Observatório do Cotidiano

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segunda-feira, 10 de julho de 2017

FHC diz não ter espaço na agenda para se reunir com Temer

Valor Econômico
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) não deve ter nos próximos dias uma conversa com o presidente Michel Temer (PMDB), que no fim de semana procurou o tucano para tentar agendar um encontro. 
Fernando Henrique, segundo sua assessoria, não confirmou por falta de espaço na agenda. 
Na noite desta segunda-feira, o ex-presidente se reúne num jantar em São Paulo com dirigentes e governadores do PSDB para discutir a crise política. 
Na terça, viaja para a Europa. 
Fernando Henrique considerou “muito ruim” a situação política atual, mas disse que não teria como antecipar uma posição oficial do partido. 
O ex-presidente comentou declaração do presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati, de que a crise estava insustentável a cada dia, e que a saída do partido do governo seria inevitável. “Ele expressou sentimento da Câmara, sentimento da sociedade, mas não o de todos os governadores”, disse Fernando Henrique. 
O ex-presidente afirmou ver a possibilidade de antecipação das eleições, “mas só com a renúncia de Michel Temer precedida de conversa com todos os grandes partidos e não somente com o PSDB”.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Estaleiro Enseada busca novos negócios

Sem encomendas e com uma dívida bilionária para pagar, a empresa Enseada Indústria Naval planeja explorar uma nova atividade na área onde está construído o estaleiro Enseada Paraguaçu, no interior da Bahia. A ideia da empresa, que tem como sócia as empreiteiras envolvidas na Lava Jato Odebrecht, OAS e UTC, além da japonesa Kawasaki, é aproveitar a estrutura montada para construir navios – que custou R$ 2,7 bilhões – e criar um polo industrial e logístico. “Já temos o ativo físico, como o cais, guindastes, acesso e um terminal de uso privado licenciado, além das licenças ambientais de operação. Isso nos dá uma vantagem competitiva”, afirma o presidente da empresa Fernando Barbosa. Segundo ele, esse terminal seria usado para a importação de combustíveis, que hoje tem carência de infraestrutura em todo o Brasil. Na Bahia, diz o executivo, os grandes terminais de líquidos são ocupados pela operação de refinaria e pelo polo petroquímico. Apesar da infraestrutura construída no local, a empresa ainda teria de investir em tancagem e ter autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A nova empreitada, no entanto, depende de negociações em andamento com um novo sócio, diz Barbosa. “A partir dessa definição, em um ano conseguiríamos ser operacionais.” O executivo destaca, entretanto, que apesar da nova atividade, a estrutura do estaleiro será mantida, na esperança de uma reversão do cenário atual. O Enseada Paraguaçu está construído numa pequena parte do terreno de 1,6 milhão de metros quadrados. Desse total, 300 mil m² é reserva ambiental e o restante está disponível para novas construções. Sem contratos A busca por uma nova atividade tem o objetivo de rentabilizar o negócio da empresa, que teve um baque com a Operação Lava Jato e a crise da Petrobrás. A Enseada tinha contratos de US$ 4,8 bilhões com a Sete Brasil (empresa criada para intermediar a construção de sondas da Petrobrás para exploração do pré-sal) para construir seis navios sondas até 2020. Mas a Sete Brasil entrou em recuperação judicial e deixou de pagar, segundo Barbosa, R$ 1,7 bilhão para a empresa de serviços aprovados e medidos. Quando a crise atingiu a empresa e o setor, o estaleiro estava com 82% das obras concluídas e consumido investimentos de R$ 2,7 bilhões. No total, o empreendimento custaria R$ 3,2 bilhões. Hoje, embora seja operacional, o estaleiro está parado, com apenas 90 trabalhadores responsáveis pela manutenção dos equipamentos. Recuperação Com uma dívida de R$ 1,2 bilhão, sem encomendas e sem caixa, a saída para a Enseada foi entrar com pedido de