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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Abriram-se as comportas

BARBARA GANCIA
Para entender a corrupção na administração pública tente mudar sua concepção sobre "Crime Organizado"
Qualquer um que se disponha a discutir a relação entre a gestão Haddad e eventuais delitos de corrupção ou que queira traçar uma conexão entre atos es­púrios e a administração Kassab deve respirar fundo e fazer uma pausa para reflexão.
São Paulo é ingovernável, dividida não por bairros nem por zonas, mas por máfias institucionalizadas --nós conhecemos bem: nos transportes, na limpeza, na liberação de alvarás, em qualquer coisa, enfim, que gere dinheiro. E, quando pessoal perce­be que foi tudo dominado, bora in­ventar uma inspeção veicular aqui, uma licitação milionária de reló­gios assinada no apagar das luzes da última gestão ali, qualquer coisa que abra mais uma possibilidade que seja.
Quando sou abordada na rua, é frequente que me perguntem: "Não entendi sua última coluna, você é contra ou a favor dos "black blocs"? Contra ou a favor dos bea­gles? Contra ou a favor dos mensa­leiros?" Ora bolas, pela graça de Nosso Senhor do Alto da Serra eu não vim ao mundo para ser contra ou a favor. Não tenho esse incômo­do cacoete de reduzir as coisas a mocinhos e bandidos, e não sinto necessidade de ficar encaixotando em embalagens distintas coisas que, no Brasil de hoje, andam indis­sociáveis.
Não adianta simplificar: o panora­ma político está tão degradado que não dá mais para fazer uma distin­ção entre quem trilha o caminho da luz, e quem o das trevas.
Até a velha máxima dos tempos do idealismo mais "naïve", "os fins justi­ficam os meios", foi pra cucuia.
Não se aplica mais nem mesmo a radicais muçulmanos suicidas que, na maioria, são cooptados em troca de dinheiro para a família ou iludi­dos pela ideia de que vão papar um ônibus lotado de odaliscas quando chegarem do outro lado.
A questão fundamental a ser res­pondida se quisermos entender o que acontece em sucessivas admi­nistrações paulistanas, nos gover­nos estaduais, em todas as maracu­taias que envolvem peixe grande, seja na forma de teles, de megaobras públicas envolvendo suas majestades, as construtoras, nas mudanças de regras no setor imo­biliário ou mesmo no emblemático episódio do mensalão é a seguinte: o que é que a gente entende hoje por "Crime Organizado"?
Eu duvido que para a presidente da Petrobras, Graça Foster, que es­tá tentando juntar os escombros do cataclisma nuclear que atingiu a es­tatal, a definição de crime organi­zado restrinja-se apenas aos PCCs da vida. Rombos milionários, con­tratos fajutos, não é à toa que as contas da Petrobras estejam sendo questionadas pelo TCU.
Tá ligado no grau de descaramen­to da turma? As teles tomam mul­tas colossais das agências regulado­ras, não pagam e continuam ope­rando e cometendo as mesmas ir­regularidades. Costas quentes?
Sem corar, governador do Rio usa helicóptero para ir na esquina comprar papel higiênico ou insta­grama de Paris seu prato de orca mal passada ao molho pardo de ur­so panda em jantar com amigos da construtora a quem favoreceu (a­tenção: isto é sarcasmo, não deve ser levado ao pé da letra). Está co­meçando a ficar difícil conter o es­cracho. A lama anda permeando tudo. Abriram-se as comportas, os profissionais tomaram o país. E não estão conseguindo conter o es­banjamento, a compra de 80 imó­veis, viagens, barcos, carrões...
A qualquer minuto você pode aca­bar atropelado por uma Ferrari e o segurança que vier atrás só terá o trabalho de jogar seu corpo na lixei­ra, apagar os rastros e dar o fora.
E Haddad já foi avisado pela cúpu­la do PT. Esse negócio de mexer em vespeiro sempre acaba mal na polí­tica. Collor e Dirceu tentaram e...
* Articulista do jornal Folha de São Paulo

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