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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Entrevista com o Secretário James Correia


por Evilásio Júnior | Fotos: Tiago Melo/BN
Bahia Notícias - O que há de novo sobre o imbróglio da Azaleia, que fechou diversas unidades no sudoeste da Bahia, demitiu mais ou menos quatro mil pessoas e a região toda está bastante apreensiva? Na semana passada o governador Jaques Wagner se reuniu com ministros em Brasília. 
James Correia – Não, não. Até agora nós não temos novidade. Existe esse pleito para que a medida antidumping seja estendida para todos os países da Ásia. Essa é a solução do problema. É diminuir o problema da competição desigual. O antidumping cobra 13,50 dólares por par e é muito, porque o custo de produção deles lá é três, quatro, cinco dólares. Então, esse é o problema estrutural. Todas as empresas que produzem tênis no Brasil estão vivendo esse problema. Todos os tênis são importados, Nike, Adidas... e eles também fazem um lobby grande junto aos políticos para impedir que o governo estenda esse antidumping. Isso com certeza influenciou o fato de nós não termos conseguido ainda esse alcance maior do antidumping. Sem resolver isso, você não tem como discutir aqui problema de emprego, nada. A empresa não consegue vender os tênis que produz aqui, porque o custo é muito maior, e tem que enfrentar também o poder de marketing dessas marcas. Fica muito difícil. O nosso empenho tem sido no sentido de resolver isso e estamos tentando decidir com a empresa alternativas de quanto é possível readmitir e se não é. Essa discussão está acontecendo.
BN – O senhor acredita que realmente seria inviável para a Azaleia Vulcabras manter o funcionamento na Bahia?
JC – Sem ajuda do governo federal para fazer o que tem que ser feito, não tem solução.Ela vai minguar, minguar, minguar. Dos oito mil que vão ficar aqui, daqui a pouco ela fecha totalmente.
BN – Mas, por exemplo, a gente vê que enquanto o mercado disputa com marcas como Puma, Adidas e Nike, há uma penetração da Olympikus em outros segmentos como vôlei e até no futebol, como o Flamengo, Cruzeiro...
JC – Está saindo,  porque não tem condições mais de enfrentar o que os concorrentes estão oferecendo aos clubes. Os concorrentes querem liquidar a Azaleia. Exemplo, ela paga R$ 100 mil por mês. As concorrentes oferecem 300, 400, R$ 500 mil por mês. O grupo [Azaleia/Vulcabrás] está, inclusive, rescindindo o contrato antecipadamente porque a pressão dos clubes é muito grande para que aumente o valor. Não dá para enfrentar o poder [das empresas estrangeiras], porque se chega um tênis aqui por cinco dólares, eles vendem por R$ 300. Olha a margem que eles têm para fazer. Eles ganham muito dinheiro, é um negócio muito rentável. Agora, quando você bota 13,50 dólares e multiplica por dois, já vai a quase R$ 27, R$ 30. Não é um valor tão alto, mas já passa a interferir na rentabilidade dele.
BN – Quando vi a situação da Azaleia/Vulcabrás, que fabrica a marca Olympikus, pensei na solução de o governo tentar propor parcerias com clubes do interior da Bahia, via incentivos, já que as agremiações sofrem com problemas de arrecadação e captação de patrocínio. É uma possibilidade descartada, então?
