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quarta-feira, 18 de março de 2015

Tesouro da juventude

Ruy Gardnier*
No começo de Viagem ao Fim do Mundo toca "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso. Como tocam diversas das músicas do primeiro disco solo de Caetano. Mas a música que melhor definiria o que é esse filme de Fernando Coni Campos seria "Baby", presente emTropicália. Ou, ao menos, os versos "Você precisa saber da piscina/da Carolina/da margarina/da gasolina", porque o anseio da obra é semelhante: uma espécie de engajamento no mundo moderno e uma tentativa de explicação dele, de tudo o que há de novo & delirante & excitante no período: a supermodelo de comerciais, os mitos da publicidade, a nova música, sexualidade, literatura, filosofia, cultura pop...
Tudo começa num vôo. O filme tem um protagonista, mas é fragmentado em torno de todas as experiências e da psicologia de cada uma das pessoas que povoam o avião. Assim, um quarentão recalcado como o interpretado por Jofre Soares pode imaginar que consegue agarrar a menina linda que senta a sua frente, que pode desnudar com os olhos as moças e senhoras do vôo... Assim, uma das cenas mais belas do filme e de todo o cinema do período, em que Fabio Porchat, o protagonista, lê Memórias Póstumas de Brás Cubas e se imagina dentro do famoso sonho em que Brás Cubas é guiado por um hipopótamo que o leva ao começo dos tempos. A cena é filmada com uma liberdade própria aos sonhos (e ao relato de sonho narrado com ironia por Machado de Assis), e consegue resultados surpreendentes.
Só que em Viagem ao Fim do Mundo tudo muda: não se trata do começo dos tempos mas de um "resumo dos tempos", ou um resumo da nova época. E, assim como em "Baby", há um sorvete na lanchonete, há aquela canção do Roberto, o inglês e o que eu não sei mais... É impressionante como, a partir dos personagens de um vôo, Coni Campos dá-se a liberdade de sair da imaginação dos personagens para realizar uma espécie de "Tesouro da Juventude" – os livros em forma de "primeiros passos" para os jovens, a figura do "tudo que um adolescente deve saber para tornar-se adulto" –, só que contracultural. Os anseios todos da juventude e dos novos tempos acham lugar. O protagonista consegue arrancar beijos da supermodelo. O filme termina em tom menor, com a chegada do vôo e a ida para casa dos personagens. A modelo, o filme nos permite vê-la até mais tarde, quando volta para o marido e para a infelicidade controlada dos dois. Ou isso é só imaginação do protagonista. Quem sabe?
Sabe-se apenas que Viagem ao Fim do Mundo, realizado em tempos de ebulição cultural, é fiel ao momento em que foi feito, e é uma das obras mais instigantes e inteligentes realizadas no período. E, assim como o disco de Caetano tão tocado no filme, tenta refletir um mundo em que a Lua não é mais aquilo que está no céu, mas uma lua cultural, a "Lua oval da Esso" ("Paisagem Útil"), e a beleza não provém mais da natureza, mas da construção humana. Tentar compreender as construções do homem de seu tempo, esse parece ser o desejo íntimo do filme de Fernando Coni Campos.
*Ruy Gardnier -  jornalista, graduado pela Escola de Comunicação da UFRJ. Fundador da revista eletrônica Contracampo, da qual foi editor até 2008. Ex-professor de linguagem cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, crítico de cinema de O Globo e colaborador da revista Paisà, além de atuar como pesquisador de cinema, cineclubista e curador de mostras de cinema.

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