Observatório do Cotidiano

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

O preço da glória: quando o tênis cobra mais do que o corpo pode pagar

Bia Haddad e João Fonseca expõem uma questão incômoda no esporte brasileiro: até que ponto a busca por resultados pode comprometer a saúde mental de nossos maiores talentos?

Osvaldo Campos Magalhães em coautoria com Claude AÍ*

João Fonseca e Bia Haddad caem no ranking mundial da ATP e da WTA

Por trás das raquetes, dos rankings e das manchetes, existem dois atletas que nos convidam a olhar para além das quadras.

O esporte brasileiro tem uma característica curiosa: transforma rapidamente seus talentos em heróis, mas nem sempre demonstra a mesma compreensão quando esses heróis deixam de vencer. Foi assim com Bia Haddad e é preciso evitar que o mesmo roteiro se repita com João Fonseca. Suas trajetórias são diferentes, mas ambas levantam uma questão que o tênis profissional já não pode ignorar: qual é o preço psicológico de viver permanentemente sob a obrigação de vencer?

Bia chegou ao seleto grupo das dez melhores tenistas do mundo. João surgiu como uma das maiores promessas do tênis brasileiro, cercado por expectativas de uma carreira extraordinária. Ela conheceu o peso de permanecer na elite; ele experimenta as dificuldades de transformar talento e potencial em resultados consistentes. Em momentos distintos, os dois enfrentaram circunstâncias que nos obrigam a refletir sobre a relação entre desempenho esportivo, pressão externa e saúde mental.

Bia Haddad: quando a mente pede uma pausa

A decisão de Bia Haddad de interromper sua carreira temporariamente para cuidar da saúde mental deveria provocar uma reflexão profunda no esporte brasileiro.

Estamos acostumados a admirar atletas que suportam dores, superam adversidades e continuam competindo mesmo diante das dificuldades. Transformamos a resistência em virtude absoluta, como se parar fosse uma demonstração de fraqueza. Mas existe uma diferença entre perseverança e autodestruição.

Bia chegou ao topo, enfrentou as exigências do circuito internacional e conheceu o peso de defender sua posição no ranking. O tênis profissional não permite descanso psicológico prolongado: cada torneio representa uma nova oportunidade, mas também uma nova cobrança. O sucesso de ontem rapidamente se transforma na obrigação de vencer amanhã.

Quando os resultados deixam de aparecer, a pressão aumenta. As derrotas passam a ser examinadas, o ranking vira uma espécie de termômetro do valor do atleta e o público começa a perguntar o que aconteceu com aquela jogadora que encantava o país.

Em 2026, depois de um período difícil, Bia decidiu fazer uma pausa de seis meses, com previsão de retorno em 2027. Sua decisão não deve ser interpretada simplesmente como consequência de uma queda de rendimento. Ela também representa o reconhecimento de que a continuidade de uma carreira depende de condições que vão muito além do preparo físico e da técnica.

É preciso ter coragem para admitir que algo não vai bem em um ambiente que recompensa a resistência e cobra resultados continuamente.

Talvez a maior vitória de Bia, neste momento, não seja conquistar novamente uma posição entre as dez melhores do mundo, mas recuperar as condições pessoais para voltar a jogar sem que o tênis se transforme em uma fonte permanente de sofrimento.

João Fonseca: o peso de ser uma promessa nacional

Com João Fonseca, a reflexão assume outra dimensão.

Aos 20 anos, ele carrega uma expectativa gigantesca. Seu talento alimentou a esperança de que o Brasil voltasse a ter um protagonista entre os grandes nomes do tênis mundial. Cada vitória ampliou essa expectativa; cada dificuldade passou a ser observada com atenção desproporcional.

É compreensível que o público se entusiasme com um jovem tão talentoso. O problema começa quando a admiração se transforma em cobrança e o potencial passa a ser tratado como uma obrigação de produzir resultados imediatos.

Em 2026, lesões e frustrações comprometeram parte da temporada de João. Depois de ficar fora do US Open, ele também desistiu da gira asiática, incluindo os torneios de Tóquio e Xangai. Ao explicar sua decisão, reconheceu que o ano vinha sendo desafiador e que precisava respeitar os sinais do corpo e da mente.

A desistência também teve consequências esportivas: sem disputar esses torneios, João perdeu oportunidades de somar pontos importantes na corrida da temporada e viu diminuir suas possibilidades de alcançar o ATP Finals.