recuperação extrajudicial, em janeiro deste ano. “Diferentemente da recuperação judicial, no extrajudicial a gente já entra com um plano de trabalho aprovado por, no mínimo, 64% dos credores. E conseguimos isso”, diz o presidente da empresa. De acordo com o cronograma, a empresa teria um tempo para negociar com os credores restantes para aderir ou não ao plano. Após esse período, o juiz homologaria a recuperação da empresa. Até agora, no entanto, isso não ocorreu. A expectativa era que isso ocorreria entre esta semana e a próxima, afirma Barbosa. Como o Enseada, outros estaleiros estão com problema no Brasil inteiro desde que a Operação Lava Jato foi deflagrada. As denúncias envolvendo as empreiteiras (sócias de boa parte dos estaleiros) e a Petrobrás respingaram na Sete Brasil, que parou de pagar os estaleiros. Além disso, a Petrobrás reviu todo o seu plano de investimento. “Os estaleiros foram levantados com uma expectativa da Petrobrás de um cenário extremamente otimista. A realidade se mostrou diferente. Era um sonho que não tinha nenhum sentido. Hoje a expectativa é muito mais modesta”, afirma Barbosa. Fonte: Repórter Diário

Brasil perde mais de U$60 bilhões em investimentos com a crise

O presidente de uma empresa que atua na área de infraestrutura, com a forte oscilação do dólar e do mercado de ações, as equipes estão em reuniões para “reorganizar o orçamento”, traçando cenários de maior instabilidade. No dia seguinte às denúncias, o dólar avançou mais de 8%, na maior alta desde a maxidesvalorização, em 1999.
“As empresas devem suspender grandes investimentos, pois é preciso delimitar o impacto da crise. Os investimentos que poderão ser mais afetados são os atrelados a áreas reguladas, pois dependem do governo para que sejam operacionalizados, como os de infraestrutura. Os investidores vão tirar o pé do acelerador”, diz Cláudio Frischtak, sócio da Inter.B.
Segundo projeção da consultoria, dos R$ 60,5 bilhões em investimentos privados previstos para este ano, R$ 30,6 bilhões estão destinados aos transportes, como ferrovias, portos e aeroportos. Energia tem programados R$ 16,1 bilhões, e telecomunicações, outros R$ 11,8 bilhões. “Investir é uma aposta no futuro. Tem que ter previsibilidade”, destacou Frischtak.
Já Gomes, da Alvarez, teve de aumentar o expediente para atender aos fundos de investimento estrangeiros atrás de respostas sobre o atual momento. Como consequência, lembra que uma empresa, com atuação em concessões e em energia elétrica, suspendeu seu processo de venda, que estava marcado para o dia 29.
“A data de fechamento da operação foi cancelada. Um fundo de investimento dos EUA estava negociando a compra por R$ 1 bilhão e iria investir mais R$ 1 bilhão. Nessa crise, os fundos de investimento são mais reativos à instabilidade. A primeira reação é esperar. O setor mais afetado será o de infraestrutura, como saneamento, aeroporto e rodovia”, Gomes.
Ele cita ainda a suspensão do processo de compra de uma empresa brasileira de varejo com atuação nacional por uma americana. “A companhia dos EUA vai esperar de três a quatro meses para ver como vai se comportar o dólar, pois poderá ver o ativo brasileiro ficar mais barato. É um balde de água fria. Apesar das incertezas, no setor de petróleo e gás os investidores continuam interessados em participar dos três leilões previstos para este ano, dois no pré-sal e um no pós-sal.”
Carlos De Luca, da De Luca Consultoria e ex-presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), acredita que as empresas não vão perder a oportunidade de acessar os campos do pré-sal. “A notícia assustou. Acredito que pode ter algum dano, que pode preocupar alguma empresa que estaria vindo para cá pela primeira vez. Mas os investimentos são de longo prazo.”
Para Venilton Tadini, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Base e Infraestrutura (Abdib), avalia que ainda é cedo para se tomar decisões. “Esperamos que a questão política seja resolvida o mais rapidamente possível.”
