Pouco mais de dois anos após o estouro da crise econômica mundial, em setembro de 2008, o maior colapso financeiro desde a crise de 1929, estreia nas salas de cinema do País o documentário "Inside Job" (Trabalho Interno). O filme é um dos indicados ao Oscar 2011.
O longa é dirigido por Charles Ferguson e retrata os lados obscuros de Wall Street. Narrado pelo ator Matt Damon, revela verdades incômodas da crise que teve início com a quebra do banco americano Lehman Brothers.
Com base em uma extensa pesquisa e séries de entrevistas com políticos, economistas, jornalistas e personalidades do setor financeiro – como o mega investidor George Soros –, o filme revela as corrosivas relações e o jogo de interesses entre governantes, agentes reguladores do sistema financeiro e o mundo acadêmico.
Os depoimentos – em certos momentos concedidos de forma exaltada – e as entrevistas com alguns dos envolvidos no episódio – nitidamente contrariados diante das questões colocadas pelo diretor Charles Ferguson –, revelam ainda o esquema de mentiras e condutas criminosas, inflado pelos altos salários e pelos bônus bilionários oferecidos aos executivos do mercado financeiro.
Essa ciranda prejudicou seriamente a vida de milhões de pessoas em diversas partes do mundo, como, por exemplo, a Islândia, que no início do filme é usada por Ferguson para ilustrar os efeitos desastrosos da crise sobre a economia do país e de seus cidadãos.
Após apresentar de forma dura os resultados do caos na maior economia do mundo, o documentário divide sua narrativa em cinco partes, até certo ponto didáticas, para que o espectador entenda como tudo aquilo aconteceu. O diretor vasculha as entranhas de Wall Street na fase que antecedeu a crise de 2008 de forma implacável, esclarecendo as origens do tsunami financeiro com perdas globais estimadas em cerca de US$ 20 trilhões (R$ 33,2 trilhões).
Ferguson não poupa republicanos nem democratas: culpa ex-presidentes dos dois partidos, começando por Ronald Reagan, que assumiu o comando dos Estados Unidos em 1981 – ou seja 27 anos antes da eclosão da crise –, passando pelos governos Bush (pai) e Bush (Jr.), Bill Clinton até Barack Obama.
Segundo o documentário, no governo Reagan teve início o processo de desregulação do setor financeiro, com a suspensão de diversas barreiras de segurança que poderiam ter evitado as operações de risco e as fraudes financeiras nas demonstrações contábeis dos bancos.
Esse descaso em nome de uma suposta melhoria nas condições de competição do sistema financeiro americano criou situações assombrosas, como a existência de um único funcionário responsável na Securities and Exchange Commission (SEC) – o órgão similar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil - por toda a gestão e fiscalização de exposição ao risco do mercado financeiro. Ferguson revela também as medidas desastrosas do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, potencializadas por uma condução governamental perigosa para a sustentabilidade econômica, num caldeirão com boas doses de corrupção, vista grossa e irresponsabilidade.
Mas uma das partes mais interessantes é justamente aquela em que o cineasta aborda o componente comportamental dos executivos e operadores financeiros do setor. Tomados por uma sensação de impunidade, de propriedade absoluta de poder e inviolabilidade, construíram uma cultura de excessos e insensibilidade crônica, onde havia, e ainda há, a participação explosiva de elementos como drogas e prostituição em larga escala. Uma mistura que, em vez de ampliar as riquezas do sistema financeiro, produziu tragédias econômicas, desespero e, como resultado final, congelou o maior motor da economia mundial.
O filme termina mostrando que o mundo não está livre de novos abalos financeiros, já que muitos dos causadores da crise, como o ex-secretário de Tesouro dos Estados Unidos Henry Paulson, o presidente do Fed Ben Bernanke e até mesmo o atual secretário de Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, ocupam postos estratégicos. Ou seja, os mesmos personagens permanecem dando as cartas na mesa.
A promíscua relação de economistas ligados a importantes universidades americanas, como Larry Summers, ex-assessor econômico de Obama e ligado a Harward além de professores da Columbia e Berkley é apresentada no filme. A forte influência do lobby financeiro no governo Obama é uma das últimas denúncias apresentadas no documentário.
Algumas das mais novas vítimas são gregos, irlandeses, espanhóis, portugueses e outros povos europeus que estão sendo “convidados” a aceitar uma ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O fato curioso é que o documentário entra em cartaz no Brasil na mesma data em que tem início o encontro dos ministros das Finanças do chamado “Grupo dos 20” (G20), que reúne as autoridades econômicas dos países desenvolvidos e das principais economias emergentes. Um dos temas da pauta do encontro é justamente a melhoria das regras de fiscalização e gestão do sistema financeiro, e muitos dos “atores” principais do filme de Charles Ferguson estarão nas mesas de debates em Paris neste fim de semana.
*Articulista do portal IG



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