Mas será que valeria a pena insistir, mesmo sem estar plenamente recuperado, apenas para atender às expectativas do público?

A pergunta é pertinente porque o tênis é um esporte de resistência física e emocional. O atleta precisa lidar com a derrota, administrar a ansiedade, conviver com a incerteza e voltar à quadra depois de um resultado negativo. Quando uma lesão interrompe esse processo, acrescenta-se outra dificuldade: a sensação de estar perdendo um tempo precioso de evolução.

Não há elementos suficientes para afirmar que João esteja sofrendo de depressão ou de esgotamento psicológico. Seria irresponsável transformar sua decisão em um diagnóstico. Entretanto, suas declarações sobre a necessidade de cuidar também da mente merecem ser levadas a sério.

João não precisa provar aos 20 anos que pode vencer todos os desafios. Precisa construir uma carreira que lhe permita continuar competindo aos 25, aos 30 e além.

O tênis não perdoa, mas o atleta não é uma máquina

Há uma particularidade no tênis que torna a pressão psicológica especialmente intensa: o jogador está sozinho na quadra.

Não existe um companheiro para dividir a responsabilidade de uma dupla ou uma equipe para corrigir imediatamente os erros. Durante uma partida, o tenista precisa administrar suas emoções, encontrar soluções táticas e enfrentar o adversário enquanto tenta controlar os próprios pensamentos.

Fora da quadra, a exigência continua. Há viagens constantes, mudanças de fuso horário, treinamentos, compromissos comerciais e a necessidade de planejar o calendário para defender os pontos conquistados na temporada anterior.

A isso se soma a exposição pública. O atleta deixa de ser avaliado apenas pelo que faz em quadra e passa a conviver com opiniões sobre sua capacidade, seu futuro e até sua disposição para competir.

Quando vence, é tratado como fenômeno. Quando perde, surgem dúvidas sobre seu potencial. Quando decide parar, corre o risco de ser considerado frágil.

Essa lógica é cruel porque ignora um fato elementar: atletas de alto rendimento continuam sendo seres humanos, sujeitos à frustração, à ansiedade e ao sofrimento psicológico.

Também precisamos evitar um erro frequente: interpretar toda queda de rendimento como consequência de problemas mentais. Lesões, questões técnicas, mudanças de adversários e oscilações naturais de desempenho também fazem parte do esporte. No caso de Bia e João, o que se pode discutir com segurança são as dificuldades que eles próprios tornaram públicas, sem presumir diagnósticos clínicos.

O importante é compreender que saúde física e saúde mental não são dimensões separadas. Ambas influenciam a capacidade de treinar, competir e sustentar uma carreira.

O Brasil precisa aprender a respeitar o tempo de seus atletas

A comparação entre Bia Haddad e João Fonseca revela duas etapas diferentes de uma mesma realidade.

Bia já experimentou o topo e agora procura condições para reconstruir sua relação com a carreira. João ainda está desenvolvendo seu potencial e precisa encontrar um caminho que lhe permita evoluir sem transformar cada torneio em uma prova definitiva de seu valor.

Não são histórias iguais, nem seria justo tratá-las como manifestações de uma mesma condição psicológica. Mas ambas mostram como o esporte de alto rendimento exige uma estrutura de apoio que vá além do treinador, do preparador físico e do planejamento tático.

O acompanhamento psicológico, a gestão responsável do calendário e a liberdade para reconhecer limites precisam fazer parte da preparação dos atletas, não apenas surgir como respostas emergenciais quando a situação se torna insustentável.

A imprensa e o público também têm responsabilidade. Podemos cobrar resultados sem desumanizar quem perde. Podemos reconhecer o talento de João sem exigir que ele confirme todas as expectativas imediatamente. Podemos torcer pela recuperação de Bia sem estabelecer uma data para que ela volte a ser a jogadora que já foi.

A carreira de um atleta não é uma linha reta. Há períodos de ascensão, momentos de estabilidade, quedas e recomeços. O que parece uma interrupção hoje pode representar uma oportunidade de reconstrução amanhã.

A verdadeira vitória está além do ranking

Talvez seja hora de rever a maneira como medimos o sucesso no esporte.

