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sábado, 9 de abril de 2011

A formiga e as cigarrinhas

Paulo Ormindo de Azevedo*
Acabo de regressar de Portugal e Galícia por onde rodei 2.500 km. Portugal tem hoje uma infraestrutura viária de primeiríssimo mundo. Desde que foi admitido na União Europeia(EU), em 1995, Portugal recebeu generosa e interessada ajuda da EU devido a sua posição estratégica com excelentes portos no Atlântico. Os do Mediterrâneo e de Biscaia tem pouca expressão militar. É isso que explica sua excelente rede rodo-ferroviária. Pude assim visitar pequenas e grandes cidades, conversando com colegas de profissão e universitários , com o povo e ouvindo os debates na TV e nas rádios. Espanha recebeu também muita ajuda, mais as espalhou em um território bem maior. Pude assim perceber sentimentos que não afloram na mídia.
Com dinheiro fácil destinado a se integrarem à Europa, os governos ibéricos fizeram a festa, embelezando cidades, a exemplo de Barcelona, Valência e Lisboa, realizando grandes eventos, como exposições internacionais, copas do mundo e jogos olímpicos, comprando trens balas, fazendo lindas pontes e estações ferroviárias, como a do Oriente, em Lisboa, e complexos culturais espetaculares, como a Cidade das Artes e Ciências em Valência e a casa da Música no Porto. Parte desses créditos foi desviada para a América Latina para a compra de bancos, empresas de telefonia e distribuição de energia e água e realização de grandes empreendimentos imobiliários.
Mas não investiram na modernização de suas indústrias e serviços. A competição da indústria europeia e chinesa fez fechar estaleiros e fábricas de tecidos e sapatos em Portugal, sem que seus governantes nada fizessem para impedir. A pesca já havia sido golpeada com a declaração dos mares territoriais. Em resumo, Portugal e Espanha, outrora grandes impérios, se desindustrializaram, voltando a ser simples exportadores de vinho, cortiça e pouco mais.
Enquanto isto, Alemanha, França e países nórdicos compraram a preço de ocasião fábricas no leste europeu e na Inglaterra e se tornaram líderes em muitos setores, como o da indústria automotiva, geração de energia, telefonia móvel, papel etc. Por outro lado a EU a partir de 2007, como a entrada dos países do leste europeu, passou a investir nesse novo front que inclui a Turquia, queira a França ou não, passagem obrigatória para o Oriente. A EU considera que já consolidou sua fronteira oeste e quer agora fortalecer sua fronteira leste, não podendo mais socorrer a Península Ibérica em seu canto outonal. O corte de 10% nos salários dos funcionários portugueses e de empresas estatais, o aumento dos impostos, o corte de bolsas e programas sociais para conter o déficit orçamentário de 4,6% em 2010 doem na economia familiar, apesar do custo de vida já ter sido rebaixado para metade do nosso. Pesa especialmente nos jovens, que não encontram emprego e pensam em emigrar. A palavra de ordem é austeridade, mas chega uma hora que a corda parte, como ocorreu com o primeiro-ministro José Sócrates, sem se saber quem poderá em seu lugar fazer o milagre dos peixes e do pão.
Não só Portugal vive uma crise econômica e política profunda, também outras penínsulas e ilhas, a nova periferia europeia, constituída pela Grécia, Espanha, Irlanda e Inglaterra. Em romaria todos vão à “nova” dona da Europa, a formiga que saiu do buraco e criou asas, Sra. Merkel, que recebe a todos com um chá de simpatia mas não abre a carteira , dizendo que seu eleitor não quer dar bombom a quem cantou no verão inteiro e não fez o dever de casa. Como são cruéis estas estórias infantis!
O momento é de crise e reflexão. Nas ruas o povo acusa os governantes, com razão, de incompetentes, perdulários e dependentes do poder econômico. Nenhum destes países tem condições de sair da crise por suas peras. O caso mais grave é o da Espanha, que se falir acaba com a zona do Euro e o sonho da união.
Há porém, um consenso. Ou a UE encontra uma saída comum ou seus membros cairão uma um, como uma fileira de dominó. Será que na trilha das cigarrinhas europeias, embalados pelo pré-sal, estamos a salvo da crise ocidental?
* Arquiteto e professor titular da UFBa. Foi presidente do IAB-Bahia.

Um comentário:

  1. Muito se fez em nome da EU, menos criar uma "consciência européia"!
    Bruxelas se preocupa com bobagens, enquanto cada um dos países membros anda com o freio de mão puxado, pensando num plano"B", ou seja, voltar à antiga moeda.
    Pessoalmente prefiria Portugal fora da EU, que nos tirou as tascas giras, com vinho fresco de barril e demais detalhes gastronômicos, que agora necesitam de rótulos!

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