Observatório do Cotidiano

Reflexões e artigos sobre o dia a dia, livros, filmes, política, eventos e os principais acontecimentos

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Um dia de chuva em Nova York

Fernando Campos*
Um Dia de Chuva em Nova York quase se tornou um filme perdido. Após as acusações de abuso sexual feitas por Dylan Farrow contra Woody Allen retornarem à mídia, a Amazon decidiu cancelar o lançamento do longa e encerrou um contrato que mantinha com o diretor para a realização de mais três filmes. Até que um acordo com distribuidoras permitiu que a película fosse exibida fora dos Estados Unidos. Não entrarei no mérito se devemos separar ou não a obra do artista, mas o fato é que Allen entrega um filme próximo dos seus últimos trabalhos, ou seja, com momentos que justificam o status de grande diretor que adquiriu e outros que exemplificam a perda da qualidade das obras recentes.
O filme apresenta o jovem casal formado por Gatsby (Timothée Chalamet) e Ashleigh (Elle Fanning). Os dois planejam uma viagem romântica a Nova York após a garota receber um convite para entrevistar o famoso diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). No entanto, a aproximação de Ashleigh com figurões do cinema mudam o roteiro da viagem, obrigando Gatsby a aproveitar sozinho a cidade, o que resulta em encontros com amigos do passado, familiares e com a irmã de uma antiga namorada, Chan (Selena Gomez).
Desde os primórdios do cinema estadunidense, um dos grandes clichês do gênero romance é a chuva que molha a cidade momentos antes do casal principal dar o primeiro beijo ou se relacionar sexualmente, servindo como ferramenta para criar uma atmosfera de desejo. Como o título sugere, Allen se apropria desse conceito para debater aparências de pessoas supostamente românticas ou de casais felizes na fachada.
Perceba como Gatsby, quando perguntado se ama Ashleigh, gagueja durante a resposta e diz que sim, mas porque ela é uma pessoa adorável e bonita, jamais afirmando com certeza. Ou como Roland, um intelectual do cinema, recorre às estratégias mais clichês possíveis para paquerar a jovem. Outro exemplo está na cena que Gatsby encontra seu irmão e a noiva, descobrimento que, por trás da imagem feliz do casal, há uma enorme frustração.
Ou seja, a mensagem aqui está em como uma parcela grande da sociedade vê no amor uma obrigação e certas pessoas como um “partido” irrecusável, exemplificado na cena que o irmão de Gatsby diz que ele deve se casar com a namorada simplesmente porque ela é bonita, pouco importando o sentimento da relação. Para Allen, porém, o romance surge do inesperado e da atração intelectual.
Essa linha do roteiro funciona com precisão uma vez que o arco de Gatsby é justamente o do amadurecimento emocional e descobrimento do próprio romantismo, fugindo das aparências da família e assumindo a própria narrativa. Portanto, a temática jamais soa vazia, fazendo-nos passar pela mesma jornada do protagonista.
Já a direção faz o papel de criar uma atmosfera romântica, iluminando personagens com cores quentes, mas também de desejo, com o uso do vermelho pela direção de arte e figurino, estratégia que visa ressaltar como atração física e amor se confundem. Enquanto isso, a edição acerta ao intercalar os blocos de Gatsby e Ashleigh de maneira equilibrada, resultando em um ritmo agradável.
Porém, os problemas em Um Dia de Chuva em Nova York começam ao analisarmos Ashleigh. Enquanto Gatsby possui camadas e nuances, ela é o estereótipo da garota jovem, bonita e ingênua, que não percebe os flertes dos homens ao redor. Além disso, a personagem desequilibra o humor do longa, protagonizando cenas que apostam no bobo para fazer graça, como, por exemplo, os soluços dela momentos antes de sair com um galã de Hollywood.
Mesmo que fosse necessário um par problemático para que o protagonista amadurecesse, o roteiro, escrito por Allen, transforma Ashleigh em uma personagem exageradamente rasa. Já Chan, que poderia ser uma figura feminina marcante na obra, se resume a uma provocadora que parece existir para estimular a intelectualidade do personagem masculino, situação que acontece em outros filmes do diretor. No fim, temos Gatsby, um personagem interessante e bem desenvolvido, mas Ashleigh e Chan, que não recebem o melhor tratamento por parte do filme.
Isso se reflete, por exemplo, na performance do elenco. Timothée Chalamet personifica uma versão jovem de Woody Allen com charme, investindo em momentos de ironia inteligente e uma melancolia bem humorada. Já Elle Fanning tenta construir uma personagem ingênua, mas erra no tom, e Selena Gomez pouco faz com Chan, parecendo apenas uma versão de si mesma.
Um Dia de Chuva em Nova York traz reflexões inteligentes sobre amor e romance, mostrando como muitas pessoas aceitam relações por status, valorização da imagem pessoal e obrigação perante a sociedade. Porém, o enfraquecimento das personagens femininas impede que a obra ganhe substância.
Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York) – EUA, 2019Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Timothée Chalamet, Elle Fanning, Selena Gomez, Jude Law, Diego Luna, Liev Schreiber, Rebecca Hall, Griffin Newman, Kelly Rohrbach, Suki Waterhouse
Duração: 92 min
FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