JC – Veja só, não tem dinheiro. O volume de dinheiro que a Azaleia precisa é muito alto. Ela precisa vender seus produtos para cobrir as suas despesas. Ela vem financiando seus débitos e está com um prejuízo acumulado que, a depender da conta, pode ser mais de R$ 1 bi. A solução estrutural é realmente estancar a empresa, ou pelo menos criar uma condição para que estes tênis [importados] entrem sob mais controle, sob a medida antidumping. Assim você vê a quantidade que está entrando, qual a marca de cada uma etc. Para você ter uma ideia, o problema do tênis é muito pior que o problema dos veículos. E o governo, qualquer espirro em São Bernardo do Campo, todo mundo sai correndo para resolver os problemas. Nós estamos falando de IPI [Imposto Sobre Produtos Industrializados] que foi aumentado, importações e exportações que não chegaram a 5%. Agora estão falando o contrário, que as empresas brasileiras têm 15% do mercado e o resto tudo é importado. Você não tem, assim, equivalência, à medida em que você adota para veículos e também adota para calçados. Além disso, calçados somam 500 mil empregos no Brasil; automóveis equivale a 10% disso. A pressão política é determinante. É isso que estamos fazendo agora: responsabilizando o governo federal pela ausência de medidas protecionistas. Estamos cobrando uma posição que estava muito conveniente para o governo federal. Temos aqui quatro mil demissões; se acontecessem 500 demissões em São Paulo no setor automotivo, para tudo. É uma coisa que não tem proporcionalidade. Esse é o nosso questionamento em relação a adoção de medidas.
BN – Não fica complicado para o governo federal? A gente viu recentemente, em relação até a automóveis, carnes e itens alimentícios, o governo federal reclamar de aumento de tributos de outros países como a Argentina em relação ao produto brasileiro. Como é que vai ficar o Brasil, que reclama de baixa penetração no mercado internacional devido a medidas protecionistas, ao se ver agora obrigado a elevar a tarifação de produtos importados para proteger o mercado nacional? O senhor acredita que, diante deste cenário, é possível que o governo federal adote alguma saída?
JC – É, pelo seguinte: o país mais forte que poderia trazer para a Bahia mais problema e mais problema é a China. E o Brasil implantou facilidade. Sobre os outros, a relação comercial do Brasil é quase zero: Indonésia, Malásia, Vietnã, então, falta vontade política do governo para fazer o que tem que ser feito. Não tem explicação. Porque no caso da China, quando foi aplicada a lei antidumping, ali sim, teve que fazer uma discussão grande, consultar o país e todos aqueles procedimentos da OMC [Organização Mundial do Comércio]. Mas, feito isso, ela desrespeitou totalmente a barreira que o Brasil tinha estabelecido. Começou a vender por outros... é como se de repente a Bahia começasse a vender dois milhões de veículos, sendo que a Bahia só tem capacidade para produzir 250 mil. É uma coisa muito simples de ser aferida e ser resolvida. Agora não se deu a menor importância sobre essa briga que o governo da Bahia tem levado e o governador tem travado aí. Vamos ver se a gente consegue resultado. No Ceará também ja demitiram três mil pessoas. Ou seja, é um problema do país inteiro. No Rio Grande do Sul já demitiu muito mais: todas as empresas que produzem tênis estão com problemas. Quem produz sapato de couro, principalmente essa parte feminina, não tem tido problema nenhum, porque eles não conseguem acompanhar a moda, que é muito dinâmica. O tênis, não, é um calçado universal. Você compra um tênis na China, na Índia, no Paraguai, no Brasil, é o mesmo tênis. A escala é muito grande. Quando mudar a moda no outro ano, eles mudam tudo novamente e já venderam 12, 13, 15, 20 milhões de pares. Essa é a dificuldade. Na Bahia, nós temos mais de 40 mil empregos no setor calçadista, incluindo a Azaleia. Nós não estamos tendo problema nenhum nos outros segmentos, apenas no segmento que fabrica tênis.
BN – E estas doze unidades aqui na Bahia, todas elas fabricavam exclusivamente tênis? Com a marca Azaleia, nao haveria também produção de calçado feminino?
JC – Não, estas empresas produziam partes dos tênis. Cada uma produzia uma parte. Solado, tecido, tem toda uma logística. Mas predominantemente tênis. Fabrica alguma coisa além de tênis, mas não era preponderante. O Ceará fabrica mais sandálias, mas a Bahia é dimensionada para fabricar tênis.
