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terça-feira, 24 de março de 2015

Consenso de Washington se vinga

MARCOS TROYJO*
Ocaso do Estado-capitalismo no Brasil e na Rússia. Falência de experimentos econômico-diplomáticos de inspiração bolivariana na América Latina.

Euforia com reformas liberalizantes na Índia. Maior dinamismo das economias da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia e México).

Contrastes entre êxito e malogro nos países em desenvolvimento levam a curiosas constatações.

Por um lado, ruiu a ideia de que os mercados emergentes perfazem conjunto de países cujo crescimento econômico e projeção de política exterior se expandiriam de maneira automática e inevitável.

Por outro, muitas das imprescindíveis medidas de razoabilidade fiscal, comércio exterior e, portanto, de política externa, reconduzem aos holofotes uma série de princípios muito debatidos --e pouco aplicados-- desde que elencados nos anos 1990. A realidade está vingando o Consenso de Washington.

Quando o conceito apareceu, suas recomendações foram amaldiçoadas com um duplo defeito de fábrica. O primeiro: a palavra "consenso". Ela dá a ideia de um rótulo inofensivo postado sobre um acordo conceitual a que se chegara quanto ao melhor rumo para economias em desenvolvimento recorrentemente em crise. Na realidade, ele encobriria estratagema formulado pela Casa Branca, FMI, Banco Mundial e outros monstros imaginários.

A segunda: a palavra "Washington". Sua meta subjacente seria expandir a "dominação" por parte do governo dos EUA, alinhando a seus desígnios países em desenvolvimento. Em ação coordenada no âmbito continental estaria a negociação da Alca, voltada a minar a soberania econômica da América Latina.

Hoje, medidas que Levy propõe para o Brasil se distanciar do abismo inspiram-se no Consenso. É o caso de disciplina macroeconômica, reforma tributária e redirecionamento dos gastos públicos para infraestrutura ou educação. Não é o caso de "bolsas-empresário" ou de um rosário de incentivos fiscais.

Prioridades de Armando Monteiro no Desenvolvimento centram-se na liberalização comercial, acordos internacionais, atração de investimentos estrangeiros diretos e câmbio competitivo. Não na manutenção de política industrial "à Geisel".

Mesmo o tema das privatizações, camufladas sob o pseudônimo "concessões", ganha agora urgência nunca atribuída nos oito anos de Lula ou durante o primeiro mandato de Dilma.

Nesse contexto, será inviável neste momento praticar uma política externa em desalinho com as necessidades da gestão econômica.

Não dá mais, como supostamente se observou entre 2003 e 2008, para orientar Fazenda e Banco Central "à direita" e Itamaraty "à esquerda". Os países que mais se afastaram das dez políticas originais do Consenso são os que hoje se encontram em maior fragilidade. Os que dele mais se aproximaram estão mais fortes.

No limite, a história recente mostra que aqueles princípios não guardam relação com um projeto de consolidação de hegemonia em que só a principal potência global ganha. O "Consenso" é nada além do que o mais básico "bom senso".
Economista, diplomata e cientista social, dirige o BRICLab da Universidade Columbia em NY, onde é professor-adjunto de relações internacionais e políticas públicas.
mt2792@columbia.edu

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