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sexta-feira, 17 de abril de 2015

A tristeza tem seu lugar


Miriam Leitão
Há aqueles dias de ressaca. Não de ter bebido no dia anterior, mas de a vida ter te sacudido de alguma forma, por algum motivo, nos quais você acorda querendo um canto e um tempo de recolhimento. Se acordar assim, dia desses, entregue-se. Há quem queira correr uma maratona para que a endorfina engula esse sentimento de fragilidade. Há quem tome um remédio: a química salvadora que apaga essa sensação de impotência que, as vezes, domina o corpo e nos abate logo no começo de um dia.

Não é uma dor profunda, a que estou falando. É aquela tristeza fina, a certeza de que há algo errado em sua vida. Já sentiu? Pois é, ela pode ser criativa, pode ser o descanso que o corpo pede, pode ser o espaço que sua mente precisa para pensar e, eventualmente, tomar decisões.

Na vida atual a gente se dá pouco tempo para a reflexão. Tudo é muito agitado. Tristeza virou sinônimo de depressão a ser tratada com algum remédio, um esporte radical, uma festa em que exibiremos o sorriso falso na pista de dança. Ninguém pode estar triste. É aconselhado a fazer um tratamento médico e, no consultório, recebe a receita de um remédio tarja preta ou vermelha. No livro “1984” de George Orwell, a distopia da sociedade perfeita, as pessoas tinham que tomar a pílula da felicidade diariamente porque estar feliz era o único estado aceitável naquele mundo autoritário.

Hoje em dia tudo é química, tudo é doença, nada é normal. Uma criança distraída, que passe horas olhando para o infinito será vista com preocupação pelos pais. Levadas ao consultório médico sairão de lá com algum diagnóstico e a receita de um medicamento para alterar o comportamento.

Fui uma criança quieta, ensimesmada, tímida. Não gostava de estar em lugares com pessoas que não conhecesse. Chorei meses no começo do período escolar pelo pavor de enfrentar a turma. Meu irmão, um ano e meio mais velho que eu, era inquieto e agitado. Meu oposto. Eu levei minha introversão para os livros e neles mergulhei com o prazer de abrir uma janela sobre a paisagem de infinitas possibilidades. Naquele mundo tudo podia acontecer e eu me desligava do resto.

Meu irmão usou a inquietação para desenvolver vários talentos. Um deles o de tocar violão, que aprendeu sozinho. Como canta e toca o meu irmão. No dia de hoje seríamos diagnosticados: ele, hiperativo; eu, agorafóbica. Os dois tratados como portadores de síndromes. Me lembro que os vizinhos estranhavam a minha quietude e mutismo. Minha mãe, que teve 12 filhos, sabia respeitar a diversidade do temperamento humano. “Ela é assim mesmo”, dizia. Caminhei, sem pressão, para fora da concha e hoje vivo no mundo da comunicação onde a exposição é o pressuposto.

Precisamos respeitar as tristezas, os recolhimentos, a reflexão. Principalmente precisamos entender as diferenças. Em todas as idades. O normal da vida não é ser alegre, o natural é oscilar entre sentimentos, com momentos de alegria e horas de tristeza. Assim é a vida. Muita ideia boa nasceu de uma hora de introspecção ou do sentimento da tristeza que nos silencia, certos dias. Se acordou assim, querendo silêncio e o mergulho em uma tristeza que chegou de algum ponto, deixe-se ficar no seu canto. O belo da vida é que os dias não são iguais e nem nós somos os mesmos todos os dias.

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