BN – A crítica que o senhor faz ao governo federal é semelhante à que os deputados de oposição na Assembleia Legislativa da Bahia têm feito ao Estado. Como o senhor vê a crítica de que faltaria empenho do governo estadual para resolver a situação? Até porque, eles dizem que, embora haja crise, o fechamento de fábricas se concentrou aqui no estado.
JC – No Ceará também. Eles estão enganados. Rio Grande do Sul fechou muito mais do que aqui. Acho que o antidumping contra a China foi uma conquista da Bahia. Houve uma mobilização grande do governador, que carregou praticamente sozinho esse pleito junto ao governo federal, e nós conseguimos reunir documentação e provar que estava tendo realmente o dumping. Depois disso, foi feito um pleito de extensão desse antidumping para outros países. Esse pleito nós acompanhamos da mesma forma. Surpreendentemente, na votação da Camex [Câmara de Comércio Exterior], ele nao foi acatado e então começamos todo um processo que a oposição não está lembrada. Mas houve audiência pública na Câmara dos Deputados, que envolveu vários estados que produzem calçados, como Rio Grande do Sul, Ceará, São Paulo, Bahia; depois no Senado, antes de acontecer essa audiência. Foi chamado o ministro [do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel] lá e começou-se uma pressão, só que a solução do problema não aconteceu na velocidade que a Azaleia precisava. Eles passaram a fazer pressão, com um custo muito grande de produção, e tomaram uma decisão, que só eles podem avaliar, de fechar essas empresas e concentrarem tudo em Itapetinga para diminuir custos. Esse foi o argumento que eles usaram, mas eu acho que, pelos números da empresa, se nós não conseguirmos essa medida, haverá muita dificuldade em manter esses oito mil empregos. A crítica que a oposição faz esquece da discussão toda em audiência pública, esquece que depois do antidumping contra a China houve um grande lobby dos fabricantes de tênis, que têm muito dinheiro. Imagine o lobby de uma Nike, uma Adidas, uma Asics, para que a Camex não aprovasse essa medida. Realmente foi um lobby muito forte, dada a mobilização de todos os estados. Agora, nós estamos acompanhando e brigando, ao ponto de eu ter perdido um pouco a paciência e ter responsabilizado o ministro.
BN - O senhor chegou a responsabilizar diretamente o ministro Fernando Pimentel em uma veiculação nacional...
JC - 
Na matéria que saiu na Folha de S. Paulo, não nego, estou dizendo mesmo que a responsabilidade é do ministro, é do governo federal. Se nós tivéssemos aprovado [a medida antidumping] não teríamos esse problema que estamos tendo aqui. Em nenhum momento achei que o governo do Estado não se empenhou. Nós conseguimos antidumping... a Monsanto aqui, uma empresa americana gigante, está sofrendo uma pressão enorme na importação do glifosato, é um produto usado para fazer defensivos agrícolas, fertilizantes, adubos, enfim. Nós conseguimos em 90 dias o antidumping e, mais uma vez, o governador usou toda a articulação que ele tem para resolver isso. Nós conseguimos mais: conseguimos antidumping para produtos que a Braskem produz. O que o ministro disse em resposta à minha acusação de que ele é responsável, ele não deixa de ser responsável: ‘ajudei levar a JAC [Motors]’. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A Bahia é campeã em antidumping. Todas as ações que nós fizemos em defesa das empresas foram viabilizadas, só não conseguimos a extensão desse antidumping dos calçados, que era uma coisa que não era só pleitada pela Bahia, mas por vários estados. No Rio Grande do Sul, a indústria calçadista está acabando. Tênis praticamente não tem produção mais. Só tem indústria de calçados femininos. Tem essa complexidade que você falou da relação internacional, mas a mensagem que deixo para os deputados baianos é a seguinte: no caso da mobilização do governo, nunca houve tanta mobilização em relação à defesa dos interesses das empresas que estão na Bahia. Até se meter em ação judicial contra empresas multinacionais o governo fez para conseguir abrir uma nova fábrica de peróxi aqui em Camaçari. O empenho é total.
