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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Megaprojeto brasileiro no Peru sai do papel

 

Por Humberto Saccomandi
Depois de anos de negociações e estudos, começou de fato aquele que é possivelmente o maior investimento industrial brasileiro no exterior: o projeto integrado de gás do sul do Peru. Estimado em até US$ 16 bilhões, ele deve transformar o setor industrial peruano. Esse é o tipo de projeto que os vizinhos pedem ao Brasil: um comprometimento de longo prazo, que traga a capacidade tecnológica e financeira brasileira para agregar valor aos recursos naturais locais. À frente do projeto estão Braskem, Petrobras e Odebrecht. A Petrobras produzirá, na região de Camisea (no centro do país), o gás natural. A Odebrecht iniciou a construção do Gasoduto Andino do Sul, que levará o gás até o previsto Polo Petroquímico do Sul do Peru, a ser construído e operado pela Braskem. Por enquanto, a Braskem tem uma carta de intenção assinada com o governo peruano, mas analistas avaliam que o anúncio definitivo é só questão de tempo, já que o gasoduto em construção pela Odebrecht só faz sentido junto com o polo petroquímico.
'É uma obra faraônica, porém real', disse o presidente Humala.

Segundo uma autoridade brasileira, a Braskem aguarda a confirmação, pela Petrobras, das reservas disponíveis de gás, o que deve acontecer nos próximos meses. Mas um anúncio final é possível já durante a visita da presidente Dilma Rousseff ao Peru prevista para maio. Ainda que sua localização não tenha sido anunciada - o mais provável é que seja na cidade portuário de Ilo (veja no mapa) - o polo estará numa posição estratégica. Como quase toda a produção de petróleo no continente americano está do lado do Atlântico, assim como quase todo o petróleo importado também chega pelo Atlântico, não existe nenhum complexo petroquímico importante do lado do Pacífico. Isso permitirá ao novo polo atender à demanda por derivados petroquímicos, como etileno e polietileno, de países como Chile, Colômbia, México, EUA e Canadá.
O projeto vem sendo estudado há mais de três anos. Os acertos iniciais foram feitos ainda no governo anterior, do presidente Alan García. Com a vitória do nacionalista Ollanta Humala nas eleições de 2011, foi preciso reapresentá-lo ao novo governo, que se mostrou entusiasta.
É difícil subestimar a importância desse projeto para o Peru. Será o maior investimento da história do país. "É um projeto que vai transformar a indústria peruana, que hoje se limita a setores tradicionais, como têxteis e vestuário, processamento de pescado e alguma coisa de metalmecânica e processamento de minérios", disse uma fonte brasileira. "Isso levará a indústria peruana a um novo patamar, dará um salto de qualidade na estrutura produtiva", disse Antonio Castillo, conselheiro econômico e comercial da Embaixada peruana no Brasil. A mídia peruana estima, por exemplo, que o imposto de renda a ser pago por todo o projeto poderá chegar a 3,9% de toda a receita de IR do país.
Na semana passada, ao participar em Cuzco da cerimônia de início das obras do gasoduto, o presidente Humala não economizou adjetivos. "É uma obra faraônica, porém real", disse. E deixou claro ainda que o governo peruano já dá como certa a construção do polo. "O Peru se coloca na vanguarda da petroquímica", completou.
O valor total, entre US$ 15 e 16 bilhões, não é confirmado pelas empresas envolvidas - procuradas pelo Valor, nenhuma delas quis comentar sobre esse projeto. Mas esse valor é citado por autoridades tanto brasileiras como peruanas que estão a par das negociações. Não está claro como o investimento seria financiado.
Nem todo o custo ficaria a cargo das empresas brasileiras. Deve haver um aporte do governo peruano, por meio da estatal PetroPeru, que terá participação no projeto. Esse aporte poderia chegar a US$ 1,2 bilhão, segundo uma autoridade.
Espera-se ainda a participação de outras companhias, já que o projeto inclui outros negócios, como duas termelétricas, duas plantas de fracionamento de gás para consumo local, uma planta de liquefação para exportação, a ampliação e operação do porto, além de um cluster de empresas complementares, como de plásticos e fertilizantes. Segundo uma autoridade brasileira, há empresas asiáticas interessadas.
Do investimento total, cerca de US$ 3 bilhões irão para a construção do gasoduto, de 1.085 km. Na semana passada, a Odebrecht Peru, que já tinha o controle do consórcio, comprou a participação restante. Mas PetroPeru deve se tornar sócia.
O trajeto do gasoduto é particularmente importante para o governo peruano, pois atravessa algumas das áreas mais pobres do país. No Peru, os royalties da mineração ficam com as províncias. Isso gerou uma forte desigualdade interna. Regiões mineradoras prosperam, enquanto áreas agrícolas do sul continuam miseráveis, o que é um foco de tensão social. Algumas das regiões mais pobres passarão a receber royalties da passagem do gasoduto.
O gasoduto terá três dutos: um para o gás, um para o liquido que é retirado junto com o gás, e outro para fibra ótica, que levará internet de alta velocidade para esse interior pobre do Peru.
A previsão é que o gasoduto fique pronto em três anos. Já o polo levaria até quatro anos para ser construído. Ambos, assim, poderiam ser inaugurados pelo presidente Humala.
Não é surpresa que um projeto desse porte ocorra no Peru. O país tem uma política agressiva de atração e de facilitação de investimentos externos. Além disso, fechou acordos de livre comércio que permitem exportar sem tarifas para países como EUA, Canadá, China e Japão.
Já na Bolívia, que tem reservas comprovadas de gás maiores que a do Peru, a ação atabalhoada do governo do presidente Evo Morales criou tamanha incerteza que afujentou investimentos, inclusive a própria Braskem.
Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras
E-mail humberto.saccomandi@valor.com.br

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