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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Botero descobre o "Kama Sutra", aos 81

Juliana Vines*
Quando fazia a escultura de uma mulher nua reclinada, em maio passado, o artista colombiano Fernando Botero, 81, insatisfeito com o resultado, decidiu colocar um homem sobre a mulher, "como se os dois estivessem fazendo amor".
"A composição se iluminou, ficou muito mais interessante", disse Botero, em entrevista à Folha, de seu ateliê em Mônaco.
Empolgado, fez outras duas esculturas com o tema. Depois, leu o "Kama Sutra", texto indiano que descreve posições sexuais. E, "usando mais a imaginação do que a memória", diz, criou o "Boterosutra", uma coleção de desenhos ainda inédita e inacabada.
A série já tem 70 imagens, feitas entre maio e setembro, todas com personagens gordos, traço característico do artista. Mas ele quer mais.
"Há um grande potencial em dois corpos que se entrelaçam em diferentes posições. Posso explorar elementos do corpo humano de forma livre, em composições inesperadas", afirma.
É o trabalho mais erótico de Botero. Ele já tinha feito figuras nuas, mas admite que evitava a temática sexual porque pensava não ser possível fazer algo belo, longe da pornografia. "Estava errado."
Para, segundo diz, não correr o risco de parecer pornográfico, escondeu o sexo de todas as figuras retratadas. "Quero excitar as pessoas pela arte, não pelo erotismo."
O resultado é um "Kama Sutra" bem mais recatado do que as muitas versões ilustradas do texto indiano.
Divulgação
'Boterosutra', de Fernando Botero
'Boterosutra', de Fernando Botero
EROTISMO VELADO
Comum na história da arte, a temática erótica ainda é tabu e muitas vezes vista como pornografia, segundo Hélio Dias Ferreira, professor de história da arte da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).
Para Dercy Pereira, coordenador do curso de artes visuais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, a opção de Fernando Botero por velar o sexo pode diluir o tabu e tornar a sua arte erótica mais acessível.
"As imagens têm um tratamento muito leve, inocente, potencializam mais o lado poético do que o significado."
Já Botero diz que no "Kama Sutra" original não há pornografia. "É um livro sobre amor, fala como cortejar uma mulher. Há uma ideia errada sobre o Kama Sutra'.
Para dar forma às posições com "corpos volumosos", como ele prefere dizer, o artista usou várias técnicas:lápis de cor, aquarela, carvão etc.
Amigo do artista há quatro décadas, Fernando Pradilla, diretor da galeria El Museo, em Bogotá, diz que a escolha do tema o surpreendeu por revelar a versatilidade de Botero, lembrado por trabalhos de cunho político, como retratos do narcotráfico na Colômbia e da tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.
"Ele conseguiu tratar do assunto com elegância e sensualidade", diz Pradilla, curador da última exposição de Botero em São Paulo, em 2012.
A partir de 21 de dezembro, 50 das 70 imagens da série serão expostas pela primeira vez em St. Moritz (Suíça). Depois, devem seguir para Bogotá.

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