Paulo Miguez: O modelo de negócio do carnaval baiano, centrado na combinação bloco-estrela, chegou no limite. Mas, se já são evidentes os sinais deste esgotamento, também já são claros os contornos do novo modelo de negócio, cada vez mais focado na combinação camarote-estrela. Não é outra a razão que tem levado ao “arriar das cordas”, atitude que desde as duas últimas edições da festa tem vindo a se tornar comum entre os chamados grandes blocos. Ou seja: como “por o bloco na rua” particularmente por conta do seu deslocamento ao longo do circuito, exige muitos recursos para suportar a pesada estrutura de custos decorrente de uma logística supercomplexa, o caminho que começa a ser adotado é a captação de patrocínios para os camarotes e para os trios elétricos das grandes estrelas da festa. Assim, vão-se as cordas mas permanece a lógica concentradora que tem sido a marca do negócio carnavalesco das últimas duas décadas.
BE: Muita gente diz que há excesso de trios e que o carnaval perdeu o lado cultural, o que você acha?
PM: Não creio que a questão deva ser posta desta forma. Ou seja, não é a quantidade deste ou daquele tipo de entidade carnavalesca que prejudica a dimensão cultural da festa. Tal prejuízo resulta da falta de regulação do mercado – mercado que, desregulado, se tornou mais importante que a festa propriamente dita – e da total e completa ausência de políticas culturais dedicadas à festa, uma e outra, a falta de regulação e a ausência de políticas culturais, responsabilidades que devem ser cobradas diretamente do Governo Municipal.
BE: Você é contra ou a favor do Afródromo?
PM: Não conheço o projeto em detalhes, daí que não me sinta em condições de uma avaliação mais criteriosa. Contudo, pelo que li a respeito na imprensa, o móvel principal da proposta foi a necessidade de várias organizações afro-carnavalescas passarem a dispor da visibilidade que lhes tem sido negada pela ordem dos desfiles dos últimos anos – ordem que atende exclusivamente aos interesses de mercado dos grandes blocos de trio sob o falso disfarce de “antiguidade”. Todavia, ainda que concorde com o fato de que o diagnóstico do problema está, obviamente, correto, a solução adotada não me parece a mais adequada pois, ao criar um circuito exclusivo para apenas um tipo de manifestação carnavalesca, aponta para a direção oposta ao que considero a grande riqueza do carnaval que é a diversidade de manifestações. Penso que com o capital simbólico que as entidades e personalidades envolvidas com o projeto dispõem, o ideal teria sido ir pra cima da Prefeitura e do Conselho Municipal do Carnaval exigindo as mudanças na organização dos desfiles e da festa como um todo. Imagino a força política de Carlinhos Browm, do Ilê Aiyê, do Cortejo Afro – e a estes poderiam juntar-se, por exemplo, o trio elétrico de Armandinho Dodô e Osmar, Luiz Caldas, Paulinho Boca de Cantor, Lazzo, Gerônimo e muitos outros – ao anunciarem: ou muda a ordem do desfile e nos retiram da invisibilidade ou este ano os blocos afro e afoxés não desfilarão.
BE: O carnaval do Rio de Janeiro se renovou sem eliminar o desfile das escolas de samba. Você acha possível fazer isso em Salvador?
PM: Os carnavais carioca e baiano são festas com significativas diferenças, inclusive com modelos de negócio e configurações territoriais bastante distintas. Temos, portanto, que ter muito cuidado com as comparações. Entretanto, seja no Rio de Janeiro ou em Salvador, o aprisionamento da festa por um único modelo - no Rio, o espetáculo turístico-midiático dos desfiles das Escolas de Samba; aqui, o carnaval-negócio – acaba enfrentando resistências e leva sempre a soluções engendradas pela própria festa - o que, aliás, tem sido uma característica histórica do carnaval: sempre que anunciam sua morte, seu esgotamento, ele ressurge, rom pendo as costuras, comendo pelas beiradas.
BE: Sobre as festas de largo, elas estão perdendo força a cada ano. O que você acha que deveria ser feito para manter essa tradição?
PM: A questão das festas de largo, ou seja, o chamado ciclo de festas populares da Bahia, que se iniciava em dezembro, com a festa de Santa Bárbara, e seguia até o carnaval, precisa ser melhor qualificada. Algumas desapareceram porque perderam a força comunitária que as sustentavam e lhes garantia o brilho e a participação popular. A cidade cresceu, novas formas de celebração e novos festejos emergiram, é natural que algumas festividades tradicionais tenham simplesmente desaparecido. Contudo, impõe-se o cuidado com as festas que continuam marcando forte presença na vida da cidade, especialmente a Lavagem do Bonfim e o 2 de Fevereiro, a festa para Yemanjá. Aqui, o ponto de partida a é retirá-las da tutela dos órgãos oficiais da área de turismo e colocá-las sob a responsabilidade das instituições públicas do campo da cultura – aliás, o mesmo precisa ser feito com o carnaval –, certamente o lugar adequado para a formulação e implementação de políticas culturais especificamente dedicadas ao patrimônio imaterial.
