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domingo, 1 de abril de 2012

Um Método Perigoso

Leonardo Vinicius Jorge*
A rivalidade entre Sigmund Freud e Carl Jung é conhecida e interessante a tal ponto que até baboseiras como o filme “As Aventuras de Agamenon – O Repórter” já exploraram o assunto. Seria inevitável, portanto, que David Cronenberg, cineasta conhecido por uma filmografia repleta de heróis psicologicamente complexos e cujas imagens de violência gráfica ou sugerida representam o estado mental de seus personagens, abordasse em algum momento a relação dos pais da psicanálise.
Elementos como mutações, perversões sexuais e agressões, presentes em clássicos como “Videodrome” (1984), “A Mosca” (1986), “Gêmeos – Mórbida Semelhança” (1988) e “Crash – Estranhos Prazeres” (1996), remetiam à mente numa análise mais profunda, mas chocavam por utilizar o corpo como referência. Após uma passagem por dramas mais tradicionais, Cronenberg volta a seus jogos mentais em “Um Método Perigoso”, que finalmente chega ao circuito comercial brasileiro depois de dividir opiniões nos festivais do mundo inteiro.
“Todos os filmes de David são sobre o corpo”, resumiu o produtor Jeremy Thomas durante o Festival de Nova York. “Desta vez, a parte do corpo é o cérebro”. Na verdade, Cronenberg está fechando um ciclo: seu primeiro filme foi um curta-metragem chamado “Transfer” (1966), com sete minutos de duração e que acompanhava a conversa entre um psiquiatra e seu paciente.
Apesar de opção temática, Cronenberg diz que respeita a psicanálise, mas dispensa. “Para mim, ir a um analista seria como tomar antibióticos mesmo não tendo uma infecção”, explicou o diretor. “Freud ficaria chocado com Woody Allen. Ele nunca imaginou 30, 40 anos de análise”, brincou o cineasta. “A terapia é para quando você tem coisas em sua vida que precisa resolver”, o que o canadense acredita não ser o caso.
Ele explica que chegou a “Um Método Perigoso” após um período de incertezas, que se seguiu ao sucesso de “Senhores do Crime” (2007). O diretor investiu suas energias numa série de projetos que não deram certo e os anos foram se passando sem que nenhum novo longa se concretizasse. Até que caiu em suas mãos a peça teatral “The Talking Cure”, escrita por Christopher Hampton (vencedor do Oscar por “Ligações Perigosas”, de 1988). O mais curioso é que a trama teatral, adaptada do livro “A Most Dangerous Method”, de John Kerr, teve início como o roteiro de um filme. A Fox encomendou a Hampton a criação de um roteiro baseado no livro de Kerr, e o resultado seria um longa-metragem chamado “Sabina”, estrelado por Julia Roberts.
Mais do que pela qualidade do texto, Cronenberg se interessou pela história da mulher que teria sido uma das causas do afastamento entre o mestre Freud e o pupilo Jung. Internada como uma paciente histérica, Sabina chamou a atenção de Jung, que passou a tratá-la por meio do revolucionário método da “cura pela conversa”, criado pelo psicanalista austríaco. A jovem sentia excitação pelas agressões físicas de seu pai e manteve um relacionamento com seu médico – uma situação que incomodou Freud.
Os dois psicanalistas trocaram diversas cartas para discutir todo tipo de assuntos e os impulsos sexuais de Sabina também faziam parte da conversa – a garota enfrentou o machismo do início do século 20 e compartilhava com os dois seus desejos mais íntimos. “Naquela época, as mulheres foram colocadas num pedestal, mas isso não é um bom lugar para se estar se você é humano”, comentou o cineasta durante entrevista para divulgar o filme. “Deuses supostamente não têm sexo, supostamente não precisam de educação, supostamente não se envolvem com política e assim por diante. Por isso, era uma espécie de gaiola dourada.”