R$ 2 bilhões para o Gerenciamento da Amazônia Azul

O comandante da Marinha do Brasil, o almirante Ilques Barbosa Junior, diz que uma das lições tiradas da crise envolvendo o derramamento de óleo pela costa brasileira é que o país precisa investir em um sistema de monitoramento de seu litoral semelhante ao que ocorre no espaço aéreo. O custo do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, nome dado pelos militares à costa, seria de aproximadamente 2 bilhões de reais. Em um período em que o país passa por contingenciamento de verbas públicas e redução de gastos na área ambiental, contudo, não há previsão para que esse projeto saia da fase de planejamento.
“Existem falhas que foram apontadas no acompanhamento de navios mercantes. Esse monitoramento tem de caminhar como o que é feito com os aviões. Os aviões comerciais hoje são acompanhados. Os navios, não”, afirmou o chefe da força em entrevista nesta semana a um grupo de cinco correspondentes de meios estrangeiros baseados em Brasília.
O almirante buscará apoio no Parlamento para que os próximos orçamentos destinem uma verba para esse sistema a ser criado. Ele se prepara para depor na CPI do Óleo, a comissão parlamentar de inquérito que será instalada na Câmara para investigar as causas e tentar apontar culpados pela tragédia ambiental que atingiu, até o momento, praias dos nove Estados do Nordeste e do Espírito Santo. Dados do Governo apontam que cerca de 6.000 toneladas de óleo já foram recolhidas do litoral.
Além de tentar buscar mais recursos, o comandante disse que um representante da marinha brasileira planejava fazer uma declaração na convenção marítima internacional, em Londres, para solicitar alterações nos tratados sobre navegação mercante pelos oceanos a fim de cobrar um melhor monitoramento das embarcações assim como de punir atos criminosos. “Esse assunto pode acontecer com qualquer país. Essa é uma nova arma. Lembra dos aviões que se chocaram com as torres gêmeas? É uma agressão dessa magnitude.”
No mundo há cerca de 80.000 navios mercantes em atividade. A expectativa, conforme a Marinha brasileira, é que até 2040 essa frota chegue aos 272.000 navios. “Se nós não tivermos o controle positivo do deslocamento desses navios mercantes, a probabilidade de acontecer ameaças desse tipo ou até envolvimento terrorista é muito alto, elevadíssima”, disse Ilques.
Até o momento, a Marinha, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), a Polícia Federal e a Agência Nacional de Petróleo, investigam quatro possibilidades para essa crise ambiental: derramamento acidental ou intencional durante a transferência de óleo entre navios petroleiros, afundamento de navios antigos ou recentes, o vazamento de poços marítimos e a derrubada de óleo por meio de tambores.
O principal suspeito apontado pela Polícia Federal e pela Marinha foi o navio Bouboulina, da empresa grega Delta Tankers —ela nega qualquer irregularidade em sua embarcação. Esse navio teria navegado entre a América do Sul e a África do Sul com o transponder, um equipamento de localização, desligado.
O vazamento, conforme as apurações, teria ocorrido no final de julho. E as primeiras manchas nas praias nordestinas só foram notadas no fim de agosto e, devido a uma alta da maré, há a possibilidade de novas manchas serem avistadas a partir do dia 26 de novembro, de acordo com o comandante da Marinha.
No domingo passado, o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas divulgou imagens que apontam que outra embarcação pode ter sido a responsável pelo derramamento do óleo. As autoridades não descartam responsabilizar outro navio. “A disposição da Marinha é a seguinte: nós vamos até o final dos tempos para encontrar o responsável. Até falar com o diabo eu vou falar para descobrir. Custe o que custar, o tempo que for”, disse o comandante.
Fonte: El País

