Reflexões e artigos sobre o dia a dia, livros, filmes, política, eventos e os principais acontecimentos

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Abençoados os nossos salvadores

Fernando Conceição*
Passados cinco séculos, o povo miúdo português, maioria da qual descendemos, até hoje aguarda o retorno de Dom Sebastião. O libertador que expurgará a humilhação, a miséria, a fome, as privações e os complexos de inferioridade da gente.
Como outros vitimados, acalentamos a quimera do salvador. Barbudo, ele vem com sua espada, sua coragem, sua lábia – tanto faz – resgatar a nossa honra. Se possível, trazendo leite, pão, cuscuz – em suma, a felicidade gratuita, sem esforço. Dádivas do céu. Ou das taxas e impostos que todos antecipadamente já pagamos.
À maneira de judeus e cristãos, o sebastianista tem fé, obediência e certeza no messias. Xangô, nascido entre nós, vem redimir-nos da sanha dos opressores. Daqueles que historicamente usurparam o poder em benefício do seu restrito grupo. Ungir-se-á nosso pai, bom pai que nos quer bem, que tudo faz e fará por seus filhos permanecerem, como dependentes gratos, sob a sua guarda e tutela.
Esse tipo de coisa, mistificação enraizada em crendices, embala comunidades sociais por toda parte, em diferentes épocas e culturas. E vale ainda mais em sociedades patrimonialistas, de tradição autoritária. Onde o culto à pessoa do líder sobrepõe-se ao valor das instituições laicas. Ali vicejam os salvadores da pátria, sujeitos impetuosos ou carismáticos. Também os farsantes. Proto-ditadores ou demagogos transvestidos em guia nos farão cruzar desertos e o Mar Vermelho das nossas amarguras. Elegemo-los!
A eles a nossa devoção canina: o mínimo de vestígio de autonomia do nosso caráter, amiudado por gerações. Ai de quem pensar diferente, hereges! Hoje ao menos se come diariamente (como ocorria com os escravos). Banqueiros filantrópicos nos empurram consignadamente créditos sem produção. Danem-se as conseqüências futuras da irracionalidade. Se o pai nos diz qual o caminho seguir, que mais se pode desejar? Ser da máquina. Que deseja o gado, antes de levado ao abatedouro? A diferença entre nós e o muar é o nosso voluntarismo feliz.
* Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Acessos ao Blog

Post mais acessados no blog

Embaixada da Bicicleta - Dinamarca

Minha lista de blogs

Bookmark and Share