Reflexões e artigos sobre o dia a dia, livros, filmes, política, eventos e os principais acontecimentos

domingo, 18 de novembro de 2012

O euro não tem plano B

Emílio Botín
A Europa é o eixo sobre o qual se desenvolveu a sociedade ocidental tal como a conhecemos. Muitas das ideias, sistemas políticos, avanços tecnológicos, sociais e econômicos que hoje nos regem, nasceram no continente.
Há 61 anos, a Europa soube ver a importância da unidade. Sempre que esteve unida, foi mais forte e mais próspera. O melhor exemplo é o euro. Os europeus nunca conheceram uma etapa de bem-estar tão longa como a que nasceu no Tratado de Paris.
Para as grandes empresas da região, o euro foi um fator determinante de crescimento. Contudo, a Europa foi atingida pela crise internacional sem que o continente tivesse as ferramentas adequadas para uma rápida resposta.
Creio que devemos refletir por que razão uma crise financeira, que nasce nos EUA, atinge a Europa com tal intensidade. A resposta é que as medidas implementadas foram insuficientes e lentas.
Já existe o consenso de que a união bancária é condição imprescindível para quebrar o círculo vicioso da relação dívida soberana e dívida bancária, para harmonizar as práticas regulatórias e supervisoras e reduzir a fragmentação do sistema financeiro
A mudança que representou a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo realizada em junho e as medidas do Banco Central Europeu (BCE), em setembro, marcaram o caminho de saída da crise. A prioridade, agora, tem de ser a execução do plano.
Se não agirmos com celeridade e determinação, corremos o risco de deslizar para o declínio da Europa. Há dados que o sugerem: a zona do euro tem mais de 330 milhões de habitantes. Em oito anos, Brasil e México terão mais habitantes do que os 17 países europeus juntos. Além disso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que nos próximos seis anos o Produto Interno Bruto (PIB) da região cairá cinco pontos percentuais, passando de 19% para 14%.
Sabemos o que está em jogo. O euro e a integração da Europa não têm marcha a ré. São imprescindíveis. Não existe plano B.
Estamos convencidos de que não haverá ruptura do euro. A Europa passou por outras crises institucionais e a resposta foi sempre avançar com a integração. Neste momento, cabe dar impulso à união política e à integração fiscal e bancária.
A Europa tem de deixar de ser um lugar de encontro e de articulação de interesses nacionais para ser uma direção política única que zele pelos interesses de todos os europeus. Tem de ser um todo e não a soma de partes. Não tenho dúvidas: a Europa e o euro sairão reforçados desta crise.
Hoje já existe o consenso internacional de que a união bancária é condição imprescindível para quebrar o círculo vicioso da dívida soberana - dívida bancária. É a chave para que deixemos de falar de crise e passemos a falar de crescimento e estabilidade. Além disso, a união bancária é indispensável para harmonizar as práticas regulatórias e supervisoras e reduzir a fragmentação do sistema financeiro europeu.
O banco Santander é o maior banco da zona euro por valor em bolsa, agências e clientes. Posso afirmar que nos foi muito mais fácil a expansão na América Latina do que na Europa, onde com demasiada frequência nos deparamos com uma série de obstáculos.
A união bancária é um processo ambicioso e complexo, mas o objetivo: Não podemos nos dar ao luxo de não enfrentá-lo agora.
A união bancária significa reforçar o sistema financeiro, fortalecendo a supervisão. Não há regulação que possa substituir uma boa supervisão. Temos de tornar os padrões de controle mais homogêneos e o BCE tem condições de assumir essa função.
Além desse processo-chave, é imprescindível que acabe de se definir as reformas regulatórias, de uma forma que potencializem a segurança do setor financeiro e não afetem negativamente o crescimento econômico.
A essas reformas juntam-se os processos de saneamento e reestruturação dos sistemas financeiros. O processo que a Espanha está vivendo é intenso e permitirá que seu sistema financeiro se torne em um dos mais sólidos do mundo.
Contudo, apesar da transformação gerada por todas essas reformas, a chave para um sistema financeiro forte a longo prazo é uma boa cultura bancária. E isso significa ter rigor para desempenhar a função básica de um banco: intermediar entre poupança e investimento, administrar os riscos e se manter focado no cliente.
Para seguir esses princípios e evitar que se assumam riscos demasiados na busca do lucro imediato, são necessários três elementos-chave. Uma governança corporativa sólida que garanta a qualidade na tomada de decisões, com um conselho de administração que conheça o negócio, que tenha visão de futuro e possa questionar as decisões dos gestores, que, por sua vez, devem ter experiência e responsabilidades claramente atribuídas. Uma política de riscos forte e independente. E, por último, que a cultura bancária regresse aos seus princípios e valores, orientada para gestão das necessidades do cliente.
Concluindo, a Europa atingiu um ponto de inflexão e só unida poderá ser forte. A prioridade é resolver a crise da dívida soberana e para isso é fundamental avançar na união bancária. Se queremos um mercado único, as regras e a supervisão também devem ser únicas. Por outro lado, é essencial uma boa cultura bancária para construir um sistema financeiro forte a longo prazo.
*Emílio Botín é presidente mundial do Banco Santander


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Acessos ao Blog

Post mais acessados no blog

Embaixada da Bicicleta - Dinamarca

Minha lista de blogs

Bookmark and Share