BN – Qual a mensagem que o secretário da Indústria, Comércio e Mineração tem para o pessoal da região de Itapetinga em relação aos desempregos? O governo, afora o problema da Azaleia, vai tentar empreender algum tipo de ação para atrair outras empresas para a região ou dar uma assistência à população que está desempregada agora?
JC – Sim. Eu já tinha ido lá antes desse evento. Esta semana o secretário de Trabalho [Nilton Vasconcelos] está negociando com o governo federal uma extensão de seguro-desemprego, questões paliativas, estruturais, como você falou. Nós temos os galpões onde a Azaleia está: são todos do governo. Não vai precisar, pela conversa que já tive com o presidente, nenhuma ação judicial para retomar estes galpões. Eles vão fazer a manutenção destes galpões para deixar em condições de receber empresas. E nós vamos fazer um grande trabalho para algumas das outras seis que já tinham sido desativadas. Já tínhamos encontrado empresas. Grande parte destas empresas já tem uma estrutura pronta. Para estas 12 e as outras que não conseguimos ainda, vamos fazer uma campanha nacional no jornal com o mapa lá da região, localização de cada galpão, metragem de cada um. Todos têm mais ou menos 1,6 mil metros quadrados e vamos abrir uma chamamento para atrairmos empresas. É um grande diferencial você ter um galpão, e um diferencial ainda maior ter mão-de-obra treinada. Então, essa é a nossa estratégia de realmente colocar uma outra empresa. Nós tentamos negociar a possibilidade de fazer cooperativa para os desempregados fornecerem à Azaleia, mas a questão dela é a seguinte: eles tinham 18 mil empregos e foram reduzindo, reduzindo... Segundo eles, tem um galpão imenso de tênis top, que daqui a pouco sai de linha. E o que vão fazer com estes tênis? Não estão conseguindo colocar no mercado o que estão produzindo. Essa é a dificuldade.
BN – O senhor não teme que o governo federal feche as portas devido à troca de farpas entre o senhor e o ministro via jornal e a situação piore?
JC – 
Eu estou cumprindo o que eu acho que é o meu dever, meu papel. Eu tenho essa característica de ser muito pragmático com as coisas. Então, não estou preocupado com o que o ministro está pensando. Estou preocupado com o que está acontecendo. Ele tem que dar uma explicação porque isso está acontecendo. Ele não veio ainda a público dar uma explicação. Fica se escondendo atrás de JAC Motors e outras coisas do tipo, e não resolve o problema. Quero que ele dê uma explicação para os baianos, cearenses, sul-riograndenses, sobre o que está acontecendo. Porque alguma coisa está acontecendo e tem que ter uma resposta. Ele é ministro para isso. Deve compreender mais dos problemas do que nós que estamos aqui, senão estaria lá no lugar dele. Se fosse uma responsabilidade minha dar uma resposta, eu já tinha dado. Ele está se escondendo sob temas que não vêm ao caso. Ao dizer para jornais que a Bahia recebeu a JAC Motors, o que tem a ver a JAC Motors? Ele só está com indústria automotiva na cabeça, não tem outra coisa. Essa é a visão que eu tenho. Agora, não creio que isso vá fechar as portas, até porque nós temos o governador que tem acesso direto à presidente Dilma. Ela não está sabendo o que está acontecendo no interior da Bahia. Cabe ao governo do Estado responder o que a imprensa pergunta de forma honesta e direta. Acho que o papel da oposição é criticar o governo do Estado por não ter dado a solução, isso não podemos negar. É o papel da democracia. O PT fazia isso quando estava na oposição. Cabe ao governo do Estado ter articulação com o governo federal e buscar uma explicação. Quem representa o governo federal nesse assunto é o ministro, então cabe a ele dar uma explicação. É muito simples.
BN – O que o senhor daria o que de presente de Natal para o ministro?
JC –
 Daria um Olympikus para ele. Talvez ele use Reebok, Nike, Asics... eu daria um Olympikus para ele de presente.
BN – Fabricado em Itapetinga...
JC –
 Fabricado em Itapetinga.

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