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quinta-feira, 9 de maio de 2013

As mutações de Dilma


Cristiano Romero*
Era maio de 2010 quando a ainda pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, disse, num seminário promovido no Rio pelo Valor e o "Financial Times", que adotaria receita ortodoxa para convergir a taxa de juro brasileira a níveis internacionais. Ela aumentaria o superávit primário das contas públicas e, assim, reduziria a dívida pública como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). À medida que dívida e déficit públicos diminuíssem, investidores exigiriam prêmio menor para financiar o Estado.
Presentes ao seminário, empresários pesos pesados ficaram bem impressionados com o discurso. Alguns ainda desconfiavam de que, uma vez instalada no poder, Dilma baixaria o juro na marra e que, em vez de adotar uma meta para a dívida, teria meta para a Selic.
Na primeira fila da plateia do seminário estava o principal coordenador da campanha de Dilma - o ex-ministro Antonio Palocci, responsável pela política econômica do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Palocci entrara na campanha pelas mãos de Lula, que o escolheu para a tarefa por duas razões: o trânsito livre junto a empresários e banqueiros; e o fato de ser o principal defensor de seu legado na economia.
Que figurino vestirá a presidente em 2015, um ano de ajuste?
Pragmático, Lula se preocupava com certas ideias de Dilma. No início do mandato, em 2003, ouviu dela críticas duras à política conduzida por Palocci, que consistia na adoção de uma meta de superávit primário superior à do governo tucano; à flutuação da taxa de câmbio com acumulação de reservas; e ao fortalecimento do regime de metas para inflação, mediante concessão de autonomia operacional ao Banco Central.
As ressalvas de Dilma eram tantas que, certa vez, Lula pediu a ela que formulasse um plano alternativo, que nunca veio. Em 2005, ela assumiu o comando da Casa Civil em meio à crise do mensalão. No fim daquele ano, derrubou tentativa, propugnada por Palocci com o apoio do ex-ministro Delfim Netto, de adoção de um duro programa fiscal para zerar o déficit público.
No segundo mandato de Lula, Dilma liderou iniciativa (o PAC) para aumentar o investimento público em infraestrutura. Era uma inflexão à ortodoxia da Era Palocci, mas com manutenção do tripé mencionado. Naquele período, disciplinada e leal a Lula, a então ministra não foi vista uma vez sequer criticando pública ou reservadamente as políticas cambial e monetária.
Não se sabe também da participação de Dilma no movimento, ocorrido na primeira metade de 2008, para desestabilizar o então presidente do BC, Henrique Meirelles, embora algumas de suas ideias estivessem lá. Reunião no Palácio do Planalto chegou a tratar da desvalorização e prefixação do câmbio, mas Lula abortou a proposta, supostamente porque, em maio daquele ano, o país recebera o grau de investimento das agências de risco.
Durante sua campanha, Dilma adotou discurso conservador. Nada de reduzir juro na marra, desvalorizar o câmbio à força ou flexibilizar a meta de inflação. Eleita, ela aumentou o superávit primário e deu autonomia ao BC para elevar a taxa Selic já no primeiro mês de mandato - e nos meses subsequentes.
Depois da saída de Palocci do governo, em junho de 2011, coincidência ou não, Dilma começou a mudar a política econômica. Em agosto, o BC, num movimento surpreendente, iniciou forte corte da Selic, mesmo com a piora das expectativas de inflação. No momento seguinte, o governo adotou medidas de controle dos fluxos de capitais para forçar a desvalorização do câmbio.
Em 2012 e no ano em curso, o governo abandonou a política de contração fiscal. Desistiu também de perseguir a meta oficial de inflação (4,5%) - o objetivo passou a ser não romper o limite superior do intervalo de tolerância (6,5%). Neste ano, a presidente passou a exercer enorme pressão sobre o BC quando surgiram os primeiros sinais de que o juro subiria.
Paralelamente às mudanças na política macroeconômica, Dilma adotou discurso em prol do aumento da produtividade. Chegou a afirmar que o Brasil não será socialmente justo se não tiver uma economia competitiva. E adotou agenda que coloca o setor privado na liderança dos investimentos em infraestrutura, justamente o oposto do PAC e do que defende o seu partido, o PT.
Ao implementar essa agenda, a presidente fixou regras inexequíveis para o setor privado, mas as vem aperfeiçoando. Anunciou, ainda, um sem-número de pacotes para desonerar a economia, mas com o claro objetivo de reduzir pressões inflacionárias de curto prazo e impedir a alta da Selic.
O resultado de todo esse ativismo não é animador. O PIB cresce pouco, em que pese a expectativa de expansão mais forte em 2013; a inflação em 12 meses supera os 6,5% e preocupa os empresários, como mostrou ontem reportagem no Valor; o investimento está deprimido; há um clima de hostilidade em relação ao governo nos setores financeiro e produtivo; a taxa de juros voltou a subir, no momento em que nas principais economias do planeta ela é negativa.
Nada disso tira o entusiasmo da maioria esmagadora da população. A elevada popularidade dá à presidente favoritismo para a disputa de 2014. Para analistas preocupados com o médio prazo, 2015 será um ano de ajuste, uma vez que tanto a situação fiscal quanto a das contas externas, isto sem falar da inflação, inspiram cuidados. A dúvida é saber que caminho Dilma, reeleita, trilhará para enfrentar os problemas: se a via ortodoxa do início de seu governo ou uma aposta redobrada no modelo adotado desde agosto de 2011.
* Cristiano Romero é editor-executivo do jornal Valor Econômico 

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