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sábado, 15 de março de 2014

O jogo da sucessão

Antônio Risério*

Tem cantora de axé music que, quando ouve a palavra “sucessão”, pensa que a gente está falando de um sucesso enorme, um sucessão. Não é para ela que escrevo. Nem para aquela outra que abriu seu show em Minas Gerais gritando “boa noite, galera! – boa noite, BO!”, achando que BO era a sigla, o apelido carinhoso da capital mineira, Belo... Orizonte. Vamos falar, portanto, não do, mas da sucessão. E sem Minas ou o bobo do Aécio na jogada. Vamos falar da eleição do próximo governador baiano.

Entre as candidaturas que contam, duas estão definidas: a do PT e a do PSB. A de Costa e a de Lídice. É o chamado “campo da esquerda”, muito embora o PT tenha soterrado há tempos sua vocação de esquerda, inclusive com a adoção desinibida dos piores métodos e das piores práticas da política oligárquica. O
compromisso maior do PT, hoje, é com o mercado e o consumo – na base de migalhas para os pobres, tesouros para os ricos. Nunca a história de um partido político brasileiro foi tão decepcionante, do extremo mais ingênuo da pureza ao extremo mais calhorda da degradação. Um partido que começou com o discurso da ética e hoje  uma empresa como outra qualquer, atolado em tudo quanto é tipo de jogo sujo.
Lídice é, portanto, a única candidata da esquerda, embora o poste de Wagner vá fazer esse teatro. Bobagem sonhar um segundo turno entre Lídice e Costa. A esquerda não temeleitorado para colocar os dois na reta final. Se quer ser governadora, Lídice tem de chegar ao segundo turno. Para chegar lá, seu adversário é o poste. Ela tem de derrotar o candidato do governador. Sabendo que Wagner, em busca do “terceiro mandato”, vai tentar abatê-la de qualquer jeito, usando as armas que estiverem ao seu alcance. Nada de jogo leve, nada de civilidade. Aqui, discurso e postura têm de ser bem claros: Lídice pode vir a ser a chamada terceira via. Mas, para isso, não pode ficar elogiando Wagner. Tem de saber distinguir, o tempo todo, entre o que ela pensa que é e a percepção social do que ela significa. Tem de demarcar com clareza que terceira via não é linha auxiliar. Ou não irá a lugar algum.
No outro campo, os nomes não estão definidos. Há quem fale que o candidato é Paulo Souto, há quem diga que é Geddel. São, ambos, candidatos realmente fortes. E, seja um ou outro o nome lançado, vai estar presente no segundo turno. O problema é que aí a porca pode torcer o rabo. Aviso que não acho impossível que a eleição ganhe caráter plebiscitário e se resolva num turno só, mas, com Souto ou Geddel, a tendência é a gente ter mais um round, o decisivo. Acontece que ainda não estou convencido de que um dos dois será o candidato. Às vezes, quando penso cá com os meus botões, acho que, na hora H, quem vai sair candidato é Neto, nosso atual prefeito. Razões para tanto não faltam.
Quando digo isso, em rodas de conversa com gente soi-disant de esquerda, todos descartam a hipótese, dizendo que Neto não vai deixar a prefeitura, não vai querer se queimar com a população de Salvador, etc. Ou seja: o raciocínio nada tem de político – é, antes, uma reação de medo diante de uma possibilidade que, para mim, é real. Não seria difícil articular um “queremismo” hoje, aqui na Bahia. Pedidos de “queremos Neto” podem partir de todos os pontos do estado. E ele pode atender ao “clamor” sem abandonar a cidade (e neutralizand sua vice, que dizem ser a pedra no sapato dele). Basta dizer que a população de Salvador já viu o que ele é capaz de fazer e que ele vai continuar fazendo, só que muito mais – mantendo sua equipe na prefeitura e, além disso, assumindo o controle da máquina estadual.
É muito fácil armar esse lance, em matéria de formulação, discurso e marketing. E Neto não vai, de modo algum, precisar se incompatibilizar com Dilma. Basta não entrar de sola na campanha do bobo do Aécio. E penso que isso é provável por dois motivos, basicamente. Em primeiro lugar, com Neto na parada, Wagner pode tirar seu postezinho da chuva. Em segundo, aí sim: as pesquisas indicam que a fatura seria liquidada no primeiro turno.
*Escritor e Antropólogo
**Artigo publicado no jornal A Tarde, em 01/02/2014

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