domingo, 17 de novembro de 2019

ATP Finals dará adeus a Londres em 2020 e será realizado em Turim de 2021 a 2025

Torneio que reúne os oito melhores tenistas da temporada no fim do ano, o ATP Finals dará adeus a Londres como seu palco de disputas em 2020. A Associação dos Tenistas Profissionais anunciou nesta quarta-feira que o grande evento passará a ser realizado em Turim a partir de 2021 e ficará na cidade italiana pelo menos até 2025. A competição ocorrerá dentro da Pala Alpitour, arena multiuso com capacidade para receber 15 mil pessoas e que foi inicialmente construída para ser o local das partidas de hóquei dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006. O local abrigou no ano passado partidas da fase de grupos e do estágio final do Mundial Masculino de Vôlei. Cinco cidades se candidataram a sede do ATP Finals neste período entre 2021 e 2025, entre as quais Londres, cuja O2 Arena, que conta com 20 mil lugares e recebe o badalado torneio desde 2009. “Nossos parabéns a Turim por oferecer um projeto de candidatura tão abrangente e impressionante”, afirmou o presidente da ATP, Chris Kermode, nesta quarta-feira, quando também destacou: “A Itália fornece para nós um dos mercados de tênis mais fortes e estabelecidos na Europa e tem um histórico comprovado de sediar eventos de tênis de nível internacional”. Realizado no mês de novembro, o ATP Finals conta sempre com duas disputas, sendo a principal delas envolvendo os oito melhores tenistas do ano, e outra entre as oito duplas de maior sucesso ao longo da temporada. “O ATP Finals é o maior e mais prestigiado evento que nós temos na ATP. É um torneio que historicamente moveu-se e então estou muito empolgado para ver esta mudança para Turim a partir de 2021”, afirmou o sérvio Novak Djokovic, atual líder do ranking mundial e cinco vezes campeão desta competição que fecha a temporada. A Itália também abrigou recentemente o Next Gen Finals, outro torneio de final de ano no calendário e que foi criado para reunir os melhores tenistas da nova geração, com idade máxima de 21 anos. Este evento está programado para seguir ocorrendo em Milão pelo menos até 2021. PRÊMIO RECORDE – A entidade que comanda o tênis profissional masculino mundial também confirmou que o ATP Finals contará com uma premiação recorde em 2021, quando serão distribuídos US$ 14,5 milhões (cerca de R$ 57,1 milhões, pela cotação atual). A confirmação de Turim como próxima sede do grande evento que fecha o ano do tênis entre os homens ocorreu apenas três dias depois de o italiano Fabio Fognini conquistar o título do Masters 1000 de Montecarlo. E o anúncio, que representa um grande impulso para o tênis na Itália, também acontece duas semanas antes da realização do Masters 1000 de Roma. E pesou para a escolha de Turim para ser sede do ATP Finals o fato de que o governo italiano prometeu investir 78 milhões de euros (aproximadamente R$ 344 milhões) por meio de um fundo destinado à competição, que é a última de uma série de grandes eventos esportivos que estão contando com o apoio financeiro do Estado. 15ª SEDE DIFERENTE – Angelo Binaghi, o presidente da Federação Italiana de Tênis, reconheceu que “não seria possível” garantir a realização do ATP Finals em Turim sem a ajuda governamental. E a cidade italiana vai se tornar a 15ª diferente a abrigar o torneio que reúne os melhores tenistas do ano ao final de uma temporada. Inicialmente chamado de Masters Grand Prix, a competição ocorreu em sete sedes diferentes nos seus sete primeiros anos de disputa, entre 1970 e 1976, período em que estreou em Tóquio e depois passou por Paris, Barcelona, Boston, Melbourne, Estocolmo, Houston e Nova York. A última destas cidades norte-americanas depois foi o palco do torneio entre 1977 e 1989, sempre sendo realizado no ginásio Madison Square Garden. Depois disso, o evento ganhou o nome de ATP Tour World Championships a partir de 1990, quando migrou para a Alemanha e ocorreu em Frankfurt até 1995 e em Hannover de 1996 a 1999. Em 2000, a competição voltou a mudar de nome e passou a ser chamada de Masters Cup. Naquele ano, o brasileiro Gustavo Kuerten triunfou com a conquista do título em Lisboa, superando Pete Sampras nas semifinais e André Agassi na decisão. E, de quebra, assumiu a liderança do ranking mundial com o feito. Em seguida, Sydney (2001), Xangai (2002 e entre 2005 e 2008) e Houston (2003 e 2004) foram o local de disputas do grande torneio. E finalmente Londres se tornou a sede do ATP Finals em 2009, quando também ganhou o nome atual do evento. O maior campeão da história da competição é o suíço Roger Federer, com seis troféus.

