Entrevista com Ademir Pereira dos SantosPor Morgana Gomes
"A obra e vida do grande pensador brasileiro constituem num verdadeiro legado deixado ao Brasil mestiço, consciente de suas potencialidades, desafios e problemas, mas também confiante na ética e na capacidade para a sua transformação", com essa definição, Ademir Pereira dos Santos, autor da obra vencedora da 5ª edição do Prêmio Clarival do Prado Valladares, em 2008 - uma iniciativa da Organização Odebrecht para apoiar a pesquisa histórica e a produção editorial brasileira -, mostra-nos como ampliou seu trabalho de mestrado em História e obteve uma publicação ímpar, ao dar um tratamento diferenciado ao engenheiro mulato, que se tornou uma figura de suma importância no cenário nacional.
Natural de Santo Amaro da Purificação, Theodoro Fernandes Sampaio nasceu em 7 de janeiro de 1855 e faleceu em 11 de setembro de 1937, no Rio de Janeiro. Apesar da origem humilde, possuía múltiplas habilidades que foram empregadas em prol do desenvolvimento brasileiro. Por isso, ao analisar levantamentos topográficos e geográficos do Vale do Paranapanema, realizados durante expedições que o engenheiro efetuou no início do século 20, Pereira dos Santos evidenciou de forma clara e objetiva a trajetória de um homem polivalente, que se destacou também como geógrafo, cartógrafo, planejador urbano e empresário que, além de estudar a história e a geografia do Brasil, enveredou-se por especialidades como a tupinologia, a arqueologia, a mineralogia e a linguística e, assim, tornou-se uma das figuras mais importantes para o desenvolvimento regional e urbano do país, principalmente nos Estados de São Paulo e Bahia.
Nesta entrevista, ele descreve o início da carreira do protagonista e aborda o trabalho do jovem engenheiro, que nos é apresentado tanto como planejador e estudioso da história das cidades quanto como um profissional de extrema importância para trabalhos de urbanização, principalmente nos setores ferroviário e hidráulico.
Leituras da História - Quem foi Theodoro Sampaio?
Ademir Pereira dos Santos Um engenheiro que se destacou entre outros de origem negra, como Antônio e André Rebouças, ainda em um país escravista. Todos pertenceram à elite dos primeiros engenheiros civis formados pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em um cenário marcado pela integração do país ao capitalismo industrial, que necessitava, portanto, de uma modernização estrutural, em termos técnicos, científicos e administrativos. Ele ascendeu a essa condição devido à competência técnica e ao domínio das línguas estrangeiras. Atuou em projetos estratégicos para o Império. Estruturou o serviço regular de estudo do meio físico paulista, para dar o suporte técnico e científico à industrialização e urbanização da cidade e do Estado de São Paulo. Concebeu e implantou projetos de saneamento e abastecimento de água na capital do seu Estado, a Bahia. Porém, o mais curioso é que Theodoro Sampaio era filho bastardo de uma escrava, provavelmente, com o padre ou um dos donos de um grande engenho do Recôncavo Baiano. Tornou-se, devido aos estudos, um homem culto, de hábitos e comportamento refinados, quase que uma exclusividade dos brancos, no regime escravocrata do Império. Nasceu em 7 de janeiro de 1855 no Engenho Canabrava, antigo bairro Bom Jardim de Santo Amaro da Purificação, atualmente cidade Teodoro Sampaio, no Recôncavo Baiano. Com 10 anos, foi para o Rio de Janeiro, com o padre que pode ter sido seu pai, e acabou estudando em um bom colégio carioca, em regime de internato, o Colégio São Salvador. Um privilégio na época. Em 1872, foi admitido na Escola Central, transformada em Escola Politécnica em 1874. Formou-se em Engenharia Civil em 1876.![]() Desenho da cachoeira de Paulo Afonso, de autoria de Theodoro Sampaio |
LDH - Durante suas pesquisas, quais foram os fatos inéditos que o senhor encontrou?