Para um executivo de aeroportos, a curto prazo, a tendência é que os investimentos que poderiam se concretizar por meio de leilões sejam adiados. Mas ele lembra que os projetos de infraestrutura são de longo prazo e, por isso, os investidores devem apenas retardar sua vinda ao país.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A história da JBS

A história da JBS é uma pequena história do Brasil
A JBS foi a maior doadora de campanha nas últimas eleições. Liberou quase 400 MILHÕES de reais em 2014 para políticos de praticamente TODOS OS PARTIDOS. 
O lucro líquido da JBS em 2016 foi de R$ 5,1 BILHÕES de reais. E a sua receita líquida de R$ 162,9 BILHÕES. -Ao acertarem a delação, os irmãos Joesley e Wesley pagarão uma singela multa de 225 milhões de reais. Não serão presos e poderão continuar à frente da JBS, sem restrições. E mais nada. 
O BNDES despejou mais de R$ 10 BILHÕES na JBS nos governos Lula e Dilma, tornando-se SÓCIO da empresa, com participação de cerca de 25% atualmente (em conjunto com a Caixa Econômica). 
A injeção direta de dinheiro público foi fundamental para que a JBS adquirisse inúmeros concorrentes nos últimos anos e se tornasse A MAIOR PROCESSADORA DE CARNES DO MUNDO. 
O grupo tem hoje mais de 210 mil funcionários, espalhados pelo Brasil e pelos países onde estão instalados – Argentina, Uruguai, Itália, México, Canadá, Estados Unidos e Austrália. 
A JBS está de mudança para o exterior. E essa é a explicação para que o empresário tenha decidido fechar a toque de caixa a delação das delações. -Joesley Batista quer assegurar o passaporte de seu grupo para fora do Brasil. Para garantir a execução do plano traçado, a empresa e seus controladores precisavam se acertar com o Departamento de Justiça dos Estados- Unidos, o poderoso DoJ. 
A maior parte das operações do JBS — quase 80% — já estão no exterior hoje. Nos Estados Unidos são 56 fábricas de processamento de carne e quase metade das suas vendas globais. 
Em dezembro o grupo aprovou a realização de um IPO na Bolsa de Nova York, num amplo processo de reorganização que levará o grupo a deixar de ser essencialmente brasileiro. A empresa que abrirá o capital é a JBS Foods International, com sede na Holanda, e que deterá todos os negócios internacionais da JBS e da Seara. 
Ainda no ano passado, o grupo tentou migrar sua sede para a Irlanda, como parte desse plano, mas a rota teve que ser alterada por oposição do BNDES e quando o Brasil passou a considerar aquele país um paraíso fiscal. 
A JBS também é dona do Banco Original, presidido por Henrique Meirelles, ministro da Fazenda do governo Temer e ex-presidente do conselho de administração da holding J&F. 
A Eldorado Celulose, empresa da J&F Participações, também é investigada na Lava Jato. -A origem da JBS é um pequeno açougue, a Casa de Carnes Mineira, fundado em 1953, em Anápolis, Goiás. 
O negócio começou a prosperar com INCENTIVOS FISCAIS oferecidos pelo GOVERNO De JUSCELINO KUBITSCHECK aos fornecedores dispostos a atender às necessidades de carne da construção de Brasília. 
Com isso, José Batista Sobrinho, o “Zé Mineiro”, pai de Wesley e Joesley, passou a VENDER CARNE PARA EMPREITEIRAS. 
No final dos anos 70, a família se mudou para a capital federal. A maior frustação da mãe era a inaptidão dos rapazes para o estudo. Todos deixaram o colégio antes do término do 2º grau e foram trabalhar com o pai. 