O ranking é importante. Os títulos são importantes. O reconhecimento internacional tem valor. Mas nenhum desses indicadores, isoladamente, consegue dizer se um atleta está bem ou se sua carreira está sendo construída de maneira sustentável.

Bia Haddad não precisa justificar sua pausa com a promessa de voltar ao topo. João Fonseca não precisa sacrificar sua recuperação para preservar as expectativas criadas em torno de seu talento.

O esporte brasileiro deve aprender a admirar não apenas quem vence, mas também quem reconhece a necessidade de parar, procurar ajuda e recomeçar.

Afinal, não faz sentido celebrar a resistência de nossos atletas enquanto ignoramos o preço que eles pagam para continuar resistindo.

O maior triunfo não é permanecer indefinidamente no topo. É conseguir construir uma trajetória na qual o desejo de vencer não custe a própria saúde.

Bia e João ainda têm histórias a escrever no tênis. O mínimo que podemos oferecer a ambos é o direito de escrevê-las no próprio tempo, sem transformar a pressão por resultados em mais um adversário a enfrentar.

*Osvaldo Campos Magalhães é editor e criador do Blog “Observatório do  Cotidiano” 
** Claude AI foi criado pela empresa americana Anthropic, fundada em 2021 por ex-integrantes da OpenAI.  
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Trump, Flávio Bolsonaro e o risco de submissão do Brasil

Trump posa ao lado dos líderes da extrema-direita latino americana em evento denominado Escudo das Américas. Foto: Divulgação Casa Branca
Artigo escrito por Osvaldo Campos Magalhães em co-autoria do ChatGPT*
A aproximação entre o bolsonarismo e o trumpismo levanta uma questão fundamental: até que ponto um eventual governo de Flávio Bolsonaro estaria disposto a subordinar os interesses brasileiros aos interesses dos Estados Unidos? Mais do que uma afinidade ideológica entre a extrema direita dos dois países, o que está em jogo é a soberania nacional.

Donald Trump tem demonstrado que sua política externa não se limita à cooperação entre aliados. Sua disposição de utilizar tarifas comerciais, sanções e pressões diplomáticas revela uma concepção de poder na qual os interesses americanos devem prevalecer, mesmo quando isso significa confrontar outros países.

Suas declarações sobre a possibilidade de incorporar a Groenlândia aos Estados Unidos, transformar o Canadá no 51º estado americano e exercer controle sobre a Venezuela, inclusive por meio de uma intervenção que afete sua soberania, ilustram uma visão expansionista que merece atenção. Embora essas situações sejam distintas e nem todas tenham se traduzido em projetos concretos de anexação, elas revelam a disposição de Trump de questionar limites territoriais e políticos quando considera que os interesses americanos estão em jogo.

Se essa postura é preocupante para países próximos dos Estados Unidos, também deveria servir de alerta para o Brasil.

O que poderá acontecer quando a afinidade ideológica entre dois governos se transformar em dependência política?

Flávio Bolsonaro construiu parte de sua trajetória política em sintonia com o movimento de Trump. Essa proximidade pode facilitar o diálogo entre Brasília e Washington, mas também suscita dúvidas sobre os limites dessa relação. Uma coisa é estabelecer parcerias comerciais, tecnológicas e de segurança; outra, bem diferente, é aceitar pressões externas para preservar o apoio político de um presidente estrangeiro.

Trump dispõe de instrumentos poderosos para influenciar as decisões brasileiras. Pode utilizar tarifas comerciais, restringir o acesso ao mercado americano, pressionar por acordos favoráveis às empresas dos Estados Unidos e exigir maior alinhamento em questões estratégicas. A rivalidade com a China, principal parceiro comercial do Brasil, também poderá colocar Brasília diante de escolhas difíceis.

O Brasil possui recursos naturais estratégicos, terras raras, capacidade agrícola, potencial energético e uma economia relevante. Esses ativos deveriam fortalecer sua capacidade de negociação, e não se transformar em moeda de troca para garantir a simpatia de Washington.

Há ainda a questão da segurança. A aproximação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado pode trazer benefícios concretos, mas não deve servir de justificativa para transferir a uma potência estrangeira o poder de determinar as prioridades brasileiras ou impor decisões que comprometam a autonomia das instituições nacionais.