APS - Sua obra é até bem conhecida, porém, sempre parcialmente. Há vários "Theodoros". A extensão e a profundidade com que tratou cada tema ou área do conhecimento é que é surpreendente. Há o tupinólogo, por exemplo, o cartógrafo, o historiador, o geógrafo, o engenheiro, o arquiteto, o desenhista, o etnógrafo, o político... O que minha pesquisa trouxe à tona foi a interpretação desse conjunto e a documentação inédita, constituída pelos desenhos, plantas, mapas, originais e cadernetas de campo, depositada em instituições como o Arquivo Nacional, o Instituto de Geografia e História da Bahia, o Arquivo do Estado da Bahia e de São Paulo, o Instituto Geológico e o Cartográfico de São Paulo. O que se destaca são as cadernetas de campo que produziu. Os desenhos e anotações de seus diários também são fontes preciosas para compreender a estruturação do seu pensamento. Além de estudos e anotações típicas do ofício do engenheiro, do cartógrafo, há desenhos e notas críticas sobre os aspectos socioculturais dos lugares que conhecia. As cadernetas de campo revelam o exímio desenhista e permitem entrever o repertório erudito que orientou sua formacão.
LDH - A paternidade dele impôs algum tipo de constrangimento?
APS - Há dúvidas sobre sua paternidade. Pode ter sido o Visconde de Aramaré, Antônio da Costa Pinto, dono do engenho, como também seu irmão Francisco Costa Pinto ou o padre do referido lugar, o capelão Manuel Fernandes Sampaio que deu a ele o sobrenome. Segundo seus biógrafos, ele foi tirado da mãe, uma escrava doméstica do Visconde, com dois anos de idade e, então, levado para a cidade de Santo Amaro. Depois, seguiu para o Rio de Janeiro e só retornou ao Engenho Canabrava depois de formado. Alforriou seus irmãos e levou a mãe para morar na cidade de Santo Amaro. Nunca revelou quem era seu pai. Biógrafos apontam o padre. Descendentes e parentes dos donos do engenho apontam o irmão do Visconde de Aramaré.
"[Theodoro] Atuou como engenheiro civil, arquiteto e urbanista. Elaborou normas e legislações e ainda deu uma contribuição substancial à historiografia, à geografia e à cartografia nacional, ao mapear regiões 'obscuras' e sem informações seguras"
LDH - Por que ele é considerado o primeiro pensador brasileiro?
APS - De fato, ele integrou uma geração de profissionais importantes para o pensamento nacional e para afirmação do país no cenário internacional: a geração de engenheiros brasileiros que substituiu os profissionais estrangeiros, "importados", devido à carência profissional. Com a instituição da República, a absorção de profissionais com ensino superior foi ainda mais incrementada. Esses profissionais contribuíram para a institucionalização da ciência, ou seja, para a aplicação do conhecimento científico à estruturação do aparato do Estado, para que este garantisse a oferta de serviços públicos com qualidade técnica e equidade. Desse tipo de trabalho, muito específico e pouco valorizado, é que vem a capacitação jurídica e administrativa do poder público para assegurar o usufruto dos direitos aos cidadãos. Theodoro Sampaio era um profissional refinado e muito requisitado. Atuou praticamente toda a sua vida em instituições públicas. Foi um cientista e um técnico que tinha a capacidade de desempenhar funções variadas e complementares. Atuou como engenheiro civil, arquiteto e urbanista. Elaborou normas e legislações e ainda deu uma contribuição substancial à historiografia, à geografia e à cartografia nacional, ao mapear regiões "obscuras" e sem informações seguras.
"Via sua contribuição como engenheiro especializado em saneamento e abastecimento de água como uma causa política. Pressupostos da existência e da dignidade do cidadão. Seu esforço em contribuir para a modernização de Salvador é notável"
LDH - E qual sua a importância para as diversas áreas em que atuou?
APS - Sua trajetória profissional coincidiu com momentos decisivos para o país. Atuou por 60 anos aproximadamente, de 1877 a 1837. Vivenciou os últimos 12 anos do Império e a Primeira República. Assistiu a subida de Vargas ao poder em 1930 e morreu um ano antes da instituição do Estado Novo. Apesar da discrição que caracterizou a vida pública, esteve no centro de debates importantes, como a construção de ferrovias integradas à navegação do Rio São Francisco, obras destinadas a fazer frente às secas e ao isolamento sertanejo. Nos sertões baianos foram consumidos os primeiros nove anos de sua vida profissional. Dessa experiência, surgiu o primeiro livro, O Rio São Francisco e aChapada Diamantina, de 1905. Revelava-se ali um escritor com ampla capacidade de síntese e abordagem de um tema em perspectiva histórica. Aliava a elegância à erudição e à simplicidade. Outra obra fundamental é O Tupi na Geografia Nacional que já teve várias edições. São livros precursores de uma abordagem marcada pelo realismo e pela brasilidade sem ufanismos, do legado indígena e da peculiaridade da paisagem sertaneja. Parte de sua produção como historiador, que fundou o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, foi reunida em 1978, no livro São Paulo no Século XIX e Outros Ciclos Históricos [Petrópolis: Vozes]. Sua produção na Bahia, a frente do Instituto Geográfico e Histórico, também é digna de nota e está registrada na Revista do IGHB. São ensaios, discursos e artigos, que foram seminais em termos temáticos e metodológicos para várias áreas do conhecimento, como a Arqueologia, a Etnologia, a Geografia e a Geologia brasileira. Vale a pena destacar aqui a grande obra, que apesar de inacabada, acompanhou Theodoro Sampaio até os últimos dias, desde que se transferiu para Bahia: História da Fundação da Cidade de Salvador (1949). Ali encontramos o pesquisador dedicado e atento aos documentos.