Quando Wesley e depois Joesley decidiram pegar no batente, o pai entregou um negócio para cada um e disse que se virassem. Nessa época, ele tinha dois pequenos frigoríficos em Goiás, já conhecidos por Friboi, nome dado por um cliente amigo. Júnior tocava os negócios em Brasília. Os três filhos aprenderam a administrar na prática. Nunca fizeram curso de contabilidade ou alguma especialização em finanças ou administração. Nos frigoríficos de que tomavam conta, faziam de tudo: do controle do caixa até acompanhar o abate dos animais. 
O ponto de inflexão na trajetória da empresa se deu em meados dos anos 90. A valorização cambial, provocada pela paridade da moeda brasileira com o dólar, fixada pelo Plano Real, derrubou as exportações dos grandes frigoríficos, que perderam competitividade internacional e entraram em crise. Já a Friboi, que vendia para o mercado interno, teve um ganho considerável em razão da explosão do consumo de carne provocado pela melhora do poder aquisitivo dos brasileiros. 
Com o caixa fortalecido e se valendo de crédito público, os irmãos Batista foram às compras. Adquiriram uma série de frigoríficos endividados, à beira da falência, sem condições de continuar a operação. Primeiro arrendaram uma unidade do Bordon que estava desativada. Dali foram aumentando sua participação no mercado, usando as aquisições como estratégia. “A gente pegava os frigoríficos mal das pernas, saneava e botava pra funcionar”, explicou Joesley. “Pegamos uma época boa. 
Os frigoríficos exportadores estavam mal e nós estávamos bem, com dinheiro em caixa.” Um analista definiu essa estratégia da JBS como, no mínimo, peculiar. “Foi uma forma diferente de crescer nos negócios”, disse-me ele num café em São Paulo. “Eles não expandiram para depois comprar. Eles foram comprando para se expandir.” 
No começo de 2000, eles já eram donos de alguns dos mais importantes frigoríficos, como o Anglo – o maior de Goiás –, o Bordon e a Swift Armour. A compra do Bordon foi uma das grandes tacadas dos Batista. O negócio foi feito em sociedade com outro grande frigorífico, o Bertin, do interior de São Paulo. Os futuros proprietários, amigos de longa data, não tiveram dificuldade para entrar em entendimento. Com um empréstimo do Banco do Brasil, adquiriram o Bordon – que, embora quebrado, tinha uma excelente operação de exportação de carne processada (enlatada e moída). 
Dessa sociedade surgiu a BF, de Bertin e Friboi, que a partir daí passou a trabalhar não apenas com o abate, mas também com carne industrializada. Em 2009, a sociedade foi desfeita. Os Batista compraram a parte dos Bertin e ficaram sozinhos no negócio. 
Em 2007, com a abertura de capital, a empresa mudou de patamar. O negócio saiu da casa dos milhões de reais para a de bilhões. “A abertura de capital se deu num momento extraordinário”, empolgou-se Wesley, durante uma conversa na JBS. “O mundo estava jorrando liquidez e fizemos o maior IPO (oferta pública inicial de ações, em português) da Bolsa brasileira. Vendemos 20% da empresa por 800 milhão de real”, disse ele. Tanto Wesley como Joesley nunca pronunciam o plural de milhões e bilhões, o que acaba por atenuar o impacto das cifras, como se estivessem tratando de tostões no varejo. -Poucos meses após a bem-sucedida oferta de ações, eles foram procurados pelo J.P.Morgan. O banco americano fora incumbido de vender a Swift americana, um dos mais tradicionais frigoríficos dos Estados Unidos, fundado em 1885, que naquele momento pertencia a um fundo de ações. 
Para disputar a concorrência, eles precisavam de um avantajado aporte de capital. Os 800 milhões de reais que haviam levantado na Bolsa não seriam suficientes. Foi então que o BNDES foi convocado a entrar no jogo como sócio – de onde não saiu mais. 
A JBS começava a se transformar no maior símbolo do projeto de campeões nacionais idealizado por Luciano Coutinho, presidente do BNDES. -A Seara no oeste de Santa Catarina, é a segunda maior empresa de alimentos processados do país, só perdendo para a Brasil Foods (BRF), resultado da fusão da Perdigão com a Sadia. Desde 2013 ela pertence à JBS. 
