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domingo, 22 de março de 2015

Achacadores da democracia contaminada


Marcelo Rubens Paiva*
Todo político é ladrão? Explicam-se os problemas brasileiros com a simplificação: os políticos são incompetentes e só querem o nosso dinheiro. E o que não dá certo, tem uma razão: por isso o Brasil é assim, todos só querem saber de roubar.

Em programas populares vespertinos da TV aberta, o crime do dia que chocou a comunidade, a chuva, o desabamento, o trânsito, a apreensão de grande quantidade de drogas, a separação do cantor sertanejo, a escola sem merenda, o hospital sem leito e a ciclovia na rua errada têm o culpado: o político invisível e onipresente.

Está na boca do povo: todo ladrão bom é ladrão morto, rico não vai pra cadeia, brasileiro sai de casa sem saber se volta vivo e todo político (que é eleito pelo povo) é ladrão. É ladrão porque é incompetente e decidiu ser político. É uma tentação: se torna político, vira ladrão, quer ser ladrão, quer se dar bem. "Propina, propina, propina...", sonha.

A máquina de triturar ideais, a corrupção, é mais poderosa do que a vontade de mudar o País, o mundo, através da política. Todo patriota tem o seu preço. Mas é verdade?

Meu pai foi político. Meu pai não foi ladrão. Ao contrário, gastou toda poupança da família, que morava de aluguel, investindo na sua campanha a deputado federal de 1962. Não fazia oito anos que ele tinha saído da faculdade. Vendeu o único terreno que tínhamos, no Jardim América, em São Paulo, que, ironicamente, existe até hoje, numa esquina da Rua Groenlândia. Aos 33 anos, com cinco filhos pequenos (a menor com 2 aninhos) e uma polivalente empresa de engenharia, achou que podia contribuir para mudar o Brasil.

Idealista, ex-líder estudantil, gastou todo dinheiro que juntou, o que nunca foi perdoado pela minha mãe. Curtimos poucos meses o terreno da Groenlândia, com uma mata densa, uma piscina em forma de tanque, em que juntávamos os amigos em fins de semana. Foi eleito e cassado em 1964. Quando morreu, em 1971, por causa da política, vivíamos ainda numa casa alugada.

Muitos da sua turma não eram ladrões. Jovens parlamentares idealistas da bancada base de apoio do Jango eram políticos nacionalistas, patriotas, mas não ladrões. Viveram dificuldades depois do Golpe. No exílio, viveram de favores em países simpáticos ao socialismo, com empregos públicos e em universidades. Não tinham contas secretas na Suíça. Não tinham casas na Flórida, carros de luxo, malas com dólares. O que mudou?

José Serra, ex-presidente da UNE cassado pelos militares, militante da AP (Ação Popular), que andava aos trapos e duro pelo exílio, fez mestrado em Economia no Chile e doutorado na Universidade de Cornell, dos EUA. Voltou na Anistia depois de 14 anos exilado. Trabalhou na Unicamp até 1983.

Eleito deputado federal durante a Assembleia Constituinte, me disse em 1988, num voo para Brasília, não com estas palavras, que, ironicamente, um dos problemas da ditadura foi não ter fechado o Congresso, um paradoxo pelo qual pagaremos um preço alto. Câmara e Senado, que pouco interferiam no processo político, todo dominado pelos militares, e que foram mantidos abertos para dar uma fachada democrática, criaram uma rede eficiente fisiológica, passaram a trabalhar em benefício próprio, o que será difícil de ser desmontada.

Muitos dos políticos que aparecem nas listas do Mensalão, Operação Lava Jato, Esquema Alstom Siemens, HSBC, não parecem ladrões. Mas participaram e foram eleitos em campanhas financiadas por empreiteiras, fornecedoras de trens e metrôs, companhias de coleta de lixo, editoras que prestam serviço ao órgão estatal de distribuição de livros didáticos, bancos, empresas aéreas, de telefonia, indústria farmacêutica, metalúrgica, automobilística. Algumas empresas sofrem achaques. Outras querem, sim, participar de licitações previamente combinadas e repartir o Estado entre esquemas.

No jogo partidário atual, se elege quem tem caixa abastado, grana pra campanha, marqueteiro caro, horas reservadas em estúdios, drones, gruas, alta definição, equipe de comunicação antenada, material de propaganda, bandeirolas, santinho e até, nos rincões mais obscuros, compra cabos eleitorais e voto.

Portanto, grande parte dos políticos eleitos no Brasil é de ladrões e achacadores diretos ou indiretos. A culpa nem sempre é do político, mas da política. Nem sempre o dinheiro fica com o candidato, mas com o partido.

O ex-cara-pintada e senador da República Lindberg Farias (PT-RJ) ficou "surpreso e indignado" depois que se revelou que, pela delação premiada, seu nome apareceu na lista da Lava Jato. Afirmou que o ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, com quem esteve "três vezes", trabalhou na sua campanha para o Senado de 2010 para arrecadar fundos. Recebeu vários cheques milionários sem saber ou se preocupar se tal dinheiro era ilícito. Recebeu e se elegeu. Melhor nem saber de onde veio. E alguém confere?

O ridículo vem à tona: a democracia brasileira está contaminada, não é representativa, não é democrática, é um negócio, e Serra, cujo partido hoje está ligado a denúncias de doações ilegais da Alstom e Siemens, tinha razão no final de 1980, tempo em que parlamentares e senadores do PT, partido fundado para ser um diferencial no viciado jogo político, que rasgou seu programa e envergonha seus fundadores históricos, atolado em denúncias de doações ilegais, reservavam uma porcentagem do salário para financiar a legenda pura e pragmática que não recebia doações.

O Estado brasileiro está na mão das doações lícitas e ilícitas. A política brasileira é feita por aqueles que, na maioria, conseguem arrecadar doações legais e ilegais. Seu prefeito, governador, senador, deputado federal, estadual e vereador foram eleitos por campanhas que só alcançaram grande visibilidade porque foram financiadas por doações legais e ilegais. O presidente da Câmera e do Senado foram citados na Lava Jato. Sobram poucos.

No Brasil, não existe projeto de Nação. A Pátria é no fundo uma oportunidade de negócio. Nem todo político é ladrão. Mas no sistema político eleitoral brasileiro a maioria que se elege é. Matemática pura.

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