"O Carnaval de Salvador precisa passar por um redesenho completo, inclusive geográfico.” A declaração é do prefeito de Salvador ACM Neto após assinatura de um contrato de patrocínio. E promete ser um divisor de águas ganhou na festa que em 2005 foi eleita pelo Guinness Book a “maior festa de rua do mundo”. Nos últimos anos, tem se ampliado entre os foliões, empresários do setor, artistas e até turistas, o discurso de que o modelo da festa está a caminho do esgotamento.
Os problemas passam por altos gastos não compensados à gestão municipal e queda nos lucros de blocos e camarotes, mas principalmente pela insatisfação de quem deveria aproveitar o evento. “Já temos a maior. Agora queremos fazer a melhor”, declarou Neto.
O caminho começa a ser pavimentado. Assim que assumiu, o prefeito criou reuniões semanais com os órgãos envolvidos no planejamento e execução do Carnaval de Salvador. Como a maioria das licitações e contratações de serviços foi feita ainda na gestão de João Henrique Carneiro, a solução foi focar em processos e deixar as grandes mudanças para 2014.
O secretário de Desenvolvimento, Turismo e Cultura, Guilherme Bellintani, ficará à frente da remodelagem do Carnaval, que segundo ele começa impreterivelmente em 13 de fevereiro. Na tarde da Quarta-feira de Cinzas acontecerá a primeira reunião de um grupo de trabalho que terá seis meses para propor o novo modelo, e outros seis, até a próxima edição da festa, para colocá-lo em prática. Para a mesa de discussão será levada toda a informação levantada pelo Centro de Operações para o Carnaval (COC), criado hoje através de um decreto municipal para centralizar todo o trabalho do evento. O centro reunirá órgãos como as secretarias municipais de Ordem Pública, Saúde, Infraestrutura, Habitação e Defesa Civil, entre outros.
As mudanças já têm três direções: revisão do conteúdo cultural, aumento de receitas e redução de despesas. “O tema não é invisível. O Carnaval de Salvador é o mesmo há 20 anos, com exceção do acréscimo dos camarotes, que eu acho que pioraram a festa”, dispara Bellintani. Apesar das declarações fortes, ele se diz otimista e acredita em bons resultados já para 2014.
O eixo de mudança mais esperado pelo público é a revisão do conteúdo cultural do Carnaval, que ficará a cargo da Fundação Gregório de Mattos, presidida pelo badalado diretor de teatro Fernando Guerreiro, conhecido nacionalmente por causa do espetáculo A Bofetada, em cartaz há 25 anos. O grupo irá rever o interesse do público pelas atrações, como é o caso de muitos trios e blocos que chegam às ruas na madrugada, arrastam pouca gente e consomem ao menos R$150 mil para circularem nos circuitos, foram gastos com banda, segurança policial, etc.
Do outro lado, ficam manifestações culturais que acabaram sendo abafadas pelo modelo atual e precisam ter sua participação revista, como é o caso dos blocos afros. Esses, em especial, não aguardam a ação da Prefeitura. Uniram-se numa liga e expuseram, ainda em 2012, o projeto Afródromo, um circuito exclusivo para suas apresentações, que com o crescimento dos blocos de trio, foram aos poucos empurradas para a alta madrugada nos circuitos Dodô e Osmar. Por questões técnicas, como contratos de patrocínio anteriores e falta de efetivo policial e de agentes de trânsito, esse ano haverá apenas um desfile, às 11h de domingo, no Campo Grande. O projeto original deve sair do papel no ano que vem. Se tudo se concretizar, a festa de 2014 será, como dizia uma letra do grupo É o Tchan, “o novo som de Salvador”.
O segundo alvo é a redução do déficit anual de cerca de R$ 10 milhões deixado nos cofres municipais. Em quatro anos, ACM Neto promete entregar à cidade um Carnaval financeiramente sustentável. Hoje, o investimento da Prefeitura gira em torno de R$ 30 milhões, que são acrescidos R$ 12,5 milhões em cotas de patrocínio e um valor variável de taxas cobradas das empresas participantes.
Um novo modelo de contrato de patrocínio é dado como certo, e deve incluir mudanças na comercialização de imagem, semelhante ao direito de arena que existe no futebol. Espetáculos como os desfiles do Sambódromo carioca e o Festival de Parintins, no Amazonas, já contam com modelos mais avançados neste sentido.
Em terceiro lugar, a redução de despesas se relaciona diretamente ao COC, que focará em aumentar o planejamento e racionalizar as contratações. “Ainda há licitações abertas para a contratação de serviços para o Carnaval. Isso não pode acontecer”, critica Bellintani. Segundo ele, serão mais frequentes ações como a união dos prepostos da Divisão de Vigilância Sanitária (Divisa) e da Empresa de Turismo de Salvador (Saltur) em praticáveis comuns ao longo do circuito. O cancelamento de uma das licitações permitiu uma economia de R$ 400 mil que serão usados na reabertura do Teatro Gregório de Mattos, fechado desde março de 2008.


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