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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A celeuma do tripé

 Maria Clara R. M. do Prado*

Incensado pela ex-senadora e potencial candidata à presidência da República, Marina Silva, como se fosse a panaceia para os problemas da economia brasileira, o famoso tripé - estabilidade monetária, flutuação cambial e superávit fiscal primário - nada mais é do que o ponto de partida, básico, para qualquer governo de qualquer país que tenha um mínimo de responsabilidade social, política e econômica.
Portanto, a ex-senadora não disse nada demais, e nem de novo. Manter de pé o tripé que dá sustentação fiscal, monetária e cambial à governabilidade é condição necessária, mas, infelizmente, não suficiente para a condução da economia. Do ponto de vista retórico, firmar compromisso público com o tripé em fase eleitoral pode ter algum efeito sobre a arrecadação de fundos para financiamento de campanha, mas não agrega votos na disputa pelas urnas.
A dobradinha Marina Silva-Eduardo Campos fica devendo aos eleitores o programa econômico, seus planos e metas, com o qual pretende governar o país, sabendo que uma plataforma eleitoral séria deve ir além de coalizões políticas, verbas de financiamento e tripés. É claro que não houve tempo para as duas forças terem superado suas divergências de origem e colocado no papel suas diretrizes programáticas de forma consensual. Pois é disso que se trata. Programático remete a programa.
Ninguém ganhará votos falando do Plano Real ou da melhoria da renda. Isso já foi incorporado pelos brasileiros
Desde que os militares saíram do poder, o Brasil passou por várias etapas. Demorou anos para debelar a inflação, algo realmente de fôlego, na casa dos 5%, 10%, 20% e até 50% ao mês. Exatamente, oito anos e seis diferentes planos de estabilização. O primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique foi dedicado à prioridade da estabilização da moeda, ao custo, como se sabe, de uma tremenda valorização do real. Era a arma disponível para acabar com a chamada memória inflacionária. O segundo mandato patinou em meio à crise cambial externa que derrubou em cascata as economias em desenvolvimento, da Ásia às Américas e da qual o Brasil não escapou. Foram anos negros, de drástica perda de reservas e recuo de investimentos.
Na era Lula, privilegiou-se a distribuição de renda com políticas públicas que conseguiram tirar da pobreza um bocado de gente - quase quatro Portugais! Fortaleceu-se o mercado interno, com mais oportunidades de trabalho e de educação. O governo de Dilma Rousseff procurou dar continuidade aos avanços sociais, mas ficou claro que só isso já não basta. Tornou-se premente o investimento pesado em infra estrutura, algo que está abandonado desde o início dos anos 80. Falta um planejamento bem amarrado e formas sustentáveis de financiamento, capazes de garantir os estimados R$ 500 bilhões necessários a projetos que ampliem o padrão de eficiência da economia brasileira.
Esse é o ponto mais vulnerável do atual governo. A presidente Dilma terá de ser convincente sobre os planos e programas de infraestrutura dos próximos quatro anos de modo a reverter as expectativas em seu favor. Em verdade, nenhum candidato escapará desta cobrança, haja vista a patente deterioração de estradas, portos, aeroportos, entre outros grandes "buracos", e o crescente descontentamento nas ruas e na internet.
O tal tripé continuará sendo perseguido como tem sido desde a crise cambial que assolou o país no início de 1999. Com alguns desvios de tempos em tempos, é certo, mas nenhum governante ousará fugir dele.
A percepção importante a reter é que a economia brasileira é muito maior e mais complexa. Pode-se governar tendo apenas o tripé como alvo, mas sob pena de uma administração medíocre.
Tudo indica que a vida dos candidatos à Presidência da República não será nada fácil desta vez. Já se sabe que tipo de compromisso será cobrado da presidente Dilma e nada muito diferente deve orientar as expectativas com relação à dupla Campos-Marina e ao candidato do PSDB, qualquer que seja ele. Os brasileiros querem saber o que os espera pela frente. Não adianta falar do passado. Nem o PSDB ganhará votos com o Plano Real (essa possibilidade há muito ficou para trás, tendo sido desprezada pelo próprio partido) e nem o PT arregimentará mais simpatizantes se o discurso ficar limitado às conquistas da melhoria da renda. Tudo isso está já incorporado ao dia a dia do brasileiro, preocupado cada vez mais com as muitas demandas não atendidas: melhor transporte, melhor saúde, melhor educação, mais segurança, enfim.
A dupla Campos-Marina tem o desafio de mostrar que será capaz de encontrar a coerência e afastar, assim, o receio com a perspectiva de um governo confuso e inexperiente, seja no campo da economia, seja na gerência da política. O PSDB, bem mais tarimbado em cargos executivos no âmbito estadual e federal, terá de se reinventar, não apenas como partido, mas como plataforma propositiva. Desta vez, como mostram as primeiras pesquisas, o principal adversário dos social-democratas na corrida pelos votos será o PSB turbinado pelos marinistas. Perderão tempo com discursos de oposição ao governo constituído se quiserem chegar ao segundo turno. Recomenda-se ao PSDB que comece a colocar no papel um programa consistente de governo, com projetos concretos, em vez da retórica meramente combativa.
A presidente Dilma terá sempre a seu favor o peso político do ex-presidente Lula, um inegável catalisador de votos. Mas não deve se iludir, pois tem deixado muitos flancos abertos ao ataque dos adversários. Esta temporada eleitoral promete.
Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real". Escreve mensalmente às quintas-feiras. E-mail: mclaraprado@ig.com.br

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