sábado, 16 de novembro de 2019

Se o Congresso não aprovar a minha renúncia voltarei para pacificar a Bolívia

Carlos Benavides*
 CIDADE DO MÉXICO - Evo Morales não se arrepende de ter tentado um quarto mandato e diz que esperava governar por 20 anos, até o ano de 2025, já que nessa data emblemática do bicentenário da fundação da Bolívia teria completado o ciclo de transformação política e econômica do país.
Asilado no México desde a terça-feira, Morales considera que não foram as manifestações sociais ou as denúncias de irregularidades eleitorais que levaram à sua saída da Presidência, e sim um conluio para orquestrar um "golpe de Estado" fincado no racismo.
Em entrevista ao jornal mexicano EL UNIVERSAL, o agora ex-presidente rejeitou as denúncias de fraude eleitoral e disse que sua renúncia ao cargo não foi por covardia, e sim para evitar derramamento de sangue na Bolívia. Ele ressaltou que, até o domingo passado, quando renunciou, não havia mortes registradas por ferimentos de tiros. Três dias depois, já eram dez mortos.
O ex-mandatário assegurou que está pronto para voltar à Bolívia de imediato se a Assembleia do país não aceitar a renúncia que apresentou no domingo passado. Voltaria, disse, com objetivo de pacificar o país e organizar novas eleições, nas quais está disposto a não ser candidato.
Morales culpa o governo dos Estados Unidos por estar por trás do "golpe" que o tirou da Presidência e diz que todas as mortes que acontecerem na Bolívia pela crise gerada por sua saída do poder são responsabilidade da Organização dos Estados Americanos (OEA), que acusa de ter contribuído para o "golpe de Estado".
O senhor era admirado por ter conseguido muitas mudanças na Bolívia, um crescimento econômico muito satisfatório, por ter levado um governo de igualdade ao seu país. No entanto, seus críticos destacam como um erro que tenha desejado um quarto mandato. Foi um erro ter concorrido novamente?
Depois de 13 anos, quase 14 anos, ganhamos no primeiro turno, e a direita nos rouba o triunfo. Na primeira candidatura à Presidência, em 2002 (quando Gonzalo Sánchez de Lozada foi declarado vencedor), eu não perdi, me roubaram. Nesta última  também não perdi, me roubaram, ganhamos no primeiro turno. Em 2002, me expulsaram do Congresso; agora com este conflito, me expulsaram da Bolívia. Quando me expulsaram do Congresso, tinha apenas quatro deputados; voltei com 27. Agora que me expulsaram da Bolívia por razões políticas, voltaremos com milhões e milhões: estou convencido porque o povo está mobilizado