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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Nosso amor neandertal

Cientistas alemães anunciaram evidências genéticas de que os seres humanos se reproduziram num passado remoto com seus primos hoje extintos, os neandertais.
De acordo com a pesquisa liderada pelo sueco Svante Pääbo (diz-se Pébo), cruzamentos entre as duas espécies foram frequentes entre 80 e 50 mil anos atrás, antes de os neandertais serem extintos, há cerca de 25 mil.
A descoberta lança luz sobre o passado ainda obscuro da espécie humana. Nossa origem mais antiga parece ser a África equatorial, há mais de 3 milhões de anos. Ali, uma combinação progressiva de postura ereta, mãos aptas ao movimento de pinça e consciência cooperativa permitiu que um ramo de primatas descesse das árvores para tentar a vida na savana, onde se tornaram eficientes caçadores de proteína animal.
Os instrumentos de pedra e a domesticação do fogo multiplicaram sua eficácia. Não foram invenções repentinas, mas conquistas progressivas, incrementais. Assim, em sucessivas levas, hominídeos africanos deixaram o continente e se espalharam pela Eurásia.
Nossa própria espécie, o Homo sapiens, teria sido a última dessas levas, destinada a prevalecer sobre as demais e abarcar o planeta. Uma das evidências apontadas pelos pesquisadores é que somente os humanos modernos nascidos na África não apresentam traço neandertal em sua herança genética.
Por tudo o que sabemos sobre nossa belicosa espécie, é de supor que os contatos entre o homem moderno e o de Neandertal (nome do vale alemão onde se acharam seus primeiros fósseis) não tenham sido amistosos. Como costuma acontecer, quem detinha tecnologia mais desenvolvida esmagou o outro.
Não deixa de ser consoladora a revelação de que eles não fizeram, como disse o repórter Reinaldo José Lopes nesta Folha, só a guerra, mas também amor.
Mais reconfortante ainda é que a descoberta acrescenta novo indício, aos muitos que a genética e a paleontologia já reuniram, de que os humanos são resultado de um sem-número de cruzamentos. Diferenças raciais marcam apenas uma distinção de superfície; sob as aparências, somos todos humanos, beneficiários da enorme piscina genética formada por centenas ou milhares de tipos de ancestral.
Editorial do jornal Folha de São Paulo - 10/05/2010

Neandertais podem ter sidos bem diferentes do que se imaginava
Agência FAPESP 
Neandertais podem ser sidos bem diferentes do que se imaginavapelo menos na aparência. A afirmação é de um novo estudo que analisou fósseis dos parentes dos humanos modernos, que viveram na Europa e na Ásia Central entre cerca de 230 mil a 30 mil anos atrás.
De acordo com a pesquisa, feita por um grupo internacional e publicada na edição de 26 de outubro da revista Science, pelos menos parte dos neandertais teria tido pele clara e cabelos avermelhados.
O que se sabe a respeito da aparência dos neandertais deriva da análise de fósseis. Mas, como cabelo e pele não foram preservados, tal aparência sempre foi motivo de curiosidade e de suposição por parte dos paleontólogos.
No novo trabalho, o grupo, coordenado por Carles Lalueza-Fox, da Universidade de Barcelona, analisou amostras de DNA de dois espécimes descobertos na Europa – um, de cerca de 43 mil anos, na Espanha; e outro, de 50 mil anos, na Itália. Os pesquisadores centraram a análise especificamente no gene MC1R, que atua no direcionamento das células para a produção de melanina.
No homem moderno, particularmente com origem européia, variações nesse gene são responsáveis pela manifestação de cabelos ruivos e de pele clara. Os cientistas identificaram uma forma até então desconhecida do gene nos dois fósseis. Em seguida, inseriram o gene em células que cresciam in vitro para verificar como elas afetariam a produção de melanina.
O resultado sugere que a variante do gene no neandertal teria tido o mesmo efeito na produção de melanina que os genes semelhantes encontrados atualmente.
O estudo é a primeira demonstração de que os neandertais – ou pelo menos parte da espécie – teriam sido ruivos e de pele clara. A suspeita era antiga, uma vez que a pele clara facilitaria a produção de vitamina D, o que representaria uma vantagem para a espécie que habitou a Europa em comparação com a “mais ensolarada” África.
O artigo A melanocortin 1 receptor allele suggests varying pigmentation among neanderthals, de Carles Lalueza-Fox e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.
Crédito da imagem: Science

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