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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Os Vizinhos

Jaime Leitão*
O cineasta canadense Norman McLaren, um dos mais famosos criadores de filmes de animação do mundo, é autor do curta-metragem ‘Os vizinhos’, de 1952, considerado a sua obra-prima.
Nesse filme, dois vizinhos vivem em perfeita harmonia entre si, sem cerca ou grade que os separe.
Acontece que, em um determinado momento, uma flor nasce entre uma casa e outra, e aí começam as desavenças, que vão se agravando até partirem para a agressão física e no final se matarem.
Está disponível no Youtube. Esse conflito mortal entre vizinhos tem de alguma maneira relação com o conflito entre Israel e os palestinos.
Há décadas vivem em estado de guerra, mas não podemos esquecer que há um grande número de palestinos morando e trabalhando em Israel e também israelenses vivendo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
A maioria da população, tanto israelense quanto palestina, não quer conflito, guerra, mas os detentores do poder procuram eliminar o vizinho, em busca de mais terra e mais poder. Israel, com mísseis de última geração, provoca um número de mortes assustador do lado palestino, vitimando centenas de civis, homens, mulheres e crianças, nas últimas semanas.
O número de mortos já passou de mil e avança a cada dia. Do lado de Israel, morreram 51 pessoas, 48 militares e três civis. Trata-se de um massacre intolerável.
A beligerância do governo de Israel não isenta de culpa o Hamas, que, com armamentos precários, insufla ainda mais a ira israelense.
Nem um dos lados tem razão e precisam chegar a um acordo para evitar mais derramamento de sangue. A insensatez de ambos é tão grande ou maior que os vizinhos do filme de McLaren.
E a diferença fundamental é que o que acontece no Oriente Médio não é ficção, mas a mais cruel e terrível realidade.
O articulista Hélio Schwartsman escreveu ontem na Folha o artigo ‘Quando todos têm razão’, no qual afirma: “O conflito entre israelenses e palestinos não se resolve porque cada parte valoriza muitos os aspectos em que tem razão, deixando de reconhecer que o inimigo também apresenta pontos válidos”.
E continua: “Os palestinos têm todos os motivos do mundo para rejeitar a ocupação da Cisjordânia e combatê-la. Israelenses estão cobertos de razão ao afirmar que necessitam de fronteiras seguras e que é complicado ter como vizinho um regime cujo objetivo é destruir o Estado hebreu”.
Com extremismo não se chega a lugar nenhum, a não ser ao abismo da irracionalidade e da violência desmedida, com perdas humanas que poderiam ser evitadas se houvesse bom senso das duas partes envolvidas no quase eterno conflito.
Enquanto o governo de Israel e o grupo Hamas continuarem se considerando donos da razão, as negociações não avançarão nenhum milímetro, o que é profundamente lamentável.
Fingem que estão negociando, mas sem abrir mão das suas convicções bélicas.
Jaime Leitão é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação.

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