BE: Qual sua opinião sobre o primeiro governo de ACM Neto?
PM: Especificamente sobre a questão do carnaval, devemos lembrar que o novo Governo Municipal não tem responsabilidade direta sobre a organização dos festejos deste ano de 2013. Entretanto, algumas declarações públicas do novo Executivo sinalizam a intenção de abrir um amplo processo de discussão na cidade envolvendo os vários atores da festa. Se assim for, co meçará bem.
PM: Não creio que a questão deva ser posta desta forma. Ou seja, não é a quantidade deste ou daquele tipo de entidade carnavalesca que prejudica a dimensão cultural da festa. Tal prejuízo resulta da falta de regulação do mercado – mercado que, desregulado, se tornou mais importante que a festa propriamente dita – e da total e completa ausência de políticas culturais dedicadas à festa, uma e outra, a falta de regulação e a ausência de políticas culturais, responsabilidades que devem ser cobradas diretamente do Governo Municipal.
BE: Você é contra ou a favor do Afródromo?
PM: Não conheço o projeto em detalhes, daí que não me sinta em condições de uma avaliação mais criteriosa. Contudo, pelo que li a respeito na imprensa, o móvel principal da proposta foi a necessidade de várias organizações afro-carnavalescas passarem a dispor da visibilidade que lhes tem sido negada pela ordem dos desfiles dos últimos anos – ordem que atende exclusivamente aos interesses de mercado dos grandes blocos de trio sob o falso disfarce de “antiguidade”. Todavia, ainda que concorde com o fato de que o diagnóstico do problema está, obviamente, correto, a solução adotada não me parece a mais adequada pois, ao criar um circuito exclusivo para apenas um tipo de manifestação carnavalesca, aponta para a direção oposta ao que considero a grande riqueza do carnaval que é a diversidade de manifestações. Penso que com o capital simbólico que as entidades e personalidades envolvidas com o projeto dispõem, o ideal teria sido ir pra cima da Prefeitura e do Conselho Municipal do Carnaval exigindo as mudanças na organização dos desfiles e da festa como um todo. Imagino a força política de Carlinhos Browm, do Ilê Aiyê, do Cortejo Afro – e a estes poderiam juntar-se, por exemplo, o trio elétrico de Armandinho Dodô e Osmar, Luiz Caldas, Paulinho Boca de Cantor, Lazzo, Gerônimo e muitos outros – ao anunciarem: ou muda a ordem do desfile e nos retiram da invisibilidade ou este ano os blocos afro e afoxés não desfilarão.
BE: O carnaval do Rio de Janeiro se renovou sem eliminar o desfile das escolas de samba. Você acha possível fazer isso em Salvador?
PM: Os carnavais carioca e baiano são festas com significativas diferenças, inclusive com modelos de negócio e configurações territoriais bastante distintas. Temos, portanto, que ter muito cuidado com as comparações. Entretanto, seja no Rio de Janeiro ou em Salvador, o aprisionamento da festa por um único modelo - no Rio, o espetáculo turístico-midiático dos desfiles das Escolas de Samba; aqui, o carnaval-negócio – acaba enfrentando resistências e leva sempre a soluções engendradas pela própria festa - o que, aliás, tem sido uma característica histórica do carnaval: sempre que anunciam sua morte, seu esgotamento, ele ressurge, rom pendo as costuras, comendo pelas beiradas.
BE: Sobre as festas de largo, elas estão perdendo força a cada ano. O que você acha que deveria ser feito para manter essa tradição?
PM: A questão das festas de largo, ou seja, o chamado ciclo de festas populares da Bahia, que se iniciava em dezembro, com a festa de Santa Bárbara, e seguia até o carnaval, precisa ser melhor qualificada. Algumas desapareceram porque perderam a força comunitária que as sustentavam e lhes garantia o brilho e a participação popular. A cidade cresceu, novas formas de celebração e novos festejos emergiram, é natural que algumas festividades tradicionais tenham simplesmente desaparecido. Contudo, impõe-se o cuidado com as festas que continuam marcando forte presença na vida da cidade, especialmente a Lavagem do Bonfim e o 2 de Fevereiro, a festa para Yemanjá. Aqui, o ponto de partida a é retirá-las da tutela dos órgãos oficiais da área de turismo e colocá-las sob a responsabilidade das instituições públicas do campo da cultura – aliás, o mesmo precisa ser feito com o carnaval –, certamente o lugar adequado para a formulação e implementação de políticas culturais especificamente dedicadas ao patrimônio imaterial.
BE: Qual sua opinião sobre o primeiro governo de ACM Neto?
PM: Especificamente sobre a questão do carnaval, devemos lembrar que o novo Governo Municipal não tem responsabilidade direta sobre a organização dos festejos deste ano de 2013. Entretanto, algumas declarações públicas do novo Executivo sinalizam a intenção de abrir um amplo processo de discussão na cidade envolvendo os vários atores da festa. Se assim for, co meçará bem.
Leia o Bahia Econômica : http://www.bahiaeconomica.com.br/entrevista/179,paulo-miguez-fala-sobre-o-carnaval-de-salvador.html


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