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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Nem tudo que reluz é ouro

O jovem historiador israelense Yuval Noah Harari, 41, tornou-se um olímpico recordista com seus dois best-sellers globais: "Sapiens" (2011) e "Homo Deus" (2016). Pena que nem sempre seja fiel às literaturas científica e historiográfica. Ao menos duas mancadas em sua última proeza evocam o provérbio português do título acima
A primeira está em sua manipulação da ideia de Antropoceno, a nova Época, posterior ao Holoceno, em que as atividades humanas teriam se tornado a mais poderosa influência sobre a ecologia global. Ela agita a comunidade científica desde 2000, quando a revista Nature trouxe o artigo "Geologia da humanidade" do prêmio Nobel de química, Paul Crutzen, que estimulou diversas análises sobre o momento em que teria ocorrido a virada de Épocas.
No âmbito das ciências humanas é praticamente unânime a tese de que o Antropoceno começou em meados do século passado, devido à chamada "Grande Aceleração" das agressões humanas à biosfera. A melhor síntese dessa convergência de ideias está consolidada em livro com esse título dos historiadores americanos J.R. McNeill e Peter Engelke.
Nada disso é informado ao leitor de "Homo Deus", pois sobre esse tema a única referência bibliográfica pinçada por Harari foi o artigo "Definindo o Antropoceno", que o ecólogo Simon L. Lewis e o climatologista Mark A. Maslin, ambos do University College London, publicaram em março de 2015, também na Nature.
É um mérito, pois não há dúvida que, nesse tipo de assunto, merecem mais atenção as discussões entre pesquisadores das ciências naturais, como bem faz Harari. Só que ele contradiz radicalmente sua única fonte, sem qualquer tipo de aviso ao leitor.
Lewis e Maslin sintetizaram o conhecimento acumulado pelas geociências e pela paleontologia, para depois examinar com muito cuidado oito ensaios de datação do início do Antropoceno. E concluíram que o mais razoável é 1964, reforçando o já consensual nas ciências humanas. Como segunda opção, os autores até admitem que o candidato favorito seria 1610, quando colonialismo, comércio global e carvão já poderiam ter engendrado a virada.
Porém, os registros estratigráficos que determinam a Escala do Tempo Geológico ainda são insuficientes para que esse fim do Holoceno possa ser convencionado, conforme avaliou o 35º Congresso Internacional de Geologia, em 4 de setembro de 2016.
Como aceitar, então, que nada disso seja exposto aos leitores com o propósito de seduzi-los para a romântica ideia de que o Antropoceno teria começado há 70 milênios, quando - segundo Harari - o Sapiens já se tornara "governante do mundo"? Alguns lembrarão que até a síntese da amônia, no início do século passado, a espécie humana não fazia sequer cócegas na ecossistêmica global. E que ainda foram necessárias várias décadas para que se chegasse a um ponto de ruptura, devido a exorbitantes usos de fertilizantes e praguicidas, à moto-mecanização, e a concomitantes outras práticas dependentes de crescente emprego de energias fósseis.
A segunda razão para que se tenha muito cuidado na leitura de "Homo Deus" reside em mais de vinte alusões à "teoria da evolução". Não seria razoável que os leitores ficassem sabendo que o materialismo darwiniano abriga várias correntes, em vez de serem intoxicados justamente por uma das piores? Outra vez Harari deixa de citar um colega, pois fica óbvia a influência que sofreu da interpretação do historiador francês André Pichot, rechaçada pelos melhores continuadores do pensamento de Darwin, entre os quais Daniel C. Dennet, Edward O. Wilson, Ernest Mayr, Geoffrey Hodgson, Patrick Tort, Richard Dawkins, Steven Pinker.
O mais calamitoso resultado dessa enrustida preferência por Pichot está no sétimo capítulo, consagrado a uma suposta "revolução humanista". Entre suas "ramificações" estaria um tal "humanismo evolucionário", com "raízes no terreno firme da teoria evolutiva darwiniana" (p. 258). Algumas páginas depois Harari chega a dizer que a Hitler foi revelada "a verdade quanto ao mundo: uma selva conduzida pelas leis desapiedadas da seleção natural" (p. 261). Aí nem se trata mais de opção por alguma das interpretações do pensamento de Darwin, pois é impossível que sobre ele se diga algo mais simplista e vulgar.
Claro, só lunáticos subestimariam a importância da divulgação científica, que depende muito de comunicadores no calibre de Harari. Seu invejável talento consiste na tradução para o grande público de conhecimentos que a sobriedade, a reserva e a frieza dos pesquisadores quase sempre torna herméticos.
Há, contudo, um grave perigo nesse fenômeno: vender gato por lebre devido a excesso de confiança nas vantagens da liberdade poética. Demasiada infidelidade ao conhecimento científico pode fazer com que o tiro saia pela culatra.
Não se trata, pois, de desaconselhar um livro que não se resume aos dois defeitos aqui realçados, mas apenas de recomendar que o leitor não se deixe ofuscar pela imensa criatividade inventiva do autor.
José Eli da Veiga tornou-se professor sênior do IEE/USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo) após trinta anos de docência no Departamento de Economia da FEA/USP (1983-2012). Mantém dois sites: www.zeeli.pro.br ewww.sustentaculos.pro.br

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