interna.
O melhor prognóstico que tenho para a América Latina para daqui a cinco anos é de que os países que estão em crise, sobretudo Brasil, México e Argentina – que são os grandes -, saiam dela.
Em 2018, talvez? Há tanta coisa que pode acontecer que é muito difícil prever. E sou muito pessimista com o mercado financeiro internacional, em parte devido aos títulos corporativos de países emergentes, mas por outras tantas razões. Creio que pode haver outra crise do tipo de 2008, que vai encontrar países em desenvolvimento com pouca munição, pois já gastaram toda. Esta nova crise podem nos pegar em uma situação mais difícil que a anterior. A crise não tem por que ser pior, mas sim a capacidade de dar respostas a ela. E, portanto, o Brasil tem problemas internos, mas é vulnerável a problemas externos. No curto prazo, as coisas piorarão, antes de melhorar.

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