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domingo, 8 de abril de 2012

Decisões sobre o pré-sal

Entrevista Ildo Sauer
   
Revista da Associação de Docentes da USP, com entrevista de Ildo Sauer. Para quem não se lembra, Ildo Sauer é petista fundador do partido e que foi Diretor da Petrobrás no primeiro mandato de Lula. A saída dele da Petrobrás nunca ficou clara.      
   (Parte final - Os leilões dos campos da Petrobrás) 

Publicamos hoje a segunda parte da importantíssima entrevista do professor Ildo Sauer, diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, concedida a Pedro Estevam da Rocha Pomar e Thaís Carrança, da revista da Associação dos Docentes da USP (ADUSP).
     Considerado um dos maiores especialistas em energia do país, ex-diretor da Petrobrás no primeiro governo Lula, Sauer conta como foi descoberto o Pré-Sal e denuncia o lobby feito por José Dirceu para entregar a Eike Batista a maior parte das reservas.
 - Revista ADUSP: Você ainda estava na Petrobrás, quando o Pré-Sal foi descoberto?
 - Ildo Sauer - Eu ajudei a tomar essa decisão. Nós tomamos essa decisão, não sabíamos quanto ia custar. O poço de Tupi custou US$ 264 milhões, para furar os 3 km de sal e descobrir que tinha petróleo. O Lula foi avisado em 2006 e a Dilma também, de que agora um novo modelo geológico havia sido descoberto, cuja dimensão era gigantesca, não se sabia quanto. Então, obviamente, do ponto de vista político, naquele momento a nossa posição, de muitos diretores da Petrobras, principalmente eu e Gabrielle, que tínhamos mais afinidade política com a proposta do PT de antigamente, a abandonada, achávamos que tinha que parar com todo e qualquer leilão, como, aliás, foi promessa de campanha do Lula. Na transição, ainda a Dilma disse: não vai ter mais  leilão. Mas se subjugaram às grandes pressões e mantiveram os leilões. Fernando Henrique fez quatro, Lula fez cinco. Lula entregou mais áreas e mais campos para a iniciativa privada do petróleo do que Fernando Henrique.
     Um ex-ministro do governo Lula e dois do governo FHC foram assessorar Eike Batista. O que caberia a um governo que primasse por dignidade? Cancelar o leilão. Por que não foi feito? Porque tanto Lula, quanto Dilma, quanto os ex-ministros, estava nessa empreitada.
 - Revista ADUSP: Mas Gabrielle era contra e acabou concordando?
 - Ildo Sauer - Não. A Petrobrás não manda nisso, a Petrobrás é vítima, ela não era ouvida. Quem executa isso é a ANP [Agência Nacional do Petróleo], comandada pelo PCdoB, e a mão de ferro na ANP era da Casa Civil. Então a voz da política  energética era a voz da Dilma, ela é que impôs essa privatização na energia elétrica e no petróleo. Depois do petróleo já confirmado em 2006, a ANP criou um edital pelo qual a Petrobrás tinha limitado acesso. Podia ter no máximo 30% ou 40% dos blocos, necessários para criar concorrência. Porque, em 2006, Tupi já havia sido furado e comunicado. O segundo poço de Tupi, para ver a dimensão, foi feito mais adiante, esse ficou pronto em 2007. Só que o Lula e a Dilma foram avisados pelo Gabrielle em 2006. Muitos movimentos sociais foram a Brasília, nós falávamos com os parlamentares, os sindicatos foram protestar. O Clube de Engenharia, que é a voz dos engenheiros, mandou uma carta ao Lula, em 2007, pedindo para nunca mais fazer leilão. Em 2005-6, o [Rodolfo] Landim, o queridinho do Lula e da Dilma, saiu da Petrobrás. Porque o consultor da  OGX, do grupo X, do senhor [Eike] Batista, era o ex-ministro da Casa Civil (José Dirceu), e ele sugeriu então que Eike entrasse no petróleo. Aí ele contratou o Landim, que
começou a arquitetar. Como o centro nevrálgico da estratégia da Petrobras é a
gerência executiva de exploração, o geólogo Paulo Mendonça, nascido em
Portugal, formado aqui na USP, e o Landim, articularam para em 2007 criar uma
empresa nova, a partir dos técnicos da Petrobrás. E o senhor Batista queimou
alguns milhões de dólares para assinar os contratos e dar as luvas desses novos
cargos, que estavam dentro da Petrobrás, mas, desde que o Landim foi trabalhar com o senhor Batista, ele já estava lá para arrancar de dentro da Petrobrás esses técnicos. Aí chegou o fim de 2007, todos nós pressionando para não ter mais
leilão, o Lula  tira 41 blocos? Mas vamos voltar a 2006. Em 2006, quem anulou
o leilão foi a Justiça, por discriminação contra a Petrobrás fazer essas coisas. Ouvi isso da Jô Moraes, num debate na Câmara dos Deputados. Só que aí se criou o seguinte imbróglio: um ex-ministro do governo Lula e dois do governo Fernando Henrique, Pedro Malan e Rodolpho Tourinho, foram assessorar o Eike Batista. Ele já tinha gasto um monte de dinheiro para criar sua empresa de petróleo. Se o leilão fosse suspenso, ele ia ficar sem nada, e já tinha aliciado toda a equipe de exploração e produção da Petrobrás. O que caberia a um governo que primasse por um mínimo de dignidade para preservar o interesse público? Cancelar o leilão e processar esses caras que saíram da Petrobrás com segredos estratégicos. Por que não foi feito? Porque tanto Lula, quanto Dilma, quanto os  ex-ministros, os dois do governo anterior e um do governo Lula, estavam nessa empreitada.