contra o golpe de Estado. Não me arrependo, não, porque ganhamos as eleições no primeiro turno: não como antes, com mais de 50%, 60%, mas também quero dizer que agora alguns que votaram na direita ou em outros estão arrependidos. Como permaneci por tanto tempo me acusam de ditadura… mas agora o povo está vendo uma ditadura. No domingo que renunciei para que não agredissem meus irmãos, minhas irmãs… Queimaram um dia antes a casa de minha irmã. No que dia em que estava renunciando saquearam minha casa: esse é o racismo, eles semearam racismo. É mal visto ser indígena.
Vê, então, um golpe de Estado sustentado pelo racismo?
Totalmente racismo. Acabam de me informar pessoas próximas no país que a (presidente interina autoproclamada Jeanine Áñez) golpista está governando com tanques e helicópteros, dando tiros, por lá. Até domingo não havia nenhum morto e, até ontem, 10 mortos, isso é ditadura. Eles os fazem gritar "Evo cabrón". Eles os fazem odiar os povos camponeses, indígenas, nativos, os mais humildes, com ódio, racismo; usam a Bíblia contra a família. Para mim, a Bíblia é algo sagrado que nos dá valores; oram para fazer ódio, rezam para discriminar, usam Cristo para marginalizar, para humilhar o povo. Eu sou católico e em nossa Constituição não há uma igreja em primeiro ou segundo lugar, somos um Estado laico; antes, era apenas reconhecida a religião católica; agora, não. Usam a Bíblia contra os mais humildades. Aqui se repete a história dos tempos da colônia, quando alguns bispos chegavam, pegavam a Bíblia e atiravam.
Quanto tempo acredita que deveria ter permanecido na Bolívia como presidente para ter consolidado por completo seu modelo?
Acredito que seria o bastante até o bicentenário (em 2025). Com mais cinco anos estaria consolidado o crescimento econômico, a integração da Bolívia e a universalização dos distintos programas sociais. Essa é a ideia da Bolívia com desenvolvimento, com igualdade social, com integração, com um tema de industrialização.
Sobre as forças que movem esse golpe: o senhor as identifica como internas, mas também com apoio externo?
Sim, estamos convencidos disso. Desde o momento em que o governo atual foi reconhecido primeiro pelos Estados Unidos e depois pela Inglaterra. Isto que está acontecendo é como na Venezuela, mas agora na Bolívia.

Vê a mão de Washington nisso?

Vem daí, é claro.

Mas a OEA assegura que houve irregularidades na eleição. E, com a renúncia, poderia-se pensar que havia um reconhecimento implícito de que houve fraude. O que acha disso?

