
Donald Trump tem demonstrado que sua política externa não se limita à cooperação entre aliados. Sua disposição de utilizar tarifas comerciais, sanções e pressões diplomáticas revela uma concepção de poder na qual os interesses americanos devem prevalecer, mesmo quando isso significa confrontar outros países.
Suas declarações sobre a possibilidade de incorporar a Groenlândia aos Estados Unidos, transformar o Canadá no 51º estado americano e exercer controle sobre a Venezuela, inclusive por meio de uma intervenção que afete sua soberania, ilustram uma visão expansionista que merece atenção. Embora essas situações sejam distintas e nem todas tenham se traduzido em projetos concretos de anexação, elas revelam a disposição de Trump de questionar limites territoriais e políticos quando considera que os interesses americanos estão em jogo.
Se essa postura é preocupante para países próximos dos Estados Unidos, também deveria servir de alerta para o Brasil.
O que poderá acontecer quando a afinidade ideológica entre dois governos se transformar em dependência política?
Flávio Bolsonaro construiu parte de sua trajetória política em sintonia com o movimento de Trump. Essa proximidade pode facilitar o diálogo entre Brasília e Washington, mas também suscita dúvidas sobre os limites dessa relação. Uma coisa é estabelecer parcerias comerciais, tecnológicas e de segurança; outra, bem diferente, é aceitar pressões externas para preservar o apoio político de um presidente estrangeiro.
Trump dispõe de instrumentos poderosos para influenciar as decisões brasileiras. Pode utilizar tarifas comerciais, restringir o acesso ao mercado americano, pressionar por acordos favoráveis às empresas dos Estados Unidos e exigir maior alinhamento em questões estratégicas. A rivalidade com a China, principal parceiro comercial do Brasil, também poderá colocar Brasília diante de escolhas difíceis.
O Brasil possui recursos naturais estratégicos, terras raras, capacidade agrícola, potencial energético e uma economia relevante. Esses ativos deveriam fortalecer sua capacidade de negociação, e não se transformar em moeda de troca para garantir a simpatia de Washington.
Há ainda a questão da segurança. A aproximação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado pode trazer benefícios concretos, mas não deve servir de justificativa para transferir a uma potência estrangeira o poder de determinar as prioridades brasileiras ou impor decisões que comprometam a autonomia das instituições nacionais.
A experiência recente demonstra que Trump está disposto a utilizar instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar governos com os quais diverge. Não há, portanto, motivo para supor que uma eventual amizade com Flávio Bolsonaro garantiria ao Brasil um tratamento privilegiado. Na política internacional, os interesses estratégicos costumam prevalecer sobre as afinidades pessoais.
Trump defenderá os interesses dos Estados Unidos. A questão é saber se Flávio Bolsonaro defenderá, acima de tudo, os interesses do Brasil.
A soberania não significa hostilidade aos americanos, tampouco exige afastamento de Washington. Significa negociar em condições que preservem a independência nacional, diversificar parcerias e ter liberdade para dizer não quando as exigências de uma potência contrariem os interesses brasileiros.
O risco de subserviência surge quando um governo aceita concessões prejudiciais ao próprio país para satisfazer um aliado ideológico. Não basta, portanto, avaliar a proximidade entre os dois líderes pelos encontros, pelas fotografias ou pelos elogios mútuos. É preciso examinar os acordos, suas contrapartidas e seus efeitos sobre a economia e a autonomia brasileiras.
Se Trump reivindica para os Estados Unidos o direito de ampliar sua influência sobre territórios e países, o Brasil precisa ter ainda mais clareza sobre o valor de sua própria soberania.
Afinal, um presidente brasileiro não é eleito para servir aos interesses de Washington, mas para representar o povo brasileiro. A verdadeira prova de independência de Flávio Bolsonaro, caso chegue à Presidência, não será sua capacidade de conquistar a amizade de Trump, mas sua disposição de contrariá-lo quando os interesses dos dois países entrarem em conflito.
Porque a soberania de uma nação não se mede pela proximidade de seu governante com os poderosos do mundo, mas pela capacidade de negociar com eles sem entregar o próprio destino.
* Osvaldo Campos Magalhães é Mestre em Administração. Trabalhou na Codeba, Governo da Z Bahia e FIESP
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