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sexta-feira, 4 de maio de 2012

A bengala do Lula

JAIRO MARQUES*
Independentemente da sua identidade político-partidária (seja lá que ‘diaxo’ represente isso nos dias atuais), é de se reconhecer que o ex-presidente Lula se tornou um dos homens mais importantes do mundo devido, sobretudo, suas duas gestões à frente do cargo mais elevado da administração do Brasil, sil, sil.
E as mudanças na imagem de Lula, nos últimos meses, devido ao tratamento de um câncer, causam, no mínimo, uma estranheza na gente. Em mim, tem causado um misto de tristeza com reflexão sobre a condição humana, a fragilidade humana.

Ex-presidente Lula antes do tratamento do câncer na laringe (Divulgação)
Ele perdeu a barba, característica do ‘visu’ mais marcante que lhe rendeu o ‘escolacho’ de “sapo barbudo”.  :D . Depois apareceu mais magro, depois bem mais magro, frágil, bem longe da típica imagem firme e poderosa de habitualmente.
Ontem (03), mais uma vez, Lula veio a público e, de novo, apresentou uma ‘novidade’ em sua visual. Usava uma bengala e era amparado devido a um problema na perna.
Pois bem. O que isso tem a ver com esse blog, né, não?
Em primeiro lugar, a bengala de apoio do ex-presidente trás consigo o reforço de um discurso que muuuitas pessoas que batalham por um mundo que respeite e entenda as diferenças tem na ponta da língua: ambientes acessíveis atendem a todos em algum momento da vida.

Ex-presidente Lula aparece em evento usando bengala (Antonio Lacerda/Efe)
Lula não foi, em seus oito anos de poder, um presidente comprometido com as pessoas com deficiência. Tinha e tem um quê assistencialista e uma visão um pouco passada sobre o tema. Não fez nenhuma política pública específica para o público ‘malacabado’ nem um discurso marcante que ajudasse a firmar a onda que o Brasil vive de inclusão.
Contudo, foi um governante com forte ação social entre os mais pobres, camada onde ainda está parte importante do povo que não anda, não vê, não escuta ou é lascada de “um tudo”. Então, tem meu respeito.
De maneira nenhuma estou dizendo que “vibrei” com a imagem capengante do símbolo máximo do petismo. Mas quando alguém tão representativo está com mobilidade reduzida, mesmo temporariamente, causa minimamente um desconforto a quem mantém estruturas de exclusão, provoca o debate da inclusão e lembra a todos que ninguém está imune às adversidades.

Lula tem cabeça e barba raspadas por sua esposa (Instituto Lula)
Claro, não é algo automático e o ‘serumano’ demora muito para se tocar em relação a demandas que não são de seu próprio umbigo, mas a fotografia de Lula precisando de um objeto de apoio (poderia ser uma muleta, uma cadeira de rodas, um aparelho auditivo também) girou o planeta.
Um dos homens que vai marcar a história da humanidade (não tenha dúvidas disso, olhe os fatos históricos do país) teve problemas de locomoção e precisou, mesmo que minimamente, de acessibilidade (ou alguém acha que ele subiria vários degraus? que se arriscaria em uma calçada esburacada, que não acharia ‘maraviwonderful’ uma barrinha de apoio no banheiro?).
Desejo sinceramente a melhora do ex-presidente Lula. Desejo que ele recupere logo o vozeirão (atualmente ele tá usando muito os sinais… sinais ou a escrita, sacam?), o vigor de batalhar por seus ideais, a força que o fez se tornar um grande líder nacional.
Mas dentro do revés que enfrenta, Lula acaba por, inconscientemente e forçadamente, quiçá somente por alguns dias, participar de um grito que é cada vez mais potente: o da necessidade de mudar a dura realidade de conviver em sociedade com uma deficiência física, sensorial ou intelectual.
*Jornalista e blogueiro

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