A experiência recente demonstra que Trump está disposto a utilizar instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar governos com os quais diverge. Não há, portanto, motivo para supor que uma eventual amizade com Flávio Bolsonaro garantiria ao Brasil um tratamento privilegiado. Na política internacional, os interesses estratégicos costumam prevalecer sobre as afinidades pessoais.

Trump defenderá os interesses dos Estados Unidos. A questão é saber se Flávio Bolsonaro defenderá, acima de tudo, os interesses do Brasil.

A soberania não significa hostilidade aos americanos, tampouco exige afastamento de Washington. Significa negociar em condições que preservem a independência nacional, diversificar parcerias e ter liberdade para dizer não quando as exigências de uma potência contrariem os interesses brasileiros.

O risco de subserviência surge quando um governo aceita concessões prejudiciais ao próprio país para satisfazer um aliado ideológico. Não basta, portanto, avaliar a proximidade entre os dois líderes pelos encontros, pelas fotografias ou pelos elogios mútuos. É preciso examinar os acordos, suas contrapartidas e seus efeitos sobre a economia e a autonomia brasileiras.

Se Trump reivindica para os Estados Unidos o direito de ampliar sua influência sobre territórios e países, o Brasil precisa ter ainda mais clareza sobre o valor de sua própria soberania.

Afinal, um presidente brasileiro não é eleito para servir aos interesses de Washington, mas para representar o povo brasileiro. A verdadeira prova de independência de Flávio Bolsonaro, caso chegue à Presidência, não será sua capacidade de conquistar a amizade de Trump, mas sua disposição de contrariá-lo quando os interesses dos dois países entrarem em conflito.

Porque a soberania de uma nação não se mede pela proximidade de seu governante com os poderosos do mundo, mas pela capacidade de negociar com eles sem entregar o próprio destino.

* Osvaldo Campos Magalhães é Mestre em Administração. Trabalhou na Codeba, Governo da Z Bahia e FIESP


domingo, 2 de novembro de 2025

Pau Brasil, ainda em perigo.


O pau-brasil (
Paubrasilia echinata) é uma árvore da família Fabaceae nativa e endêmica da Mata Atlântica e ocorre de forma nativa apenas nos Estados de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Popularmente a espécie é chamada de arabutã, ibirapiranga, ibirapitá, ibirapitanga, orabutã, pau-de-tinta, pau-pernambuco e pau-rosado.

Pode atingir entre 15 e 20 metros de altura, apresenta acúleos que recobrem seu tronco, que internamente apresenta cor avermelhada. O nome Brasil, vem de pau-de-brasa, forma como os portugueses chamavam a árvore graças à cor da parte interna do tronco.As folhas do pau-brasil são bipinadas e as inflorescências são terminais, agrupando de 15 a 40 flores de pétalas amarelas. A pétala central é modificada e exibe uma mancha de cor vermelha.



Devido à exploração predatória, ocorrida com a chegada dos colonizadores, a espécie quase foi levada à extinção.

Originalmente o pau-brasil era utilizado pelas comunidades indígenas brasileiras para a confecção de arcos e flechas e para pintar enfeites com o corante vermelho extraído de sua polpa.

Logo após a chegada dos portugueses, foi iniciado o chamado “ciclo econômico do pau-brasil" em 1503, sendo esta árvore o único recurso explorado pelos 30 anos seguintes. A extração da madeira para venda no mercado europeu, visava a fabricação de móveis e instrumentos musicais, e a produção de corante vermelho para tingimento de tecidos.


Regimentos e tentativas de manutenção e exploração sustentável não foram suficientes para tirar a espécie do risco de extinção: atividades econômicas como o cultivo da cana-de-açúcar e do café, aliados ao crescimento populacional e ao desmatamento da faixa litorânea, restringiram drasticamente seu habitat natural.


Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, o pau-brasil se encontra na categoria "em perigo", considerada como estando a sofrer um risco muito elevado de extinção na natureza.


A palavra brasileiro em tempos coloniais significava tirador de pau-brasil, um adjetivo para designar profissão e não origem. Os brasileiros eram originalmente criminosos banidos de Portugal. Posteriormente a palavra brasileiro passou a designar as pessoas nascidas no Brasil - o único país do mundo com nome de árvore.

Celebrado em 3 de maio, o Dia do pau-brasil foi criado em dezembro de 1978 com a Lei 6.607, que também definiu a espécie como árvore nacional.

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