Para o papel de Sabina, Cronenberg escolheu uma atriz improvável: Keira Knightley. A estrela da franquia “Piratas do Caribe” causou certa desconfiança na imprensa especializada e entre os fãs do diretor justamente por ela ter participado de grandes produções de puro entretenimento. Após conquistar o estrelato, no entanto, a atriz tem buscado explorar territórios que confirmem seu talento, como nos dramas “Desejo e Reparação” (2007) e “Não Me Abandone Jamais” (2010). “Eu vi Keira em muitos filmes e realmente acho que as pessoas a subestimam”, afirmou o diretor.
Seja por birra ou não, a interpretação da inglesa dividiu a opinião dos críticos devido aos exagerados gestos, tom de voz, expressões faciais e modificação da mandíbula da atriz – sintomas da histeria sofrida pela personagem. Keira sabia dos riscos do overacting exigido pelo papel, mas sua preocupação nem foi essa, mas com as cenas de sexo e masoquismo às quais teria de se submeter – motivo que quase a levou a desistir da produção.
Cronenberg estava tão interessado na presença da atriz que chegou a propor a eliminação das cenas caso fosse necessário para tê-la no elenco. A atitude comoveu a estrela, que topou o desafio e encarou as filmagens das agressões físicas – com a ajuda de uns copos de vodca, diga-se de passagem.
O cineasta canadense sabia, no entanto, que mais importante do que encontrar sua Sabina, era ter em seu elenco os atores perfeitos para interpretar Freud e Jung. E a escolha de Viggo Mortensen para o papel de Freud parecia óbvia, afinal ele já estrelou os dos últimos longas do cineasta, “Senhores do Crime” (2007) e “Marcas da Violência” (2005). “Química é a palavra certa”, confessou o diretor sobre sua parceria com o Aragorn de “O Senhor dos Anéis”. “Já trabalhei com muitos atores, mas há algo especial entre nós. É um lindo relacionamento de trabalho”.
Mortensen pesquisou a fundo seu personagem para compor qual a melhor postura e tom de voz para interpretar o autor de “A Interpretação dos Sonhos” – ele chegou a pentelhar Cronenberg por e-mail por diversas vezes para discutir qual o tipo e quantos charutos Freud fumaria por dia (mais de 20). O desempenho do ator valeu uma indicação ao Globo de Ouro e um prêmio Genie, o Oscar canadense, de Melhor Ator Coadjuvante.
O astro em ascensão Michael Fassbender ficou com o papel do pupilo/rival de Freud, e, diferente do colega, concentrou-se mais no roteiro e não foi tão a fundo na pesquisa. “Mas ele tem uma técnica enorme, não se tratava de improviso”, explicou o diretor. Sua interpretação de Jung chegou a arrancar ainda mais elogios da crítica – o que não resultou necessariamente em prêmios. Não que ele precise: desde que despontou em “Bastardos Inglórios” (2010), de Quentin Tarantino, Fassbender tem emendado um sucesso atrás do outro, como em “X-Men: Primeira Classe” (2011), no papel da versão jovem de Magneto, e no elogiado “Shame” (2011), ainda em cartaz, no qual interpreta um homem viciado em sexo.
Mal lançou “Um Método Perigoso”, Cronenberg já finaliza seu próximo filme. Baseado no romance homônimo de Don DeLillo, “Cosmópolis” se passa em apenas um dia, acompanhando um jovem bilionário que perdeu sua fortuna no mercado financeiro. No elenco, estão nomes como Paul Giamatti (“Sideways – Entre Umas e Outras”), Juliette Binoche (“Cópia Fiel”) e Mathieu Amalric (“007 – Quantum of Solace”). Mas, para o papel principal, Cronenberg apostou novamente em outro astro jovem cujo talento é questionado: Robert Pattinson, o (odiado e amado na mesma proporção) vampiro Edward da “Saga Crepúsculo”. “Robert é um ator muito subestimado. Acho que ele vai surpreender algumas pessoas”, declarou o diretor, já antecipando sua próxima polêmica.

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