Eu ainda tinha confiança na OEA, mas agora vi de perto como apenas contribuiu para o golpe de Estado: no domingo, de madrugada, conversei com o seu chefe porque me informaram que havia um informe preliminar (sobre as eleições) e isso alimentou o golpe de Estado. A OEA é, em parte, responsável pelas mortes que estão acontecendo na Bolívia. Eu disse ao representante: “Não faça isso, com isso vão incendiar a Bolívia” e adverti que queria que Luis Almagro (secretário-geral da OEA) soubesse. Eu disse "me coloque em contato com Luis Almagro", ele não quis, disse apenas “vou consultar”; não consultou nada e depois publicou seu relatório. Eu não pediria que cometessem fraude, não faria isso jamais, venho das famílias mais humildes, das famílias indígenas; meus pais me ensinaram valores, me ensinaram a nunca mentir, não minto; roubar, jamais. Quero que saibam que, quando era criança, meu pai me disse: “Nunca se rouba.” Se algum dia não tiver dinheiro, melhor dizer “me empreste”; se souber que nunca vai poder devolver o emprestado é melhor dizer “me ajude” do que roubar.

Qual o seu plano, sua estratégia para voltar e continuar com seu modelo?

Minha renúncia está na Assembleia. Se a Assembleia rejeitar a minha renúncia, que bom, nesse momento me sinto capaz de voltar para pacificar a Bolívia. A pacificação não vai chegar com bala, com arma, como está sendo feito. A pacificação chegará à Bolívia com diálogo, com participação das Nações Unidas, da Igreja Católica, dos países voluntários como mediadores.

A ideia seria voltar para terminar seu mandato, para organizar um novo processo eleitoral?

Termino meu mandato, garantimos as eleições com um novo processo eleitoral. Mas para isso, primeiro, é preciso pacificar a Bolívia.

E sem Evo como candidato?

Sim. Sabe, quando cheguei à Presidência disse: 5 anos, estava contente, feliz; estive 13 anos, nove meses e 18 dias. Recorde histórico na Bolívia, primeiro presidente indígena sem formação acadêmica, com muita consciência social, com muito compromisso com a pátria. Não quero que vejam novamente crianças como “Evitos” na Bolívia, esse é meu desejo e conseguimos muito: 3 milhões de bolivianos chegaram à classe média em nossa gestão, dos 10 milhões de habitantes que temos na Bolívia. Então, como termina essa obra? Por agora, é terminar minha gestão; depois, claro, os militantes continuarão.

Em quanto tempo se vê de volta à Bolívia?

Depende. Por mim, se contribui para a pacificação, amanhã mesmo, porque me dói que haja tantos mortos, me dói que as Forças Armadas que equipei tanto, que agora têm 25 helicópteros, abusem do povo, não compartilho disso. Digo aos novos comandantes: não se manchem com o sangue do povo, não usem o equipamento das Forças Armadas contra o povo, isso é para defender a pátria; os generais, os comandantes estão errados. Porque sei que são os comandantes e generais, não as tropas.

Mas o tema da Assembleia pedindo que volte, sinceramente, é complicado. Acredita que pedirão sua volta?

A bancada (do Movimento ao Socialismo, partido de Evo) está unida. Se rejeitam minha renúncia, tenho que voltar para estar com o povo, para lutar contra a ditadura, contra o golpe de Estado.

E voltaria mesmo custando sua segurança?

É mais importante estar com o povo, e quero estar com meu povo. Venho dessas bases, dessas grandes lutas, tantas detenções, torturas, confinamentos, não tenho medo. Me dá mais medo que, com algum pretexto, maltratem minha gente.

Qual a sua visão sobre a maneira de governar do presidente Andrés Manuel López Obrador, que possui muitos aspectos similares aos que impulsionou na Bolívia?

— Não quero comentar tanto. Nós, que temos asilo político ou diplomático, não temos muito o que comentar. Tenho muito respeito, muita admiração pelo presidente López Obrador. O conheci quando era candidato, acompanhei através de alguns jornais na Bolívia e não gostaria de interferir em assuntos internos de nossa querida pátria, como é o México.

Houve um triunfo da esquerda na Argentina, houve avanços da esquerda na América Latina, o próprio presidente López Obrador é um representante da esquerda. Considera que a América Latina caminha nessa direção?

