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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Fundos do Opportunity voltam a captar e se recuperam do baque

Ana Paula Ragazzi e Fernando Torres |

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
Discreto, Dorio Ferman segue à frente do banco e da gestão dos fundos líquidos
Na esteira dos danos de imagem deixados pela operação Satiagraha da Polícia Federal, em 2008, o banco Opportunity sofreu uma sangria de 15% em seus fundos de investimento, com clientes amedrontados sacando seus recursos e levando-os para instituições concorrentes. Passados cinco anos, conseguiu resistir à crise e se manter entre os vinte maiores gestores de recursos de terceiro do país.
Comandado por um dos mais experientes gestores do país, Dorio Ferman, o negócio de gestão de recursos cuida hoje de R$ 19 bilhões, distribuídos em mais de 40 fundos de ações, multimercados, imobiliários, off-shore e participações. O total é quase 20% superior aos R$ 16 bilhões sob gestão em 2008, quando o investidor Daniel Dantas e executivos do banco, inclusive Ferman, chegaram a ser presos por conta da operação da PF que investigou desvio de verbas públicas, corrupção e lavagem de dinheiro.
Em junho de 2011, a Satiagraha teve as provas e desdobramentos, como o pedido de prisão de Daniel Dantas, anulados em um julgamento do Superior Tribunal de Justiça. Por maioria de 3 votos a 2, os ministros da quinta turna do STJ entenderam que as provas estariam "maculadas" por causa da participação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
Mas o estrago no negócio já estava feito. "Após o estardalhaço midiático [em função da Satiagraha], vários investidores resgataram suas aplicações dos fundos", disse a instituição ao Valor, que só aceitou dar entrevista por e-mail e pediu que as respostas fossem atribuídas à "equipe de gestão".
Embora não figurasse como sócio do banco, Dantas, polêmico, sempre foi conhecido como o banqueiro dono do Opportunity, embora o banco pertencesse de fato a Ferman, como pertence até hoje.
Diante do efeito da operação da PF, o Opportunity diz que fez um grande trabalho de rescaldo, falando com cada um dos clientes.
Embora seja oficialmente um banco de investimento - em junho deixou de ser banco múltiplo -, o Opportunity concentra sua atuação na gestão de recursos, sem destaque em transações típicas do segmento, como assessoria em fusões e aquisições e coordenação de ofertas de ações ou de emissão de títulos de dívida.
A gestão dos fundos líquidos da casa, que estão na origem da instituição, sempre foram de responsabilidade de Ferman, o engenheiro pernambucado que fundou o banco a partir da distribuidora de valores Lógica. Dantas juntou-se a Ferman para cuidar de uma área de investimento em participações em empresas, que atraíram os holofotes e também os problemas para o banco.
Os comentários feitos pela instituição se restringiram aos investimentos líquidos, sem tratar das participações detidas em inúmeras empresas de capital fechado (ver texto). As empresas gestoras são completamente separadas com colaboradores de perfis profissionais diferentes. São 28 pessoas na área de investimentos líquidos e 14 na de participações.
Segundo a entidade, a mudança de categoria de banco múltiplo para banco de investimento, aprovada pelo Banco Central, permitiu uma simplificação administrativa e operacional, mas não alterou de forma significativa a rotina.
Segundo o Opportunity, até 2012 o banco era o administrador e custodiante dos fundos que geria. Agora, reavaliaram o posicionamento estratégico com o objetivo de encerrar as atividades relacionadas à carteira comercial e focar naquelas ligadas à carteira de investimento. A administração dos fundos foi transferida ao BNY Mellon e a custódia, ao Bradesco.
Para atuar apenas como gestor de recursos, contudo, não era necessário manter sequer a condição de banco de investimento. "Parodiando a propaganda: precisar não precisava mesmo, mas é melhor ter - no caso, o banco de investimento", diz a equipe, ao responder a essa questão, sem dar maiores detalhes.
Questionado, o Opportunity não disse quanto dos recursos administrados são próprios ou de partes relacionadas. Mas afirma que os investimentos de sócios e funcionários do banco devem ser feitos nos fundos por ele geridos. "Há, portanto, um forte alinhamento de interesse entre sócios, funcionários e investidores." Entre os cotistas, os do segmento private (clientes diretos, pessoas físicas e jurídicas) são os mais representativos.
No dia a dia da gestora, o sócio e presidente Dorio Ferman continua na liderança; sua mesa de trabalho fica na mesma bancada dos outros oito gestores e muito próxima dos dez analistas, facilitando a constante interação.
A recuperação do patrimônio dos fundos nos últimos anos não se deve a um desempenho exatamente excepcional. Os resultados apresentados são mistos, de acordo com levantamento feito pelo site Comparação de Fundos a pedido do Valor. Os fundos mais antigos já não mostram a mesma consistência do passado, enquanto as carteiras mais novas superam o desempenho médio do mercado.
O Lógica II, que deu fama a Ferman como gestor, bate o Ibovespa com folga neste ano até julho, perdendo apenas 3% ante queda de 20% do principal indicador da Bolsa. Mas ao se analisar um período mais longo, a carteira ficou atrás do Ibovespa em 2009, 2010 e 2011, tendo acumulado ganho de 17,5% em quatro anos e sete meses, ante alta de 63% do índice em igual período.
O multimercado Midi, menor e de estratégia mais agressiva, acumula perda desde 2009. Entre os multimercados moderados, os fundos mais antigos analisados Market e Total bateram a variação do CDI desde 2009, mas apenas o segundo superou também a média do mercado quando se considera como referência o IFMM, calculado pelo BTG Pactual.
Já as carteiras mais recentes, como o fundo de ações Selection e os multimercados Plus e Equity Hedge estão ganhando do mercado.
Na área de ações, a gestora segue as práticas do investimentos de valor (value investing). A busca é por distorções entre o preço de mercado das companhias e o seu valor intrínseco, que possibilitem retornos maiores. Na avaliação sobre as empresas, um ponto que consideram muito importante é a estrutura de controle e o alinhamento da diretoria com os acionistas.
Essas características fizeram o Opportunity escolher as ações do banco BTG Pactual, de André Esteves, para ser um dos investimentos mais relevantes dos fundos. O Opportunity iniciou o investimento na oferta inicial de ações em 2012 e, desde então, aumenta sua participação. Em uma carta dirigida aos cotistas, os gestores destacam que a estrutura de sociedade do BTG, que premia os melhores talentos com participações acionárias no banco, é um dos pontos que explicam a posição nos papéis.
Outro investimento relevante para os fundos são as ações da Vale, que somam alguns bilhões. "Apesar do cenário realizado ter sido pior do que imaginávamos no início do nosso investimento na mineradora, acreditamos que, com a correção significativa das suas ações, elas oferecem um retorno atrativo, mesmo em cenários menos favoráveis."
Apesar do histórico na área de participações, a seleção de empresas para os fundos líquidos do Opportunity não tem como foco a participação ativa em sua gestão, mesmo via indicação de conselheiros - embora eventualmente isso possa ocorrer através de pessoas da casa ou de terceiros. Hoje o banco possui, por exemplo, uma fatia relevante na composição acionária da BR Malls, mas garante que não tem interesse em participar da gestão. "Apenas enxergamos nela um bom investimento."
Fiel aos fundamentos que sempre nortearam seu estilo de gestão, o Opportunity sabe que, apesar da recuperação dos últimos anos, ainda não está totalmente recuperado do baque sofrido em 2008. "Sem as operações policiais, certamente o volume de recursos [sob gestão hoje] seria bem maior. Os danos à imagem do Opportunity ainda estão sendo mensurados."

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