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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dia Branco

Pedro Tourinho*
Sexta-Feira.
Acordo com uma dúvida a menos, mas não com menos cuidados.
Hoje é dia de escolher a melhor roupa, desde que seja branca.
Basta dar uma volta por Salvador em qualquer sexta-feira para entender que não sou o único. Fora de Salvador, perceba no seu prédio ou no seu trabalho se alguém tem esse habito de vestir-se de branco às sextas-feiras. Ele certamente está ligado de alguma forma à Bahia.
O hábito vêm do sincretismo religioso no estado após a chegada dos escravos nagôs, nos séculos XVIII e XIX. “Nagô” é o termo com o qual os franceses se referiam a todos os negros que falavam ou entendiam a lingua yorubá. E o que era uma expressão colonialista, hoje é simbolo de identidade.
Kètu, Egba, Egbado e Sabé são alguns dos segmentos que compõem esse universo Nagô, que na época ocupavam o território que hoje representa parte do Benin, da República do Togo e todo sudoeste da Nigéria. Logo que chegaram na Bahia, tanto devido a quantidade, como também a características de sua própria cultura, não tiveram dificuldades em se posicionar com destaque entre os negros que já estavam por aqui, e em impor sua religião.
Esse período coincide também com um grande desenvolvimento urbano de Salvador e de todo o recôncavo baiano devido a cultura da cana de açucar. Uma classe burguesa começava a surgir. As relação Casa Grande e Senzala, após tantos séculos de convivência, começavam a se estreitar. Tanto eu, quanto meus pais, meus avós e bisavós, fomos todos criados por negras nagôs.
Mas vamos ao branco, e as sextas-feiras. A cultura Yorubá é baseada numa mitologia própria, a Mitologia dos orixás. E num dos seus mitos mais conhecidos, Oxalá, que sempre se vestia de branco, com saudades do seu filho Xangô, resolve ir visitá-lo. No caminho, encontra-se com Exu, o senhor do azeite de Dendê, que ao abraça-lo suja completamente sua roupa.
Oxalá segue sua jornada e chegando no reino de Xangô, reconhece e aproxima-se de um cavalo branco que havia dado de presente para o filho. Os criados de Xangô, observam o movimento e não reconhecem Oxalá com suas roupas sujas, e o aprisionam numa masmorra por 7 anos, os piores 7 anos daquele reino, até que Xangô consulta o ifá, oraculo yorubá, que revela o acontecido. Xangô resgata Oxalá, manda buscar água para lavá-lo, e todos se purificam e vestem-se de branco em seu respeito.
No sincretismo religioso, Oxalá é cultuado também como o Senhor do Bonfim, padroeiro de Salvador, e cujo dia de culto é a sexta-feira. Daí explica-se que em todas as sextas-feiras, baianos vistam-se de branco em respeito a Oxalá, para homenagea-lo.
Indo além, como o próprio Oxalá, visto-me de branco todas as sextas-feiras também para ser reconhecido. Tornou-se para mim, e para tantos, um elemento de identidade e identificação. Num mundo com tantas classes, clubes e nichos, minha tribo é a nagô.
*@PedroTourinho , é publicitário, especialista em entretenimento e novas mídias

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