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domingo, 12 de outubro de 2014

O ocaso do PT



É triste o que aconteceu com o PT. Eu não sou exatamente um ingênuo. Nunca esperei que aquele velho partido que a maioria de nós, mesmo discordando aqui e ali, aprendeu a respeitar por seu vigor ético e sua coerência conquistasse o governo federal e permanecesse o mesmo. Para o bem e para o mal, assumir o poder num contexto democrático força à negociação e, portanto, à moderação. Quem esperava ver o Lula dos anos 80 assumindo a cadeira presidencial em 2003 não entende nada de política.
Só que, enquanto outros partidos de centro-esquerda deram alguns passos rumo ao centro político para chegar ao comando do governo central de seus países --sim, vivemos numa época conservadora--, o PT foi mais além e simplesmente rasgou toda a sua história. Estou sendo injusto. Seria mais correto afirmar que o grupo majoritário da legenda, isto é a camarilha que cerca o presidente Lula, revogou tudo aquilo que caracterizava o velho PT. Uma minoria de parlamentares e muitos militantes, sobretudo os ligados a tendências de esquerda, ainda insistem em tentar manter pelo menos um núcleo central do antigo ideário.
Não me interpretem mal. Ainda não aderi à luta armada. Algumas traições eram de fato necessárias para poder governar. O PT precisou comer o pão que o diabo amassou em suas primeiras administrações municipais e estaduais para aprender que, numa democracia, é preciso dialogar com outras forças. Se o partido tivesse insistido em sua posição purista de nem sentar-se à mesa com aqueles que julgava não-éticos, Lula provavelmente não teria sido eleito e, se tivesse, não completaria um mês de governo. O fato, contudo, é que precisa haver um limite para a transfiguração de um partido. É preciso que sobrem alguns princípios, ou adentramos num reino que o fim último da ação política se torna chegar ao poder para estar no poder. Eu até entenderia --e entender não é sinônimo de aprovar-- se o PT não poupasse esforços para manter-se à frente do governo como condição necessária para implementar um grande projeto político para o país. O problema é que esse projeto, se um dia existiu, ruiu com o Muro de Berlim. Em seu lugar, ficou apenas o desejo de estar no poder. É nesse contexto que Garotinho afirmou que o PT era o "partido da boquinha". Infelizmente, após a sucessão de suspeitas encimada pelo caso Waldomiro Diniz e completada agora com os Correios e o Instituto de Resseguros parece difícil discordar do ex-governador fluminense.
E não há muita dúvida de que o novo PT passou como um trator sobre tudo aquilo que outrora o definia. Primeiro foi a economia. Aqui, é preciso reconhecer que a situação era de fato difícil. Lula assumiu em meio a uma grave crise da balança de pagamentos _que seu favoritismo e posterior eleição ajudaram a agravar. Embora tivesse um claro mandato popular para alterar o modelo econômico, preferiu perseverar na ortodoxia instalada por seus antecessores. Nessa escolha, sepultou praticamente todas as teses econômicas que o partido até então defendia. Quem não se lembra do candidato Lula fazendo pesadas --e convincentes-- críticas aos juros estratosféricos fixados na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso?
Em outras áreas o PT no governo também foi rápido em renegar seu passado. A bandeira contra os transgênicos, por exemplo, logo foi esquecida em favor dos interesses do superavitário agronegócio. A regulamentação dos jogos de azar, antes sustentada pelo partido, foi rechaçada ao primeiro cheiro de encrenca. Justiça se faça ao ministro da Saúde, Humberto Costa, que não teve receio de procurar avançar na questão do direito ao aborto, princípio sempre defendido pela ala não-religiosa do PT.
O golpe mais certeiro contra a essência do partido, contudo, veio no front ético, que era o que mais fortemente o caracterizava. Os esforços do núcleo duro do governo para barrar a CPI dos Correios demonstram que o PT se tornou exatamente aquilo que criticava nas administrações anteriores: colocou o que se costuma chamar de governabilidade (na verdade, a manutenção de alianças discutíveis) à frente do que antes vendia como princípios inegociáveis.
Esclareço aqui não sou o maior entusiasta das CPIs. Ou melhor, como jornalista, gosto delas, mas é preciso reconhecer que, em termos técnicos, estão longe de constituir-se num bom esquema de investigações. O trabalho de polícia necessário para uma instrução processual é complexo e cheio de minúcias legais. Parlamentares, com raras exceções, não têm formação nem experiência para exercê-lo. Freqüentemente metem os pés pelas mãos e estragam provas, o que pode resultar num processo capenga, dando maiores chances de absolvição a réus. Independentemente da avaliação que possamos fazer das CPIs --e algumas delas são realmente importantes--, o fato é que muito grave para a imagem de um partido que se criou em meio a comissões tentar bloqueá-las.
Na interpretação benigna, o PT, que orgulhosamente se proclamava um partido "diferente", tornou-se "igual". Numa hermenêutica mais maldosa, descobriu o caminho para o butim das compras públicas --e não dá indícios de que esteja disposto a largá-lo.
O mal-estar com o novo PT por enquanto parece mais restrito a intelectuais e aos antigos militantes. Banqueiros e agentes do mercado financeiro continuam, é claro, encantados com o presidente. O que se convencionou chamar de "povão", por ora, não dá mostras de grande desilusão. A situação global da economia apresentou melhora em 2004, e mecanismos como o crédito por desconto em folha de pagamento permitiram a aquisição de bens antes inalcançáveis. Lula permanece assim um forte candidato à sua própria sucessão. Se, porém, surgirem turbulências no horizonte, não será nenhuma surpresa uma forte e rápida reversão da popularidade presidencial, que já começou a ocorrer entre parte dos chamados formadores de opinião.
Numa primeira análise, a lamentável trajetória do PT ilustra o quanto de oportunismo e cálculo político havia por trás tanto das antigas teses defendidas pela cúpula do partido --"bravatas", nas palavras do próprio presidente-- como de sua recente conversão ao mercadismo. Num plano mais profundo, ela também parece significar que, no mundo globalizado, governos nacionais podem menos do que já puderam.
A menos que acreditemos que Lula e seus escudeiros planejaram desde sempre chegar ao poder com o intuito único de fartar-se, hipótese que me parece improvável, é razoável concluir assumiram o comando sem um projeto de nação, isto é, sem ter idéia de aonde queriam chegar nem do caminho a percorrer. Suas prioridades passaram a ser a tal da governabilidade e a reeleição e, para garanti-las, não hesitaram em fazer todo o tipo de aliança que antes catalogavam como espúria. Nesse contexto, os escândalos de corrupção que cercam o partido não despontam como surpreendentes. O inesperado é que a agremiação que se afigurava como a mais articulada e programática do país na verdade não dispusesse de um projeto político. O resto, parece-me, é conseqüência.
O mais grave é que do ocaso do PT à descrença generalizada com a política temos uma linha muito tênue. E, agora que o partido que se forjou em duas décadas de oposição sistemática foi testado e revelou-se igual aos demais, as opções parecem esgotadas. Não será uma surpresa se, no próximo pleito, a população deixar-se seduzir pelo pior aventureirismo populista disponível no mercado.

Hélio Schwartsman, 58 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

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