O frigorífico Marfrig, dono da Seara, tinha uma dívida de 5,8 bilhões, que os Batista assumiram em troca da empresa. 
Um dos maiores problemas do grupo, no momento, é um negócio fora da área de alimentos: a empresa Eldorado, de papel e celulose. Suas duas imensas fábricas em Mato Grosso do Sul receberam empréstimo de 4 bilhões de reais do BNDES, além de apoio dos fundos de pensão das estatais, como o Petros, da Petrobras. A empresa, inaugurada com a presença do vice-presidente, Michel Temer, e com show do cantor lírico italiano Andrea Bocelli, ainda não decolou e seus resultados têm sido desanimadores. Sua dívida é de 6,7 bilhões de reais, para um patrimônio de apenas 886 milhões. O prejuízo no terceiro trimestre de 2014 foi de 184 milhões de reais. Afora isso, sua concorrente Fibria entrou na Justiça acusando a Eldorado de ter lhe roubado um produto patenteado. 
O total de repasses do Tesouro a bancos públicos para fomentar o crédito cresceu mais de 30 vezes entre 2007 e o ano passado: de 14 bilhões, passou para 477 bilhões de reais. Essa foi uma das razões para o péssimo resultado das contas públicas em 2014, a pior da última década. 
A visita de Joesley a Temer, no Palácio do Jaburu, dura menos de 38 minutos. A conversa entre Joesley e o presidente começa, de fato, a partir do quinto minuto da gravação. O diálogo sobre a condição do país dura pouco mais de três minutos. 
Todo o restante do bate-papo é concentrado nos problemas da JBS e dos irmãos com a Justiça. Sem nenhuma cerimônia, Joesley fala sobre sua gestão dessas crises, com pagamento a políticos e membros do Judiciário, como juízes e procuradores. O empresário fala, inclusive, sobre a tentativa de trocar o procurador que ‘estava atrás’ dele. 
“Foi o perfeito golpe de mestre”, disse o presidente de um banco. “O Joesley fez o que fez porque está de mudança para os Estados Unidos. Pagará uma multa patética e irá embora, deixando o país na lama”, completou. Um outro alto executivo de instituição financeira relutava em acreditar que não haverá uma pena adicional para Joesley Batista. 
“O sujeito faz e desfaz, paga todo mundo e, além de tudo, vai embora, passar bem em Nova York. A mensagem que fica é que o crime compensa”, disse o gestor de um grande fundo de participações em ativos de infraestrutura. Junto com a indignação sobre as penas, havia uma cobrança pela contextualização da autorização para que a família toda pudesse ficar fora do Brasil. “Cadê a autorização judicial? Quem deu?”, disse um outro executivo. – Fontes: Piauí, 2015: 

Entenda o golpe de mestre de Joesley Batista via Teoria dos Jogos

Alexandre Morais da Rosa*
O empresário Joesley Batista deu um xeque-mate. Fez uma jogada de mestre. 
A perplexidade de alguns contracena com a ação eficiente de Joesley, sócio da JBS, para salvar seu grupo empresarial e sua liberdade, típica de quem domina a lógica do novo modelo de compra e venda de informações. 