LDH - O que dizer sobre sua influência no desenvolvimento regional e urbano do Brasil?
APS - Theodoro Sampaio chegou em São Paulo em 1886 e, quando foi instituída a República, participou ativamente da criação da infraestrutura necessária para que a cidade suportasse o vertiginoso crescimento agrícola e industrial. Atuou decisivamente no abastecimento de água, coleta de esgoto, transporte urbano, colônias agrícolas, estradas, serviços médicos e, principalmente, no saneamento urbano. Como engenheiro sanitário atuou ao lado de médicos, que também se destacaram ao debelar as doenças que comprometiam a expansão da cafeicultura. Retornou a Salvador em 1904 e, depois de ampliar e reformar o sistema de abastecimento de água e a rede de coleta de esgotos, dedicou-se a um projeto cultural e político de valorização da Bahia, que perdera o prestígio e o peso político que tivera no Império. Via sua contribuição como engenheiro especializado em saneamento e abastecimento de água como uma causa política. Pressupostos da existência e da dignidade do cidadão. Seu esforço em contribuir para a modernização de Salvador é notável. Reformulou a Igreja da Vitória, a Faculdade de Medicina, entre outras obras que marcam a paisagem soteropolitana. Projetou a "Cidade Luz" em 1919, Pituba, considerada uma das experiências pioneiras do urbanismo moderno. Conciliou nesse projeto o conceito de uma unidade de vizinhança, caracterizada pelo provimento dos equipamentos básicos para a vida comunitária, com todas as preocupações sanitárias e o posterior desenvolvimento urbano da região. Não por acaso, foi para aquela direção que Salvador cresceu e ganhou sua feição contemporânea.
LDH - Fale-nos sobre a produção cartográfica e textual de Theodoro Sampaio?
APS - A cartografia se destaca nas duas fases iniciais da sua trajetória profissional, no Vale do Rio São Francisco, de 1879 a 1886, e, depois, no Rio Paranapanema, em São Paulo, pela Comissão Geográfica e Geológica, entre 1886 e 1890. Além dos mapas e plantas, produziu desenhos, diários e relatórios sobre aspectos diversos, tais como as condições econômicas e sociais, a vegetação e os solos. No caso do Rio Paranapanema, tomou gosto pelos estudos indígenas e chegou a produzir um vocabulário da língua dos nativos, que viviam nas últimas florestas que restavam quase intactas no Estado de São Paulo. Apesar de serem trabalhos marcados pelo pragmatismo científico, seu trabalho como cartógrafo trouxe à luz partes imensas do território brasileiro, os reais aspectos da configuração da Chapada Diamantina e do Vale do Rio São Francisco. Publicou, em 1908, um atlas para o ensino básico e implantou em São Paulo o primeiro serviço sistemático de mapeamento topográfico por meio da Geodesia. Theodoro Sampaio produziu uma obra plural, com contribuições importantes para as Geociências e as Humanidades.
LDH - No que ele se diferenciou dos demais contemporâneos?
APS - Ele é um dos raros exemplos de intelectual com ascendência escrava mesmo. Theodoro foi deputado federal e quase foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras. Ao invés de se valer de argumentos que hoje soariam piegas, fez da sua condição de afrodescendente e filho bastardo, motivos de uma silenciosa superação pela competência técnica. O reconhecimento e o respeito que granjeou como profissional e erudito se mostraram inabaláveis, devido à profundidade e seriedade de seu trabalho intelectual, reconhecido pela elite política e pela comunidade de homens de ciência e de letras de sua época. Homem calmo, postura firme e comportamento refinado foram características marcantes do mulato que chamava a atenção pela retórica, pela elegância e pela modéstia. Ao contrário de outros intelectuais de origem negra, Theodoro Sampaio foi um defensor da monarquia quando estudante no Rio de Janeiro e parece que levou consigo essa convicção para o túmulo.