 - Revista ADUSP: Quem era o ex-ministro?
 - Ildo Sauer - O ex-chefe da Casa Civil, antecessor de Dilma.
 - Revista ADUSP: José Dirceu?
 - Ildo Sauer - É ele foi assessor do Eike Batista, consultor. Para ele, não era do governo, ele pegou contrato de consultoria, para dar assistência nas negociações com a Bolívia, com a Venezuela e aqui dentro. Ele [Dirceu] me disse que fez isso. Do ponto de vista legal, nenhuma recriminação contra ele, digamos assim. Eu tenho (recriminação) contra o governo que permitiu se fazer. E hoje ele [Eike] anuncia ter 10 bilhões de barris já, que valem US$100 bilhões. Até então, esse senhor Batista era um milionário, tinha cerca de US$ 200 milhões. Todo mundo já sabia que o Pré-Sal existia, menos o
público, porque o governo não anunciou publicamente. As empresas que operavam sabiam, tanto que a Ente Nazionale Idrocarburi - ENI, da Itália, pagou
US$ 300 milhões por um dos primeiros poços leiloados em 2008. Três ou quatro
leilões foram feitos quando o leilão foi suspenso pela Justiça. Até hoje, volta e meia o [ministro] Lobão ameaça retomar o leilão de 2008,2006. A oitava rodada. Para entregar. Tudo em torno do Pré-Sal estava entregue naquele leilão. No leilão seguinte, o governo insiste em leiloar. E leiloou. E na franja do Pré-Sal é que tem esse enorme poderio.
     Como é que pode? A empresa dele (Eike) foi criada em julho de 2007. Em
junho de 2008 ele fez um Initial Public Offering, arrecadou R$ 6,71 bilhões por 38% da empresa, portanto a empresa estava valendo R$ 17 bilhões, R$  10
bilhões dele. Tudo que ele tinha de ativo: a equipe recrutada da Petrobrás e os blocos generosamente leiloados por Lula e Dilma. Só isso. Eu denunciei isso já em 2008. Publicamente, em tudo quanto é lugar que eu fui, eu venho falando para que ficasse registrado antes que ele anunciasse as suas descobertas. Porque fui alertado pelos geólogos de que lá tinha muito petróleo.
     Foi um acordo que chegaram a fazer, numa conversa entre Pedro Malan, Rodolpho Tourinho e a então ministra-chefe da Casa Civil (Dilma), em novembro, antes do leilão. O Lula chegou a concordar, segundo disse o pessoal do MST e os sindicalistas, em acabar com o leilão. Mas esse imbróglio, de o empresário ter gasto dezenas de milhões de dólares para recrutar equipe e apoio político nos dois governos fez com que eles mantivessem. Tiraram o filé-mignon, mas mantiveram o contrafilé. O contrafilé é  alguém que hoje anuncia ser o oitavo homem mais rico do mundo.
     E tudo foi mediante essa operação no seio do governo. Contra a recomendação dos técnicos da Petrobrás, do Clube de Engenharia, do sindicalismo. Foi a maior entrega da história do Brasil. O ato mais entreguista da história brasileira, em termos econômicos. Pior, foi dos processos de acumulação primitiva mais extraordinários da história do capitalismo mundial. Alguém sai do nada e em três anos tem uma fortuna de bilhões de dólares.
     A Petrobrás durante a vida inteira conseguiu descobrir 20 bilhões de barris de petróleo, antes do Pré-Sal. Este senhor está no site da OGX, já tem 10 bilhões de barris consolidados. Os Estados Unidos inteiros têm 29,4 bilhões de barris. Ele anuncia que estará produzindo, em breve, 1,4 milhão de barris por dia o mesmo que a Líbia produz hoje.
     É esse o quadro. Ou a população brasileira se dá conta do que está em jogo, ou o processo vai ser o mesmo de sempre. Do jeito que se foi a prata, foi-se o ouro, foram-se as terras, irão também os potenciais hidráulicos e o petróleo, para essas negociatas entre a elite. O modelo aprovado não é adequado. Mantém-se uma aura de risco sem necessidade, para justificar que o cara está correndo risco, mas um risco que ele já sabe que não existe.
     Qual é a nossa proposta? Primeiro, vamos mapear as reservas: saber se
temos 100 bilhões, 200 bilhões, 300 bilhões de barris. Segundo, vamos criar
o sistema de prestação de serviço; a Petrobras passa a operar, recebe por cada barril de petróleo produzido US$ 15 ou US$ 20, e o governo determina o ritmo de produção. Porque há um problema: a  Arábia Saudita produz em torno de 10 milhões de barris, a Rússia uns oito milhões de barris, depois vêm os outros, com 2 a 4 milhões de barris por dia: Venezuela, Iraque, Irã. O Eike Batista anuncia a produção de 1,4 milhão de barris, a Petrobras anuncia cinco milhões de barris e pouco. Significa que o Brasil vai exportar uns três ou quatro milhões de barris. Já é o terceiro ator. Não se pode fazer mais isso.



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