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sábado, 31 de julho de 2010

Às vésperas da eleição, Maquiavel é guia perfeito para interpretar os poderosos

Fernando Rodrigues*
É irresistível ler (ou reler) "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel (1469-1527), e não relacionar fatos do cotidiano da política com a obra iniciada pelo florentino em 1513. A influência renascentista e as guerras entre Estados de uma Europa em formação são o pano de fundo desse guia das relações entre poderosos e governados.
Astúcia, ambição, crueldade e virtude são analisadas sob o prisma de quem está e deseja ficar no comando. Tome-se o caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista conduz muitas de suas ações conforme recomendaria o escritor. Não há em "O Príncipe" nada similar ao Bolsa Família. Mas o maior programa social de Lula certamente se encaixa na categoria clássica de benemerências recomendadas por Maquiavel: "Os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam mais bem saboreados". O Bolsa Família é assim: atinge todos os meses a 12,5 milhões de pessoas.
Houve também um certo lulo-maquiavelismo no início do governo petista (2003). Manteve-se a taxa de juros nas alturas. Deu-se preferência à estabilidade da economia em detrimento do crescimento do país. Como está recomendado em "O Príncipe", o mal foi feito de uma vez: "A crueldade bem empregada -se é lícito falar bem do mal- é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança".
O livro acaba de ser relançado pela Cia. das Letras. Chega com tradução atualizada assinada por Maurício Santana Dias. O prefácio é de Fernando Henrique Cardoso.
Ética
Há também a introdução de Anthony Grafton, professor de história europeia, fartas notas de rodapé, cronologia e um glossário. FHC retoma no livro um de seus debates prediletos: a diferença entre a ética da responsabilidade (do político) e a ética do cidadão comum. O governante não pode "cingir-se a respeitar valores absolutos", escreve ele.
Por essa lógica, um político fracassará se assumir o Planalto recusando-se a conversar com a escória que muitas vezes transborda do Congresso. FHC e Lula aprenderam a enfrentar essa vicissitude da política. É uma boa coincidência o relançamento de "O Príncipe" agora, a pouco mais de dois meses para a eleição.
Útil para políticos, a obra de Maquiavel também serve à perfeição como guia para eleitores interessados em interpretar o comportamento dos poderosos.
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O PRÍNCIPE
Autor: Nicolau Maquiavel
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 19,50 (176 págs.)
Avaliação: Ótimo
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* Articulista da Folha de São Paulo

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