ABRAM SZAJMAN*
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Na campanha, os políticos repetirão velhos temas, ideias soltas, que objetivam apenas vender ao eleitor sonhos, sem compromissos
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No início de abril, houve uma debandada de ministros, governadores e secretários, que se desincompatibilizaram dos cargos públicos que ocupavam para disputar as eleições de outubro.
Mesmo antes do início formal da campanha eleitoral, e ainda que a atenção da população esteja, por enquanto, mais voltada para assuntos como a Copa do Mundo, esses e outros pretendentes já se lançaram em tempo integral na disputa do coração e da mente do eleitor.
Como, no Brasil, os partidos políticos não estão acostumados ao debate interno e a eleições primárias ou prévias para a escolha dos candidatos aos cargos majoritários, relegando essas decisões aos caciques, não deverá haver surpresas nas convenções partidárias, meramente homologatórias das decisões das cúpulas.
Assim, os nomes apontados pela mídia como "pré-candidatos" deverão ser os mesmos que aparecerão nas urnas eletrônicas e que já estão sendo mostrados nos cartões exibidos aos que respondem aos quesitos das pesquisas eleitorais.
Isso porque a grande maioria dos entrevistados ainda não se manifesta de modo espontâneo, pois desconhecem essas pré-candidaturas, arriscando apontar uma preferência apenas quando defrontados com uma lista de nomes, da qual por vezes escolhem aquele, ou aquela, de quem já ouviram falar, embora ignorem suas ideias, propostas e até mesmo a que partidos pertençam.
Até para a parcela mais bem informada da população, ou para a que, por dever de ofício, como no caso dos empresários, segue com atenção os movimentos dos políticos, será difícil, se não impossível, saber o que representam as candidaturas, tanto para o Executivo quanto para o Legislativo. Todos falarão das prioridades políticas, econômicas e sociais.
Dirão como pretendem reduzir os desastres em curso. Repetirão velhos temas, ideias soltas, muitas vezes contraditórias, que objetivam apenas vender ao eleitor sonhos, sem compromissos.
Uma eleição que definirá o futuro do Brasil não deveria ser encarada como um jogo vencido pelos mais eloquentes, engraçados ou mais bem embrulhados nas vistosas embalagens do marketing político.
O voto não deve ser um prêmio, mas uma tarefa que se atribui e depois se cobra. Tão ou mais importante do que saber quem comandará os destinos do país é conhecer previamente os rumos que adotará, pois o regime democrático não oferece, com a vitória eleitoral, um cheque em branco para o ganhador, de quem se espera o cumprimento de compromissos assumidos com o eleitorado. Embora o momento atual que o Brasil e o mundo atravessam seja de graves definições sobre questões imperativas, como armas nucleares, aquecimento global, protecionismo comercial e regulação de mercados financeiros, não se observa nos políticos brasileiros preocupações que estejam à altura desses temas.
Nossos problemas mais agudos e desafiadores exigem compromissos sobre a erradicação da dengue, os desastres ambientais, a miséria e a fome, a educação e a saúde, enfim, sobre mazelas diárias não resolvidas.
Para que possamos estabelecer uma agenda que efetivamente contemple as decisões que o país deverá tomar nos próximos quatro anos, é preciso que a campanha avance além dos slogans que pouco diferenciam os candidatos.
Já sabemos, por exemplo, que todos defendem a continuidade do Bolsa Família e a estabilidade de preços vigente desde a implantação do Plano Real, para citar duas obviedades que garantem votos.
O que não sabemos, mas queremos e precisamos saber, é quando e como o pecúlio dado como ajuda se transformará em salário ou renda, que possibilite existência independente da muleta estatal e permita a ascensão social. Ou quando e como o Brasil deixará de gastar com o inchaço da máquina administrativa em detrimento das necessidades da infraestrutura e dos serviços públicos essenciais. As entidades representativas da sociedade civil e os meios de comunicação precisam enfrentar a tarefa grandiosa de exigir o debate programático e o compromisso.
O Brasil, com milhões de pessoas trabalhadoras e pacíficas, até hoje não apenas esquecidas após o voto como também traídas por escabrosos episódios de uma corrupção endêmica, merece mais do que vinhetas ou bate-bocas. Merece o respeito de uma campanha de compromissos, qualificada pelo confronto de ideias e de projetos, nunca entre pessoas.
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*ABRAM SZAJMAN, empresário, é presidente da Fecomercio-SP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo), dos conselhos regionais do Sesc (Serviço Social do Comércio), do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) e do Sebrae-SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
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