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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Secretário de Cultura não está nem aí…

zédejesusbarrêto*Voo para SP, à Bienal do Livro, no Anhembi. O lançamento de ‘Candomblé da Bahia’ e de ‘Cacimbo’, os primeiros livros absolutamente meus. Um feito com a cabeça, guiado pela alma, baiana e negra – sobre a fé nos Orixás, a religião da deusa-mãe Natureza. O outro, feito e guiado pelo coração, afrobaiano – as dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, debruçadas sobre as águas atlânticas, e sua gente tão irmã, tão diversa, reluzente. Angola, vó da Bahia.
Deixo a secura – umidade do ar a 12 pontos – do planalto central e voo no azul. O céu é limpo e lá embaixo o verde é amarronzado e constante, um cerrado imenso, a perder de vista. Depois, só nuvens brancas esparsas e o sem fim igual…
Hora e pouco depois o avião vai baixando e dá pra ver outra paisagem: pastagens, aguadas, rios, o solo com várias tonalidades de verde, o chão retalhado, dividido, cultivado. É São Paulo. O sol do ocaso é uma gema e sua luz entra pelas janeletas do avião, dourando tudo. Na medida em que nos aproximamos de Campinas/Viracopos, o céu fica sujo, a poluição prejudica a visibilidade. Isso é também São Paulo com seu progresso.
Faz 26º centígrados, confortável. De Campinas à capital, de ônibus, pistas largas e livres, muitos caminhões, glebas e glebas à beira da estrada ainda desocupadas, olhos na janela vendo o tempo e as coisas passarem acelerados… então, invade a alma um sentimento de solidão.
Sinto-me uma formiguinha sem rumo, nessa perdição de mundo, num desamparo só. Antes que chegue a depressão, penso na Mãe Zuite (ou ela me chega, como sempre, na hora exata?), e de repente sinto-me feliz, um ser privilegiado pelas lembranças, saudades, pela amada que me ama, pelos filhos, pelos bichinhos caseiros, pelo trabalho, pelos livros que vou lançar… e uma paz dos céus me deixa pleno. Bença, mãe!
Anoitece nublado e janela se enche com outra paisagem de luzes, prédios, barulho, filas imensas sem fim de carros saindo e entrando por todos os cantos, travando o tempo e os espaços. Isso é São Paulo, sexta-feira à noite.
Salto no terminal da Barra Funda, metrô e ônibus, um formigueiro humano, uma gente concentrada, sem muita palavra, apressada, num ir e vir vertiginoso. Isso é São Paulo. Com sacola e computador, pesados, preciso andar um bocado até chegar a um ponto de táxi. Fila, espera. O hotel para onde vou é perto, em Santana/Tietê, mas o táxi dá voltas buscando fugir sem êxito dos engarrafamentos. Todos têm pressa e querem ir… paciência.
Depois de uma noite mal dormida (cama, travesseiros, viagem, expectativas…), acordo com o corpo congelado. O novo dia será frio, bem frio, me dizem no café da manhã. Meias grossas, camiseta, camisa, blusão, o écharpe de mãe, rumo ao imenso barracão do Anhembi.
Filas a perder de vista para pegar o buzu até a feira, filas para entrar, uma multidão incalculável já circulando e entrando nos stands de livrarias, livreiros, editoras… um frenesi de proporções impensáveis na cidade da Bahia para um evento desse segmento. Filas, filas, filas para entrar em alguns stands, para comprar, para pagar, para lanchar, para mijar, para tomar um cafezinho… filas, isso é São Paulo. Todos obedecem ordeiramente, ninguém reclama.
Impressiona-me o número de famílias inteiras com seus filhos pequenos, adolescentes, jovens… interagindo, manuseando os livros, curiosos… Isso me dá um alento: Viva São Paulo, nem tudo está perdido. Enquanto houver leitura, há esperança.
*Articulista do jornal A Tarde

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