"Foi deputado federal e quase foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras. Ao invés de se valer de argumentos que hoje soariam piegas, fez da sua condição de afrodescendente e filho bastardo, motivos de uma silenciosa superação pela competência técnica"
LDH - Por favor, fale sobre a amizade de Theodoro Sampaio com Euclides da Cunha e como se deu sua colaboração para a obra Os Sertões.
APS - Eles se tornaram amigos em São Paulo, quando Euclides da Cunha foi atuar na Secretaria da Agricultura, como engenheiro de obras. Depois, em 1897, quando Euclides da Cunha foi destacado para fazer a cobertura da Guerra de Canudos para o jornal o Estado de São Paulo, ele recorreu aos conhecimentos de Sampaio que atuara como engenheiro e mapeara a região, enquanto trabalhara de 1881 a 1883 na construção da ferrovia Prolongamento da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, que cortava a região próxima a Canudos. Sampaio não só forneceu seus apontamentos sobre as características geográficas e geológicas que levantara, mas principalmente um mapa, que serviu não só a Euclides, mas ao próprio Exército. Sampaio relata em textos que Euclides constantemente o visitava aos domingos para ler e ser aconselhado acerca do texto que estava produzindo. O próprio nome Os Sertões se deve a sugestões dele. Para Gilberto Freyre e Capistrano de Abreu, Theodoro Sampaio foi a grande inspiração de Euclides da Cunha.
LDH - De que forma o Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica ajudou seu trabalho?
APS - Trata-se do maior prêmio na área de história do Brasil e da arte brasileira. Tive a honra de ter sido o escolhido entre 334 concorrentes que apresentaram projetos na sua quinta edição, em 2008. Pude dedicar-me por mais de um ano exclusivamente à pesquisa e à produção do texto, assistido por pesquisadores e com todos os custos da pesquisa e da produção do livro, devidamente, cobertos pelo prêmio. O cuidado com a qualidade da produção gráfica da coleção formada pelas publicações do prêmio foi um dos aspectos que me levou a tematizar a obra de Theodoro Sampaio. São livros de arte e só desse modo é que mapas e desenhos a lápis, minúsculos e de difícil tratamento gráfico, poderiam vir a público. Nosso trabalho ganhou dois Jabutis, o prêmio mais cobiçado entre editores e autores do país. Fomos o terceiro lugar como o melhor livro de Arquitetura e Urbanismo e o primeiro na categoria Projeto Gráfico, reconhecimento do primoroso trabalho que o prêmio proporcionou. A edição de Theodoro Sampaio: nos Sertões e nas Cidades foi um marco para a minha vida acadêmica e profissional. Permitiu que um mero trabalho acadêmico para obtenção do título de mestre saísse da prateleira cinza de uma biblioteca universitária e se tornasse uma requintada publicação. O prêmio também permitiu que o trabalho fosse ampliado e ganhasse profundidade documental. A pesquisa que fizera para o mestrado em História na Universidade Estadual de São Paulo [UNESP] de Assis, em 1993, foi redimensionada, ganhou fôlego e dimensão editorial. Liderei uma equipe multidisciplinar, que envolvia fotógrafos, designers, revisores, pesquisadores especializados em imagens de documentos raros, enfim, um universo profissional muito diferente do acadêmico que é a minha origem. Tive a oportunidade de peregrinar por arquivos em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, além de conhecer obras, autores, acervos e pesquisadores, alguns já personagens importantes da historiografia brasileira.
Paranaense de Rondon, é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em História pela Universidade Estadual Paulista e doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Professor universitário, lecionou em diversas instituições acadêmicas, entre as quais a Universidade do Vale do Paraíba (em São José dos Campos) e a Universidade Belas Artes (em São Paulo). Atua, desde 1997, no Docomomo Brasil (Documentation and Conservation of Modern Movement) e, desde 2004, no Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial, vinculado ao The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage - TICCIH. É coautor do trabalho Eduardo Kneese de Mello. Arquitetura Atribuição de Arquiteto (Editora Belas Artes, 2005) e autor de Arquitetura Industrial - São José dos Campos (APS, 2006), que recebeu menção honrosa do Instituto dos Arquitetos do Brasil, em 2006.
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