Farei uma análise via Teoria dos Jogos, tema que tenho procurado estudar [1] . Sou favorável à delação premiada, embora reconheça que há certa ambiguidade e ausência parcial de regras claras sobre o modo de produção desse modelo negocial. Para entender o êxito da estratégia definida por Joesley e seus advogados, seguirei o seguinte trajeto: 
1) as investigações estavam chegando aos interesses de seu grande conglomerado empresarial, cujos lucros foram de R$ 4,6 bilhões em 2015 e de R$ 694 milhões em 2016, sendo necessário agir para (i) manter a vitalidade da empresa e (ii) mitigar os efeitos da ação penal sobre a liberdade dos sócios; 
2) para obter a estratégia dominante/dominada, abrem-se duas táticas: (i) passiva : aguardar o desenrolar das investigações, tomando-se medidas preventivas, arriscando-se em um processo penal cujos estragos seriam postergados no tempo (que custa dinheiro), com a real possibilidade de sanções patrimoniais e principalmente a prisão dos envolvidos internamente, dentre eles Joesley; (ii) ativa : agir para produzir material capaz de ser trocado no mercado da delação premiada, atualmente em pleno funcionamento no sistema processual penal brasileiro. A escolha foi pela segunda opção, lançando-se a campo. Na avaliação de riscos, a tática adotada é a dominante para qualquer um que pense como um “homem de negócios”; 
3) adotada a tática ativa, surge a necessidade de que as informações tenham valor de troca, ou seja, de que seja possível chamar a atenção dos compradores (Ministério Público e Polícia Federal) pela qualidade e relevância, bem assim do fator impacto de seu conteúdo; 
4) inventariar a informação exigia um duplo movimento entre o passado e o futuro. De um lado, levantou-se o que tinha de informação capaz de chamar a atenção dos compradores e, por outro lado, diante da oportunidade de consolidar as informações produzindo gravações que seriam a prova real, agiu de modo eficiente. O portfólio de provas a se mostrar foi bem desenhado, contando com a coprodução de agências estatais, capazes de atestar a regularidade e a cadeia de custódia: ação controlada, monitoramento do dinheiro por chip etc. Como bom negociador do mercado, o delator sabia que precisava de algo raro, valioso e irrefutável; 
5) no atual contexto, nada melhor do que gravações de conversas para causar o impacto direto, irrefletido, imediato e avassalador. Se não há o produto, seria necessário o criar. A produção de material probatório então precisava de uma estratégia de aquisição que, habilmente, contou com o planejamento estratégico de ações, coordenadas para comprovação das conversas, devidamente gravadas, a entrega de dinheiro, previamente identificado e com localização por chip eletrônico, tudo para comprovar a cadeia de custódia do dinheiro. Delineado o curso tático, promoveu-se com pleno êxito, juntando-se, em ordem: a) conversas gravadas indicando a realização das condutas; b) efetivação das ações programadas; c) filmagens e monitoramento eletrônico do trajeto do dinheiro; c) preservação das fontes e do material produzido; 
6) a consolidação do material de alto valor fez com que fosse possível, invertendo a tendência passiva, a negociação dos termos finais da delação, mediante cooperação, pagamento de multa relevante, mas incapaz de impedir a continuidade das atividades, evitando-se, ainda, a prisão. Xeque-mate desferido, rei encurralado, delação homologada, segue-se adiante com novos desafios do mercado. 
Aliás, com informação privilegiada sobre corte de juros e alta do dólar, o que fez o nosso personagem: utilizou a informação para operar seus interesses, “rifando” o Brasil, como aponta o jornal Valor Econômico . Os juristas do processo penal baunilha não entendem muito bem como isso se passa. Tenho insistido em ler o processo penal pela via da Teoria dos Jogos justamente para indicar um design de compreensão dos processos penais reais, cujo palco probatório deixou de ser no Poder Judiciário, para se resolver na fase de investigação, onde uma gravação vale ouro, a saber, gravações são o novo Habeas Corpus. 
P.S. Você pode ser perguntar por que alguns meios de comunicação que sempre defenderam os protagonistas, agora, inverteram o jogo. A questão é meramente econômica: a) a informação é relevante e com gravações, hot notícia; b) quem der o furo da informação ganha mais acessos e melhora a audiência; c) a JBS é um anunciante importante aos meios de comunicação; d) na análise de custo-benefício, não há questões morais ou éticas; e) quando o time está perdendo, economicamente, vale a pena mudar de lado e ganhar. Eis o jogo do mercado midiático. Ler Ramonet ajudaria a compreender. 
*Alexandre Morais da Rosa é juiz em Santa Catarina, doutor em Direito pela UFPR e professor de Processo Penal na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e na Univali (Universidade do Vale do Itajaí).

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