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sexta-feira, 17 de abril de 2015

O labirinto do próprio umbigo


Monica de Bolle*
Certa vez, o escritor Eduardo Galeano, morto nesta semana, agradeceu ao jornalismo por "retirá-lo da contemplação do labirinto de seu próprio umbigo". Na semana passada, escrevi que o investimento no Brasil está esclerosado. Por quê? Quiçá porque tenhamos ficado meditando sobre o labirinto abdominal por tempo demasiado.

A apatia do investimento brasileiro é frequentemente explicada pela contemplação do próprio umbigo. Considere as explicações mais comuns para a baixa taxa de investimento brasileira:

A carga tributária excessiva, que onera as empresas e desestimula a formação de capital;

A infraestrutura deficiente –incluindo os problemas no setor de energia–, que aumenta os custos produtivos dos empresários;

A mão de obra cara e, em geral, de baixa qualificação, que eleva esses custos;

O ambiente de negócios opaco, repleto de regras obsoletas, licenciamentos excessivos e obstáculos diversos;

O ambiente institucional que favorece certas empresas em detrimento de outras –as políticas de crédito subsidiado do BNDES;

O "capitalismo de Estado" brasileiro, que trava as decisões do setor privado. Por certo, todos esses motivos têm seu papel. Mas, em comum, todos são motivos internos.

Breve passar de olhos ao redor revela que a lista de possíveis impedimentos ao investimento no Brasil não é exclusividade nacional.

Muitos de nossos pares emergentes sofrem dos mesmos males –a infraestrutura deficiente, por exemplo, é pervasiva.

Qual o país emergente que não sofre com um ambiente de negócios opaco? Em que lugar do mundo –no mundo emergente– o ambiente institucional é tão melhor do que o brasileiro para justificar níveis de investimento mais elevados por essa razão? O "capitalismo de Estado"? Vejam a China, que, mesmo engajada em processo de reformas e abertura, ainda cultiva práticas intervencionistas.

A carga tributária brasileira de fato é anômala, comparável à de países desenvolvidos. Mas a carga tributária brasileira tem ordem de grandeza semelhante à do México, segunda maior economia da América Latina.

Ambas são superiores à do Chile, à da Colômbia e à do Peru, todas ao redor de 20% do PIB.

No Brasil, os tributos somam cerca de 36% do PIB; no México, uns 30%. Enquanto isso, segundo dados do FMI, a taxa de investimento do Brasil é de uns 19% do PIB, com perspectiva de queda; a do México, de 22%, com perspectiva de alta.

Se as razões tipicamente citadas para explicar o baixo nível de investimentos no Brasil não são tão diferentes das condições vistas em outros países emergentes, inclusive na própria América Latina, qual seria o motivo que não pertence à lista, tampouco remete à síndrome do umbigo?

Eis uma hipótese: a abertura econômica. Não é mistério que o Brasil seja uma das economias mais fechadas do planeta, de acordo com qualquer métrica que se utilize para medi-la. Não por acaso, essa é também a diferença mais marcante entre o Brasil e seus pares emergentes: feitas as ressalvas para as Venezuelas do planeta, o Brasil é mais fechado do que o México, do que a Colômbia, do que o Peru, do que o Chile –os membros da Aliança do Pacífico, que crescem mais do que nós. O Brasil é também mais fechado do que a Índia, do que a China, do que a Turquia, do que a África do Sul.

Há vasta literatura acadêmica e empírica sobre a relação entre investimento e abertura. Diversos artigos mostram que, quanto mais aberta ao comércio internacional é uma economia, mais investimento direto estrangeiro recebe. Quanto mais investimento direto estrangeiro recebe, maior é a disponibilidade de recursos para o investimento doméstico.

A concorrência também é fundamental: quanto mais aberta é uma economia, mais competição haverá de existir entre as firmas locais e as estrangeiras, gerando estímulos à inovação e ao investimento por parte das empresas domésticas.

Infelizmente, no Brasil, ainda não estamos suficientemente abertos para refletir sobre esses temas.

O medo de perder mercado e a velha ladainha do "entreguismo" ainda dominam o debate nacional. Chega de contemplar o umbigo labiríntico, não?

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