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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Tratado como animais

Talyson Rodrigues*/ Belgrado
O relógio marcava 19h35 quando o engenheiro elétrico sírio Ali Khalifah, 42, e parte da família chegavam ao terminal de ônibus em Belgrado, capital da Sérvia. As centenas de pessoas que chegam a todo momento não estão em férias ou viajando a trabalho, mas sim no meio de uma arriscada travessia rumo à União Europeia, fugindo dos conflitos no Oriente Médio.
A praça ao lado do terminal virou um acampamento improvisado. Poucos contam com barracas de náilon para poder se esconder das tempestades de verão nos Bálcãs.
Uma fonte que decora a praça é usada para o banho e para encher garrafas d'água. Alguns poucos banheiros químicos foram disponibilizados no meio do jardim. As condições são precárias.
Ao todo são dez pessoas no grupo de Khalifah. O sogro, 71, quatro primos e a família do melhor amigo, Khelid, um professor primário que veio com a mulher e duas filhas de 3 e 5 anos, todos saídos de Damasco, na Síria. O desespero por uma cama confortável é nítido. Antes de desembarcar em Belgrado, eles passaram três dias juntos com outros 6 mil refugiados na fronteira entre a Grécia e a Macedônia, que estava bloqueada.
Nesses dias, segundo Khelid, eles foram obrigados a parar, ficando totalmente sem água, comida e acampados sob chuva torrencial. "Tratados como animais" pelas autoridades macedônias –na descrição do sírio–, crianças e adultos choravam muito. Todos estavam sem entender por que não os deixavam seguir em frente.
"Encontramos a fronteira fechada e muitas pessoas apanharam da polícia. Ficamos assustados com o barulho e as bombas de gás lacrimogêneo lançadas sobre nós. Nestes dias eu chorei temendo pelo futuro das minhas filhas", afirma Khelid. No momento em que a fronteira foi reaberta, todos correram mato adentro, com medo de serem barrados novamente.
Andar e correr têm sido rotina a cada país que atravessam. Em grupos, preferem, algumas vezes, caminhos alternativos para escapar das barreiras imigratórias onde oficiais cobram propina em troca de passagem livre.
Isso pode significar horas em estradas, bosques e montanhas perigosas. Tudo a pé, sempre em ritmo acelerado.
Bahjad, 71, sofre de câncer no pâncreas. Ele diz que está indo para a Noruega, onde o filho mora, para conseguir medicamentos que podem custar até US$ 1.000 na Síria, quando encontrados. Segundo ele, o "mundo está dormindo para a situação dos imigrantes".
A parte mais difícil para os sírios, porém, é deixar seu país. De Damasco, são sete paradas até a fronteira com a Turquia, onde oficiais os extorquem. Cruzando a divisa, podem começar a considerar o sonho de se ver livres da guerra. Ao longo do trajeto, ainda há os traficantes que oferecem um lugar em barcos ou carros a preços exorbitantes. Uma viagem de duas horas entre a Turquia e a ilha grega de Lesbos pode custar US$ 1.200 (R$ 4.300) por cabeça.
NÚMEROS DA CRISE
A guerra civil na Síria já se estende por quatro anos. A falta de condições básicas como energia elétrica, hospitais, escolas e, principalmente o temor pela vida e o futuro de seus filhos fazem com que mais e mais pessoas deixem o país a todo momento.
Até o momento, mais de 4 milhões de pessoas já fugiram do terror instalado entre as tropas do ditador Bashar Al-Assad, rebeldes e o Estado Islâmico.
Só neste ano, foram registrados 160 mil refugiados chegando por mar e terra em países como a Turquia e a Grécia. Segundo o Acnur (agência da ONU para refugiados), 300 mil pessoas cruzaram o mar Mediterrâneo desde janeiro de 2015.
O ministro das Polícias da Sérvia, Nebojsa Stefanovic, disse à Folha que, por se tratar de um problema totalmente novo, as autoridades locais estudam a melhor maneira de acolher os refugiados.
"São seis campos em toda a Sérvia, com capacidade para mil pessoas, e pretendemos dobrar o número até o fim do ano. Mas essas pessoas estão de passagem rumo à União Europeia. Fazemos o possível para garantir a saúde e segurança no tempo em que eles estão por aqui."
A ação mais radical foi tomada pela vizinha Hungria. O país está prestes a concluir um muro de arame farpado com 175 km e quatro metros de altura na fronteira com a Sérvia, tentando impedir a passagem dos refugiados.
PEDIDO
O relógio da estação de Belgrado marcava 1h25 quando Khalifah e parte da família ainda estavam ao relento. Não conseguiram nenhum hotel que os aceitasse porque precisam de um papel carimbado pela polícia sérvia que os garante direito de permanecer por 72 horas legalmente no país. Com a alta demanda, a fila de espera gira entre três e quatro horas.
Por sorte, um voluntário ofereceu uma barraca de camping para a família passar a noite antes de seguir para a Hungria. Khalifah quer que as autoridades se sensibilizem. "Não somos animais nem terroristas. Só queremos viver em paz na Europa ou até mesmo voltar um dia à Síria. Olhem por nós."
*Reporter da Folhs de São Paulo

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