Cientistas alemães anunciaram evidências genéticas de que os seres humanos se reproduziram num passado remoto com seus primos hoje extintos, os neandertais.
De acordo com a pesquisa liderada pelo sueco Svante Pääbo (diz-se Pébo), cruzamentos entre as duas espécies foram frequentes entre 80 e 50 mil anos atrás, antes de os neandertais serem extintos, há cerca de 25 mil.
A descoberta lança luz sobre o passado ainda obscuro da espécie humana. Nossa origem mais antiga parece ser a África equatorial, há mais de 3 milhões de anos. Ali, uma combinação progressiva de postura ereta, mãos aptas ao movimento de pinça e consciência cooperativa permitiu que um ramo de primatas descesse das árvores para tentar a vida na savana, onde se tornaram eficientes caçadores de proteína animal.
Os instrumentos de pedra e a domesticação do fogo multiplicaram sua eficácia. Não foram invenções repentinas, mas conquistas progressivas, incrementais. Assim, em sucessivas levas, hominídeos africanos deixaram o continente e se espalharam pela Eurásia.
Nossa própria espécie, o Homo sapiens, teria sido a última dessas levas, destinada a prevalecer sobre as demais e abarcar o planeta. Uma das evidências apontadas pelos pesquisadores é que somente os humanos modernos nascidos na África não apresentam traço neandertal em sua herança genética.
Por tudo o que sabemos sobre nossa belicosa espécie, é de supor que os contatos entre o homem moderno e o de Neandertal (nome do vale alemão onde se acharam seus primeiros fósseis) não tenham sido amistosos. Como costuma acontecer, quem detinha tecnologia mais desenvolvida esmagou o outro.
Não deixa de ser consoladora a revelação de que eles não fizeram, como disse o repórter Reinaldo José Lopes nesta Folha, só a guerra, mas também amor.
Mais reconfortante ainda é que a descoberta acrescenta novo indício, aos muitos que a genética e a paleontologia já reuniram, de que os humanos são resultado de um sem-número de cruzamentos. Diferenças raciais marcam apenas uma distinção de superfície; sob as aparências, somos todos humanos, beneficiários da enorme piscina genética formada por centenas ou milhares de tipos de ancestral.
Editorial do jornal Folha de São Paulo - 10/05/2010
Neandertais podem ter sidos bem diferentes do que se imaginava
Neandertais podem ser sidos bem diferentes do que se imaginavapelo menos na aparência. A afirmação é de um novo estudo que analisou fósseis dos parentes dos humanos modernos, que viveram na Europa e na Ásia Central entre cerca de 230 mil a 30 mil anos atrás.
De acordo com a pesquisa, feita por um grupo internacional e publicada na edição de 26 de outubro da revista Science, pelos menos parte dos neandertais teria tido pele clara e cabelos avermelhados.
O que se sabe a respeito da aparência dos neandertais deriva da análise de fósseis. Mas, como cabelo e pele não foram preservados, tal aparência sempre foi motivo de curiosidade e de suposição por parte dos paleontólogos.
No novo trabalho, o grupo, coordenado por Carles Lalueza-Fox, da Universidade de Barcelona, analisou amostras de DNA de dois espécimes descobertos na Europa – um, de cerca de 43 mil anos, na Espanha; e outro, de 50 mil anos, na Itália. Os pesquisadores centraram a análise especificamente no gene MC1R, que atua no direcionamento das células para a produção de melanina.
No homem moderno, particularmente com origem européia, variações nesse gene são responsáveis pela manifestação de cabelos ruivos e de pele clara. Os cientistas identificaram uma forma até então desconhecida do gene nos dois fósseis. Em seguida, inseriram o gene em células que cresciam in vitro para verificar como elas afetariam a produção de melanina.
O resultado sugere que a variante do gene no neandertal teria tido o mesmo efeito na produção de melanina que os genes semelhantes encontrados atualmente.
O estudo é a primeira demonstração de que os neandertais – ou pelo menos parte da espécie – teriam sido ruivos e de pele clara. A suspeita era antiga, uma vez que a pele clara facilitaria a produção de vitamina D, o que representaria uma vantagem para a espécie que habitou a Europa em comparação com a “mais ensolarada” África.
O artigo A melanocortin 1 receptor allele suggests varying pigmentation among neanderthals, de Carles Lalueza-Fox e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.
Crédito da imagem: Science



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