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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Renato Russo vive em Tiago Mendonça


Somos Tão Jovens SOMO TÃO JOVENS, do experiente cineasta Antonio Carlos da Fontoura, é o principal lançamento nacional desta semana: estreou sexta, em praticamente todas as principais praças do Brasil. E, evidentemente, aqui em Salvador, onde está sendo exibido em vários cinemas, sendo que, em alguns shoppings, ocupando duas salas! Coisa rara, em se tratando de um lançamento nacional. Mais raro ainda, em se tratando de Salvador!
Mas é um espaço merecido para esse filme que se propõe a contar a história do ídolo do rock Renato Russo. Ou, pelo menos, parte desta história de 36 anos que Renato viveu. E, acredito, esteja, nessa proposta, nesse recorte da vida do Renato, do fato de ele ter sido, na adolescência, portador da epifisiólise – uma doença óssea -, da saída do ensino médio, passando por sua experiência como professor de Inglês, ao surgimento do Aborto Elétrico (primeira banda do Renato) até a primeira apresentação da Legião Urbana no Rio de Janeiro, no Circo Voador, na década de 80, a acertada e coerente escolha do roteirista Marcos Bernstein (co-autor de CENTRAL DO BRASIL) e do diretor Fontoura. Quem for ao cinema esperando a história do ídolo do rock, que se drogava, que morreu jovem, de AIDS, sairá do cinema deveras decepcionado pois, SOMOS TAO JOVENS, graças a Deus, fugiu deste lugar comum.
Somos Tão Jovens
Somos Tão Jovens
Sempre fui fã do Renato Russo. Suas músicas marcaram muito o inicio dos meus vinte anos, lá na década de 90 e, de uma certa e significativa forma, marcam-me até hoje. Talvez, por isso, eu tenha saído do cinema satisfeito com o que eu assisti durante um pouco mais de uma hora e meia de filme.
Entretanto, nesse texto, eu não falarei especificamente de um filme, como, costumeiramente, faço e, sim, do que eu considero que há de melhor nesta nova obra cinematográfica nacional: a atuação do ator THIAGO MENDONÇA.
Somos Tão Jovens
Somos Tão Jovens
Ao contrário do que muitos podem pensar, Thiago não está estreando no mundo artístico, no cinema, graças ao personagem Renato Russo. Para quem não lembra, ele foi o cantor sertanejo Luciano, em DOIS FILHOS DE FRANCISCO, tem uma carreira relativamente constante no teatro e, na TV, fez o filho de Dalva de Oliveira, na minissérie DALVA E HERIVELTON, sem contar que foi um dos melhores coadjuvantes na novela DUAS CARAS, de Aguinaldo Silva, na Rede Globo, quando interpretou o Bernardinho, um rapaz sensível, dono de um bar-restaurante, que vivia numa família de classe media baixa bem machista, bem radical, que não via com bons olhos o fato de ele ser gay e ainda era explorado, financeiramente, por esta mesma família.
Somos Tão Jovens
Somos Tão Jovens
E foi, exatamente, em DUAS CARAS, que eu não só conheci como passei a admirar o ator Thiago Mendonça. A forma como ele se entregava aquele personagem, a emoção e os dilemas vividos por Bernardinho, principalmente quando ele se vê envolvido num triangulo amoroso composto por ele, sua melhor amiga e o namorado da sua melhor amiga, a consciência de ser explorado pela família, mas, mesmo assim, pondo a família, quase sempre, em primeiro lugar… Foram nuances de um personagem muito desenvolvidas por ele. Não é à toa que, naquele ano, 2007 pra 2008, Thiago ganhou vários prêmios de Melhor Ator Coadjuvante nas premiações de TV.
Acredito que, em DOIS FILHOS DE FRANCISCO, não foi dado a ele um suficiente espaço para que seu personagem – LUCIANO – fosse melhor desenvolvido. Porém, em SOMOS TÃO JOVENS, não há como deixar de afirmar – e reconhecer – que Thiago Mendonça é o que há de melhor no filme.
Somos Tão Jovens
Somos Tão Jovens
Sim, já tivemos atuações que beiravam quase a reencarnação, a exemplo de Cazuza e Gonzaguinha, atuações de Daniel de Oliveira e Julio Andrade, respectivamente, nos filmes CAZUZA – O TEMPO NÃO PÁRA e GONZAGA – DE PAI PRA FILHO. Porém, a atuação de Thiago, como Renato Russo, é de um cuidado, de uma perfeição de gestos, olhares, entonações, raramente vistas no cinema, principalmente, no cinema nacional.
Excelentes interpretações de pessoas que, de fato, existiram, famosas ou não, é algo comum no cinema. Porém, você chegar ao ponto de “visualizar”, na interpretação, a áurea daquele personagem verídico, é algo muito raro de se ver… Recordo-me de Val Kilmer, no flme THE DOORS, de Oliver Stone, no qual ele viveu Jim Morrison, numa estupenda atuação. Lembro que, numa revista de cinema da época, havia, lado a lado, as fotos de Jim Morrison e de Val Kilmer, como Morrison… Era difícil saber qual era a foto do ator e qual era a do líder do THE DOORS.  E, claro, mais recentemente, a “reencarnação” de Lincoln, de Daniel Day-Lewis.
O Renato Russo de Thiago Mendonça é assim: uma interpretação verdadeira, extremamente enérgica e mais extremamente ainda sensível.
Somos Tão Jovens
Somos Tão Jovens
Vale a pena ir ao cinema e conhecer como surgiu o mito Renato Russo? Conhecer suas influencias musicais (a grande maioria, o rock britânico), seus medos, seus desejos e, principalmente, seus desejos por meninas e meninos (mais por meninos, segundo o próprio Renato, no filme)? Vale, sim, e como vale! Vale ficar envolvido com aquele maravilhoso som do final dos anos 70 para inicio dos 80, e ainda ficar por dentro de como surgiram excelentes canções de Renato, como EDUARDO E MÔNICA, FAROESTE CABLOCO e AINDA É CEDO? Sim, continua valendo o ingresso.
Porem, SOMOS TÃO JOVENS vale mesmo porque existe esse menino chamado Thiago Mendonça que, de longe, já pode ser considerado como o melhor ator do ano, no cinema nacional, pois ele nos entrega uma das melhores interpretações já vistas no nosso cinema, não só por ter uma semelhança física com Renato Russo ou por ter usado a própria voz em absolutamente todas as canções do filme mas sim e, principalmente, porque, através da sua atuação, Thiago nos mostra, sem medos, aquele ser que beira o caricato, um ser exagerado, em alguns momentos, que adorava frases de efeitos e que as usava sem o mínimo de pudor…
Graças ao desempenho de Thiago Mendonça, percebemos, com muita facilidade, satisfação e, comedida emoção, quem, de fato, era Renato Russo, um ídolo do rock nacional.
Parabéns ao cinema nacional, pela existência de SOMOS TÃO JOVENS, mais um filme digno, dentro da nossa filmografia. E parabéns a Thiago, por ter conseguido algo quase impossível: nos levar para o que havia de mais intimo na alma daquele roqueiro criativo – compositor de algumas das melhores musicas da MPB -, porem, um homem com uma visível predisposição ao trágico, possuidor, contudo, de uma grande sensibilidade, e de muito amor, sensibilidade e amor perpetuados nas suas inúmeras canções.
Mauricio AmorimMauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colaborador do Cabine Cultural.

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