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sexta-feira, 24 de maio de 2013

PSB mobiliza base contra 'UDN de macacão' Compartilhar

Cristian Klein*

Em tese, será uma consulta às bases e foi anunciada assim na terça-feira pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Mas a mobilização interna de Estados e municípios para supostamente definir se o partido o lançará à corrida presidencial, em 2014, carrega outro objetivo. O chamamento das bases não terá caráter deliberativo. Até porque a decisão já estaria tomada. O que Eduardo Campos procura é utilizar o seu poder de agenda, enquanto presidente da sigla, para obter respaldo de um universo maior de filiados, depois do aumento da resistência de governadores contrários à sua candidatura.
Braço-direito do presidenciável, o primeiro-secretário do PSB, Carlos Siqueira, afirma que não se trata de uma consulta, e sim de um debate, o que o partido fará nos Estados e municípios. Eduardo Campos, diz, não passará por nenhum tipo de escrutínio interno a não ser na instância oficial e obrigatória, que é a convenção, realizada pelos partidos até o fim de junho do ano eleitoral.
Campos terá tratamento diferente ao dispensado ao ex-governador do Ceará Ciro Gomes, que em 2010 também queria ser candidato à Presidência. Diante da recusa do grupo de Eduardo Campos - que à época, ao contrário de agora, preferiu apoiar o PT e a então candidata Dilma Rousseff - Ciro teve que solicitar uma consulta aos 27 Estados (perdeu por 20 a 7) e à Executiva nacional (nova derrota por 21 a 2). Isso foi no fim de abril de 2010. Sem força e natimorta, a tese de candidatura própria sequer chegou a ser votada na convenção de junho.
Presidenciável quer preservar imagem até convenção
O plano, desta vez, é que Eduardo Campos, que tem o controle do partido, seja preservado e não passe pelo mesmo constrangimento. Não haverá consulta às direções estaduais ou à Executiva. "Não vamos fazer isso. O processo é outro. Eduardo Campos não é o Ciro Gomes, que tinha pouco tempo de partido, não tem uma tradição socialista, não era o presidente do partido. Do ponto de vista partidário, não há o que comparar. Nós temos outras condições", diz Siqueira.
O dirigente afirma haver uma ampla maioria do PSB favorável à candidatura de Campos. "Nós vamos chegar ao congresso [convenção] porque a candidatura vai existir, independentemente da vontade do governo, do desgoverno, dos jornalistas, de quem quer que seja. Ela vai ser escolhida no dia 30 de junho de 2014", vaticina.
Apesar disso, a mobilização das bases denota que a segurança do governador talvez não seja tão grande. "Isso é necessário até para estimular o partido, se é que é necessário porque o que nós colhemos na base do PSB é um entusiasmo maior que o da cúpula. Não se trata de entusiasmar [a base] porque ela está mais entusiasmada de que o candidato até", diz Siqueira.
A declaração deixa no ar a viabilidade da candidatura. Na entrelinha, dá a entender que Eduardo Campos, depois de se mexer tanto em busca de apoio externo e ver a resistência interna crescer, gostaria de ter uma margem de manobra para desistir, mas sabe que recuar pode transparecer fraqueza. Carlos Siqueira nega que haja preocupação com a irreversibilidade da empreitada. "O que nós precisamos reverter, se temos a maioria absoluta do partido?", pergunta.
O primeiro-secretário diz que o único caso perdido é o do Ceará, com o governador Cid Gomes e o irmão Ciro, pois "a tradição deles é estar com qualquer governo". Quanto aos demais descontentes, como os governadores Renato Casagrande, do Espírito Santo, e Camilo Capiberibe, do Amapá, há um entendimento de que a "primeira responsabilidade deles é com os eleitores do Estado" mas que não serão contrários à candidatura.
Siqueira elenca uma série de exemplos para refutar a tese dos governadores de que, sem aliança com o PT, os palanques estaduais ficarão enfraquecidos. Cid Gomes, em entrevista ao Valor, chegou a dizer que o PSB corre o risco de perder todos os seis Estados conquistados em 2010.
O dirigente, em resposta, argumenta que apenas no Piauí houve "contribuição efetiva" dos petistas, já que o ex-governador e hoje senador Wellington Dias fez do vice Wilson Martins o seu sucessor. Nos outros quatro Estados, o apoio do PT teria sido importante, mas não essencial: Eduardo Campos e Cid Gomes foram reeleitos porque fizeram um bom governo; Capiberibe foi beneficiado porque integrantes do "governo de plantão foram para a cadeia"; e Casagrande se converteu no nome mais viável da "realidade política". O único que não teve apoio do PT foi Ricardo Coutinho, na Paraíba, que se coligou com os tucanos e teve no palanque adversário do PMDB o temido ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"O Ricardo venceu. O próprio Eduardo também foi eleito contra o PT [em 2006]. Há vários exemplos de que é possível ganhar sem o governo [federal]. É uma grande ilusão [o apoio petista]. Eles serão eleitos se tiverem uma boa avaliação. Em 2010, qual foi o partido que mais elegeu governadores, oito no total? O PSDB. A oposição, com mais os dois do DEM, venceu dez Estados", afirma.
Siqueira lembra ainda que na eleição municipal de 2012 o PSB ganhou várias disputas com petistas. Apesar disso, o dirigente defende que a sigla trabalhe sua base para enfrentar o PT na eleição presidencial. Os debates nos Estados e municípios servirão ao plano de legitimação da candidatura de Eduardo Campos. Isso fica claro quando Siqueira afirma que, mais do que empolgar, o importante será politizar o processo: "É discutir, colher as opiniões da militância para o programa de governo, explicar o porquê da candidatura própria, dar motivos, criar um processo de politização da escolha, da decisão".
O pessebista nega que o objetivo seja municiar a base do partido com uma vacina contra os possíveis ataques do PT de que o PSB e Eduardo Campos seriam traidores. "É tão ridículo que não precisa nem ter estratégia para isso. Porque não há traição. Cada partido tem seu projeto. É autoexplicável. Mas é até bom que ele comece com isso porque nós teremos muitas coisas a imputar ao PT", ameaça.
Siqueira antecipa que as armas não incluem o realejo da oposição sobre o mensalão. "Esse tipo de baixaria não faz parte da nossa política. Disputamos em várias cidades com o PT e esta palavra jamais foi usada por um candidato nosso. O PT e a UDN fizeram isso. Mas nós não vamos passar esse tipo de coisa, não. A UDN de macacão e a UDN antiga fizeram muito bem isso e quebraram a cara logo ali na frente", critica.
Cristian Klein é repórter de Política. Escreve mensalmente às quintas-feiras
E-mail: cristian.klein@valor.com.br

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