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domingo, 20 de março de 2011

Cópia Fiel


Bruno Mendes*
A cópia de uma obra de arte possui o mesmo valor que a obra original. O fato do produto não ser autêntico não implica em sua desvalorização. Eis a polêmica tese defendida pelo professor James Miller em seu novo livro. Após a apresentação do exemplar, ele conhece a francesa Elle (Juliette Binoche), e ambos passam a tarde juntos. O encontro não poderia ser mais inusitado, pois eles forjam um relacionamento de 15 anos e inventam situações críveis no cotidiano de um casal comum. O embarque na experiência cinematográfica de Cópia Fiel, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, não é usual. As dúvidas permeiam a mente do espectador, pois apesar de jamais ser confusa, a obra tem múltiplas camadas, e o tom ambíguo impera. Afinal: Por que apesar de se conheceram há pouco tempo Elle e James tornaram-se tão íntimos de forma abrupta? O que os leva a esse comportamento? Ao lançar discussões sobre a valorização (ou não) de uma obra de arte não autêntica e ao mesmo tempo promover um encontro baseado no jogo de cena, na interpretação, poderia esta ser uma maneira de aludir ao próprio cinema, pura metalinguagem. Ou não?

Além das variadas possibilidades de interpretação do sentido da narrativa, o cinema de Kiarostami, que também é roteirista, apresenta notório zelo estético, verificado nos belíssimos planos próximos dos personagens na mesa do restaurante, que os mostram como se estivessem olhando e traduzindo a mensagem para o espectador, e na fotografia marcada por cores sóbrias que nada destaca além da complexidade dos protagonistas.
Não há como falar dos protagonistas sem mencionar a perfeita interpretação da dupla William Shimel e Juliette Binoche (premiada em Cannes pelo papel), que garantem sutileza e exaspero aos personagens em níveis adequados conforme cada situação. Em certas passagens, perpassa no longa o tom naturalista (representação autêntica da realidade). Ao conversar com James sobre fatos da vida doméstica, uma mulher com um bebê entra no plano, Elle elogia o bebê e imediatamente volta a conversar com o escritor. O naturalismo da sequência é similar ao do excelente Antes do Pôr do Sol (2004).
O resultado interpretativo na fruição artística de uma obra de arte, seja ela orginal ou cópia, é subjetivo. Cada pessoa garante um sentido ao produto. Cópia fiel é um exercício de metalinguagem, não é um filme óbvio e o sentido conclusivo não é entregue de bandeja ao espectador. Com suas qualidades técnicas e o encadeamento narrativo sólido e complexo, o filme é uma obra de arte que merece ser contemplada.
* Crítico cinematográfico

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