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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Bomba


Fernanda Torres*
Eu tentei.
Tentei falar de outro assunto que não o assombroso caos político que assola o país. Concluí um texto sobre o documentário de Brett Morgen, "Montage of Heck", a respeito de Kurt Cobain, mas acordei na
 terça-feira com Dilma Rousseff confessando que a crise econômica a pegou desprevenida.
Na época em que fazia parte do conselho da Petrobras, a presidenta também não percebeu os desvios em Pasadena e na refinaria Abreu e Lima, tampouco a gravidade das pedaladas, ou da crise internacional.
Das duas uma, ou Dilma é uma péssima administradora ou mentiu.
Escrevi que era contra o impeachment, menos por concordar com as diretrizes do governo e mais por temer fazer marola. Honrar a decisão das urnas e controlar a economia, através da mão severa de Joaquim Levy, me pareceu a maneira mais prudente de evitar o lamaçal.
A inexistência de uma liderança que aponte para uma saída futura piora o quadro. A tentativa de Aécio de invalidar a eleição soa oportunista, e o novo papel de salvador da pátria de Renan, no mínimo estranho.
Cunha, com a pauta bomba no Congresso e a denúncia de corrupção na Lava Jato, surge como o inimigo comum, contra o qual é preciso lutar.
Talvez o impeachment, ou a renúncia, fosse a salvação do PT. A impugnação da candidatura de Dilma livraria o partido da responsabilidade sobre as medidas restritivas que terão de ser adotadas nos anos vindouros. O suposto golpe o transformaria em vítima e, como o eleitor tem memória curta, abriria espaço para a volta de Lula em 2018.
Por essas e outras, sou favorável à permanência de Dilma no cargo.
Mas nessa semana negra, que começou com a presidenta assumindo o apagão que a acometeu, Temer desistiu do papel de embaixador da crise, Youssef garantiu que novas denúncias envolverão a campanha de 2015 e o abalo da China agravou o buraco em que estamos metidos. Para coroar, Gilmar Mendes fez um pronunciamento duro no TSE, favorável à investigação de supostas fraudes na eleição passada.
Não se trata mais de achar, ou querer o fico, mas de saber se ele é possível.
Eu sempre desconfiei da bonança econômica. Cresci num país falido. Por uma triste deformação histórica, encaro as crises como reais e o progresso como ilusório.
Sou filha da inflação, do cruzeiro, do cruzado, da morte do Tancredo, de Collor e Zélia. Me acostumei a viver assim.
Eu e os que me criaram.
Em 69, numa das tantas assembleias da classe artística para debater o recrudescimento da ditadura militar pós AI-5, a discussão já varava a madrugada, quando um partidário afogueado subiu no palco do Ruth Escobar, com a notícia de que o teatro acabara de receber um telefonema anônimo. Uma bomba estava prestes a explodir o recinto.
A grande atriz Lélia Abramo, militante trotskista e fundadora do movimento de esquerda no Brasil, ergueu a voz e deu o comando: "Companheiros, vamos ficar e morrer unidos!".
Fernando e Fernanda, sentados na plateia, se entreolharam assustados. "Meu bem", disse minha mãe a meu pai, "vamos sair correndo porque nós temos dois filhos para criar em casa".

É como me sinto agora, com o país implodido e dois filhos para criar em casa.

Sobreviveremos.

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