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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Dividindo Salvador ao meio


Paulo Ormindo de Azevedo* 
No dia seis do mês passado foi iniciada a construção da linha 2 do metrô Salvador/Lauro de Freitas. Será que o soteropolitano imagina o que será esta obra? Apesar de ser uma corruptela do projeto original do prefeito Hage, que passava por baixo da primeira linha de colinas de Salvador atendendo aos dois níveis da cidade, a maioria dos urbanistas era favorável que se concluísse o projeto iniciado em 2000, ou seja, a linha 1 indo até Aguas Claras e a linha 2 até o Campo Grande onde infletiria, ainda subterrânea, em direção ao norte para chegar ao aeroporto. 
Com a transferência do metrô em 2013 para o Estado ocorreu uma mudança radical O metrô não vai mais passar na área de maior concentração de serviços, população e transito de carros. Com isto vão continuar os engarrafamentos. A solução adotada em Y reduzirá em 30% a eficiência do sistema. Embora a engenharia da linha 2 não tenha sido “publicizada”, sua descrição pelos jornais dá uma ideia de seu funcionamento. Entre o Acesso Norte e a Rodoviária o metrô correrá ao nível do solo e em um elevado de 200 m. A partir dali seguirá pelo canteiro central da Paralela até o Aeroporto e Lauro de Freitas. Como a Paralela tem muito pouca ocupação ele vai funcionar mais como um trem suburbano que metrô e criará uma barreira intransponível ao nível do solo de 19,5 km separando a cidade rica da orla do Atlântico da cidade pobre do Miolo.
Imaginem as enormes filas de carros nas duas mãos da Paralela para transpor a linha férrea em quatro ou cinco viadutos, sem faixa para ciclistas nem passeios. Nem Soweto em Johannesburg foi tão segregada durante o apartheid. A Paralela perderá o jardim de Burle Marx para dar lugar a uma ferrovia murada com nove estações que ocuparão toda a largura do canteiro central. Seus moradores, funcionários e trabalhadores terão ainda que suportar a matraca do trem dia e noite. Seus imóveis serão inevitavelmente desvalorizados.
Mas haveria outra solução? Sim. Ao longo da Paralela o metrô poderia correr num “falso túnel”. Esta solução consiste em bater estacas nos dois lados da via, fundir uma laje a 50 cm abaixo do solo atual, refazer o gramado e escavar o túnel. Solução barata, pois não necessita de desapropriações, tatuzão para furar rochas, nem estancar lençol freático. Não perderíamos o parque longitudinal e os retornos e evitaríamos a poluição sonora e visual do projeto atual. 
Será que a único critério para concessão de obras públicas é o de menor preço e facilidade para a empreiteira, que depois é superfaturado com aditivos e a obra abandonada na metade, como ocorreu na linha 1. Será que a destruição de uma avenida e a divisão de uma cidade ao meio com muros e alambrados não tem um passivo socioeconômico muito maior que um trem suburbano deficitário? 
O Ministério Público Federal pode dar outro rumo a este projeto, pois o processo sobre indícios de fraude na licitação original de 1999 não foi parado (A Tarde 21/02/15). Na composição acionaria do grupo vencedor da atual licitação estão as empreiteiras do imbróglio Consorcio Metrosal, envolvidas também no processo Lava Jato, que serão as executoras da obra. Pau que nasce torto morre torto, diz o proverbio.
SSA: A Tarde de 15/03/15

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