— Tenho muita esperança de que um dia tenhamos o ressurgimento das esquerdas na América Latina, como nos melhores momentos com  (o ex-presidente Luiz Inácio) Lula (da Silva), com (o falecido ex-presidente venezuelano Hugo) Chávez; (com o casal presidencial argentino Néstor e Cristina) Kirchner; com (o ex-presidente equatoriano Rafael) Correa; com (o ex-presidente uruguaio José) Mujica. Como nos faz falta um grupo de líderes da América Latina, com (o falecido ex-presidente cubano) Fidel Castro. Sonhávamos com a integração de toda a América Latina e o Caribe. Tenho muita esperança de chegar a um dia como aqueles tempos, com tantos líderes políticos com muita definição ideológica.

* El Universal, do México,  integra o Grupo de Diários América, do qual O GLOBO faz parte

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Plataforma Norueguesa em Manutenção no Estaleiro Enseada

O estaleiro Enseada, localizado na Bahia, recebeu a plataforma Safe Concordia, de propriedade da empresa Prosafe, para a realização de serviços de manutenção.
Plataforma especializada em acomodações offshore, a Safe Concordia foi contratada pela Equinor Brasil Energia para operações conectadas a corredores que suportam serviços de manutenção e segurança no FPSO Peregrino na Bacia de Campos, no Brasil.O contrato está programado para começar em meados de janeiro de 2020 e tem duração de 120 dias, com opções de até 60 dias.
A localização estratégica e a qualidade operacional foram critérios decisivos para a conquista de um novo contrato pelo Estaleiro Enseada, em Maragojipe (BA).
O acordo foi assinado no Rio de Janeiro e prevê que a embarcação passará até seis meses no complexo industrial baiano, na cidade de Maragojipe. Este foi o primeiro contrato do Enseada com a Prosafe e, na visão do diretor comercial do estaleiro, Carlos Tsubake, a localização estratégica e os diferenciais operacionais do complexo foram decisivos para a celebração da parceria. “Trata-se de mais um contrato de manutenção onde receberemos uma plataforma sem a retirada dos thrusters [propulsores], apesar de ser possível a remoção destes equipamentos, em águas abrigadas, a aproximadamente 20 km de distância do estaleiro”, explicou. O diretor afirma ainda que outra vantagem do parque industrial da Enseada é o suprimento de energia elétrica (29MW e 69KV), que dispensa a utilização dos geradores da plataforma. “Isso resulta em economia significativa para o nosso cliente”, acrescentou. A Safe Concordia é uma plataforma semissubmersível de acomodação com posicionamento dinâmico (Classe DP2).
 Ela pode abrigar até 461 pessoas, além de dar suporte às operações conectadas à via de apoio aos serviços de manutenção e segurança de FPSOs e plataformas O ESTALEIRO O Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP) é um estaleiro que está sendo construído na cidade brasileira de Maragogipe, no Recôncavo baiano, pela Enseada Indústria Naval(Enseada). Orçado em 2,6 bilhões de reais, esse empreendimento é um dos maiores da iniciativa privada na Bahia e na indústria naval brasileira.
O estaleiro entrou em fase de operação em fevereiro de 2014 com a conclusão do Cais I, tendo a possibilidade de receber navios, porém, a conclusão total das obras estava prevista para março de 2015. Quando pronto, estimou-se gerar 15 mil empregos diretos e indiretos. Corresponde à Unidade Paraguaçu, uma das unidades de negócio da empresa Enseada Indústria Naval, controlada pela Kawasaki Heavy Industries com 30 por cento e o restante com a EEP Participações, da qual integram a Odebrecht com 50 por cento, a OAS com 25 por cento e a UTC com 25 por cento. Parte da área portuária do estaleiro foi oferecida pela Enseada para o escoamento e recebimento da produção industrial dos componentes dos aerogeradores, cujas diversas fábricas estão instaladas em território baiano e cuja produção registrou crescimento progressivo desde 2011.

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