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domingo, 20 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro nunca vai morrer, mas morreu o dragão

Gil Vicente Tavares*
No final da premiada obra de João Ubaldo Ribeiro, o sargento Getúlio Santos Bezerra, vendo a “força” que vem chegando, como a “morte deslizando pelo rio”, decide, como em todo o romance, encarar o desafio que lhe foi incumbido. Prestes a ser alvejado, num insano tiroteio entre ele e um pelotão, ele diz: “eu vou morrer e nunca vou morrer”. O Teatro NU despede-se de um dos maiores escritores do mundo. No Brasil, diminuímos o valor de nossos grandes homens enquanto exaltamos a decadência de estruturas falidas. Temos o melhor futebol do mundo, levando de 7×1, mas João Ubaldo Ribeiro é somente um dos grandes escritores baianos? Não. Suas obras tornaram-se imortais e talvez cresçam em importância, ainda mais, à medida que o tempo vá passando e esse Brasil real, arcaico, profundo, vá se perdendo entre concretos, decretos e analfabetos. 
João Ubaldo conseguiu marcar sua presença na literatura mundial com uma linguagem própria. Suas obras trazem os sons e expressões do Nordeste, a dicção baiana e sergipana, sem perder a poesia jamais. Essa mistura sensacional do linguajar popular com imagens de alto teor poético e literário trazem uma força à sua obra que é especial em nossa literatura, sendo, mais que um herdeiro de Jorge Amado, um outro olhar, arguto, delicado e intenso, sobre nosso povo e nossa cultura. A obra fala por si, e basta ler seus contos, seus grandes romances, como Viva o povo brasileiro e Sargento Getúlio, suas crônicas, e podemos ver como a Bahia tá viva ainda lá, e como ele conseguiu traduzir essa Bahia e esse povo nordestino com alta literatura. Não à toa, João era um intelectual de primeira e, já na epígrafe de Sargento Getúlio, quando nos diz que aquela é uma história de aretê, vê-se a sólida formação desse que foi mais um dos grandes que se vão. Homenageá-lo em vida, com nossa montagem de Sargento Getúlio, ao menos deu-nos o consolo, ao Teatro NU, de não repetir o erro recorrente desse país que, muitas vezes, deixa morrer à míngua grandes homens, para depois exaltá-los quando mortos. Conseguimos comemorar, nos 5 anos de nosso grupo, também os 70 anos de vida e 40 de publicação da obra, contando com sua ilustre presença na estreia, fato que repetiu-se quando da comemoração de seu aniversário em Itaparica, tempos depois.  
Ao menos, nosso espetáculo está vivo. Será apresentado hoje e amanhã, em Brasília, e continuará rodando o país pelo Palco Giratório (confira, aqui, a programação desse mês), programa de circulação do SESC que nos levará a mais de 40 cidades do país inteiro. Certas pessoas jamais deveriam morrer. Acho que é por isso que uma centelha sagrada, ou profana, faz com que a arte, a literatura, as obras dessas pessoas existam, como ranhuras na pedra, como marcas, sulcos na grande rocha que é nosso planeta. 
João Ubaldo Ribeiro vai estar vivo, como o povo brasileiro que ele homenageou, traduziu e fantasiou em suas obras. Essa terra vai ter sempre sua força na obra desses grandes homens, e esses grandes homens sempre terão sua força por causa dessa terra. Pois “veja que terra essa, com nós aqui plantados no chão, não semos a mesma coisa?” Ficam aqui algumas das últimas palavras de Getúlio, como um epitáfio desse homem que pertence a uma geração que marcou profundamente a cultura brasileira e que, aos poucos, vai saindo de cena, deixando a grande preocupação – jamais desesperança – de quem ocupará o espetáculo vazio:  
Tinha minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morresse alembrem de mim assim:  
Morreu o Dragão. 
Gil Vicente Tavares
Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas e diretor artístico do Teatro NU.

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