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domingo, 16 de março de 2014

A Grande Beleza

Rubens Edwald Filho*
Vencedor do Oscar de filme estrangeiro deste ano, vencedor de melhor filme europeu, indicado para o Globo de Ouro, Independent Spirit, este é o sexto e melhor filme de um cineasta napolitano Paolo Sorrentino que até agora não é muito conhecido por aqui. Alguns podem lembrar de algum Festival com o “Il Divo”, o drama sobre um astro do rock, Sean Penn (o interessante “Aqui é o meu Lugar”) e em breve terá feito episódio para “Rio, Eu Te Amo”. Mas só agora que conquistou seu espaço como o herdeiro de Fellini, com este filme espetacularmente belo, que é melhor descrito como uma versão 60 anos depois de “La Dolce Vita”, agora a cores e com o personagem do jornalista (feito então por Mastroianni, aqui pelo grande ator teatral  Toni Servillo, que nessa altura escreveu apenas um romance de sucesso e desperdiçou seu tempo em coisa alguma, continuando a ser o jornalista favorito dos ricos e famosos, dando festas na cobertura-terraço de seu apartamento perto do Coliseu). 
Fellini é assumidamente a chave fundamental para penetrar no filme, o que não deixa de ser um problema já que são dez anos de sua morte e muita gente já não tem a menor ideia de quem ele seja. Ainda mais para identificar que é utilizado seu estilo narrativo, seus habituais movimentos de câmera, marcações, figurantes bizarros, trilha musical misturando como a própria cidade de Roma o sagrado e o profano (aliás as danças nas festas são um charme à parte). Na verdade, ajuda muito a embarcar no filme ter essa chave.
E mergulhar num retrato contemporâneo e altamente critico – porém sutil- de uma sociedade talentosa, uma cidade linda, uma população cheia de energia mas que se perde em banalidades. Algumas das citações porém é possível que a gente perca por falta de maior conhecimento do cotidiano romano (uma das poucas que eu descobri foi a presença de Serena Grandi, que foi uma voluptuosa estrela da TV que agora ficou uma bruxa impressionante. É ela que leva a bronca justamente quando vai tomar injeção de Botox!).   
Talvez por causa disso, o espectador casual pode se perder diante do filme até porque faz tempo que não se cultua mais a beleza como um fator de qualidade no cinema. A Fotografia em filmes de arte europeus e até orientais recentes tem sido granuladas e feias. Mesmo no italiano que já teve a melhor direção de arte, a melhor fotografia, melhores figurinos, do mundo, que dava aulas para Hollywood em Cinecittá. Este filme dá sinais de que nem tudo está perdido. Aqui, Roma volta a ficar deslumbrante, fotografada de maneira requintada e original. Como afirma Sorrentino: “Queria que as luzes de movessem com o filme. Gostava muito dessa ideia. Então ou as luzes se movem ou os personagens entram ou saem da luz o tempo todo”.
Há naturalmente outro fator subjacente e evidente: o filme retrata a época desonrosa em que a Itália era dirigida pelo primeiro ministro Berlusconi e sua cultura do Nada, um palhaço que mais parecia um imperador daquela linha Calígula, guardadas as diferenças. Que era corrupto, superficial, adorava orgias e que finalmente acabou sendo cassado (e para piorar dominava todos os meios de comunicação). Nessa Roma do filme é a história de alguém (no caso o diretor, não o personagem) que tenta encontrar algum sentido num mundo onde justamente as coisas perderam o sentido! Onde se acentuou a vulgaridade, a perde do sentido do pudor, vergonha, modéstia, discrição! 
Não é apenas uma carta de amor à cidade eterna mas uma denúncia dos excessos da Itália atual, que propicia aos romanos uma vida muito dura, sem sentido, cansativa e difícil.  Mas para quem estiver atento não faltam momentos de incrível beleza e simbologia (um exemplo: a menina que reclama dos pais que a forçam a trabalhar. Mas chorando vai cumprir o dever e pintar um quadro com tinta que joga numa tela branca. E que surpreendentemente resulta muito bonita e complementar!).
O diretor dá algumas chaves para isso. Há uma citação no começo de um autor preferido de Sorrentino, Louis –Ferdinand Céline Viagem ao Fim da Noite. Que podia se resumir assim “Nossa viagem é inteiramente imaginaria. Esta é sua força”. Depois se formam círculos como no inferno de Dante. E por fim refere-se ao Livro que Flaubert queria escrever e seria sobre o Nada. 
A Grande Beleza é a tentativa de louvar o belo enquanto se critica justamente a essa cultura do nada, do burro, do vulgar. Como já disse é preciso não esperar uma narrativa tradicional e se deixar levar pelo redemoinho de imagens (que disparam após um tiro de canhão), com algumas ocasionais citações explicitas de La Dolce Vita (a visita ao palácio com velas, a sequência com a velha freira que seria milagrosa, a visita ao cabaret de mulheres nuas, a aparição crepuscular de Fanny Ardant (como fazia Anna Magnani em Roma de Fellini alias a presença frequente de freiras de todos tamanhos e idades, também fazem pensar no desfile de trajes eclesiásticos). E muita impressionante como imaginação e realização que nos tempos atuais talvez só um Wong Kar Wai seria capaz de concorrer (ainda em outra esfera). 
Acho A Grande Beleza um filme fascinante e o retorno da Beleza as imagens do cinema italiano. Que seja bem-vindo. Temos agora um Novo cineasta genial para conferir.
*Crítico de cinema
Filme em exibição na Sala de Arte da UFBa

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