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quarta-feira, 27 de março de 2013

Jardins Botânicos

Antônio Risério*

É curioso, mas nem todo mundo sabe. A instituição a que hoje chamamos "jardim botânico" nasceu bem cedo no Brasil. Um século antes que nos Estados Unidos. Mas foi no Brasil Holandês, no século 17, com Nassau. Estavam em voga naquela época, na Holanda, jardins públicos com alamedas de grandes árvores, sob cuja sombra floresciam tavernas e casas de entretenimento. Nassau levou a onda para o Recife, para a ilha de Antonio Vaz. Plantou ali cerca de dois mil coqueiros e os mais diversos tipos de plantas brasileiras, além de outras importadas das Antilhas e da África. Jenipapeiros, mangabeiras, pitangueiras, tamarindeiros. Plantas ornamentais e medicinais. Foi o primeiro jardim botânico das Américas. 
O exemplo não vingou. Com a volta de Nassau e a expulsão dos holandeses, nem aquele jardim pioneiro foi adiante. O jardim público só vai renascer, entre nós, no fim do período colonial. Com o Passeio Público do Rio de Janeiro, com o Passeio Público de Salvador. Com a região da Luz, em São Paulo, convertendo-se em espaço para o lazer e a observação de plantas cultivadas. 
Mas um passeio público não é um jardim botânico. Os nomes dizem tudo. Assim, depois da realização de Nassau, o segundo grande marco só vai aparecer em 1811, com a criação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, graças às obras de melhoria urbana e cultural da cidade, em conseqüência da fuga de João VI e da corte portuguesa para o Brasil. Digo melhorias culturais porque são coetâneas, entre outras realizações, às criações do Museu Nacional e do Jardim Botânico. 
E o Jardim Botânico do Rio foi um espaço experimental. Ensaiava novidades, buscava introduzir novas culturas (como a da planta do chá etc.). E não nos esqueçamos de que o Brasil vivia, naquele tempo, sob o regime da escravidão. Logo, para cuidar e manter em funcionamento o Jardim Botânico, fora designado um grupo especial de escravos jardineiros. Os escravos cuidavam, claro. Mas também, como de praxe, driblavam a vigilância governamental e burlavam a lei. Desviavam sementes e frutos de plantas e árvores raras do Jardim Botânico. E assim mantiveram, durante um bom tempo, com a cumplicidade de senhores que compravam, um negócio bem lucrativo para eles. 
Apaixonado por sua obra (dizem que passava dias inteiros por lá), João VI determinou a criação de filiais do Jardim Botânico em Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo e Bahia. O caso da filial da Bahia permanece, ainda hoje, obscuro. Não se sabe o que foi realizado aqui, se é que alguma coisa realizou. 
Em conversa, o biólogo, ambientalista - e estudioso da Bahia -, Ronan Cayres de Brito procura esclarecer o assunto. Acredita ele que, naqueles começos do século 19, houve a idéia de fazer um jardim botânico no Campo Grande, em Salvador. João VI teria, inclusive, encomendado o projeto a um arquiteto. Diz Ronan que o projeto era tão sofisticado que contava até, no centro do parque, com um "cristal palace" para abrigar as plantas mais delicadas. 
De qualquer sorte, o fato é que o projeto não vingou. Vamos tentar realizá-lo agora, dois séculos depois. Em novo contexto, em outras bases, sob novas luzes. 
Antonio Risério é antropólogo e escritor

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