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sexta-feira, 18 de março de 2016

A sofrência da esquerda

Domingos Leonelli*
A esquerda brasileira vive momentos de profunda angustia. Dilemas quase insolúveis perseguem as mentes minimamente lúcidas de velhos socialistas como eu, mas também de jovens estudantes, trabalhadores e intelectuais: o que fazer? A pergunta de Lênin recebe cruéis toques de atualidade. Podemos estar totalmente de acordo com um governo que convive com a perda de 1,5 milhão de empregos em um ano?
Podemos aceitar a triste dicotomia entre simplesmente defender o governo desconhecendo os gravíssimos erros cometidos por pessoas que praticaram ou se beneficiaram dos “mal feitos”, ou embarcar numa oposição que tem como únicos objetivos prender Lula e derrubar Dilma?
Os inegáveis e efetivos avanços sociais dos governos Lula erodidos pelo governo Dilma devem representar hipoteca de apoio incondicional a Dilma? Existe, ainda um mínimo de coerência na aliança PT/ PMDB/PP/PCdoB/PSD? Ou seremos hegemonizados pela oposição liderada pelo DEM e PSDB, subitamente transformados em paladinos da moralidade? Terá a chamada oposição de esquerda composta pelo PSOL e outros, força suficiente para se constituir numa verdadeira opção?
Será a esquerda capaz de se reinventar e se unificar, antes que a direita o faça sob a égide de um visível autoritarismo civil hegemonizado formalmente por setores do judiciário?
A derrapada da Operação Lava Jato com a desastrada condução coercitiva de Lula para depor em Congonhas e o ridículo pedido de prisão preventiva do ex-presidente levou à militância do PT um novo alento. A brilhante entrevista de Lula soube capitalizar a injustiça cometida e, ao mesmo tempo, não ser rancorosa. Lula não se permitiu a reciprocidade em relação ao Juiz Sérgio Moro.
Pelo que vejo nas redes sociais o PT pretende que este e outros erros de Moro e do MP de São Paulo caracterizem a Operação Lava Jato, exclusivamente, como peça da engrenagem do “golpe” contra Dilma, Lula e o PT, desconhecendo o grande valor do acervo de informações e medidas contra a corrupção, principalmente na Petrobras. Acredito, até, numa certa parcialidade anti-petista desses juízes, promotores e policiais. Mas ela não poderia ser exercida se não existissem os fatos.
E aqui, mais uma nota da sofrência: podemos, nós de esquerda, conviver também ou considerar secundária, a corrupção? Afinal, a corrupção é uma espécie de super-mais-valia imposta a toda sociedade principalmente ao mundo do trabalho.
A Presidente Dilma, por sua vez, parece estar vendo nessa vantagem de Lula, uma chance de defesa de seu combalido Governo. Temo que ela e seus ministros da casa pensem que podem continuar levando o barco devagar, com as alianças políticas que construíram o fracasso.
Talvez fosse bom dar ouvidos a nova postura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que em recente entrevista propôs um pacto de governabilidade.
Aliás, o que FHC disse é mais ou menos o que, muito mais modestamente é óbvio, propus num artigo intitulado “Como Chegar a 2018” (www.institutopensar.com). Sugeri que Dilma valendo-se de sua força moral – que é o que lhe resta – fizesse uma profunda autocrítica reconhecendo o retrocesso que o Brasil sofreu no seu governo. E propusesse um governo de coalisão nacional baseado num programa econômico que não saísse da cabeça presidencial mas de um consenso, o mais amplo possível. Que cortasse ainda mais na carne do próprio governo e acenasse com medidas à esquerda, à direita e ao centro, que pudessem caracterizar um choque de credibilidade.
Para além da defesa do governo Dilma ou de sua interrupção, precisamos ter uma proposta para estancar a sangria da economia brasileira que significa perda de empregos, redução de poder de compra dos salários pela inflação, perda de investimentos nacionais e internacionais.
Isso porque como reconhece o ex-governador petista, Tarso Genro, o ciclo que marcou os governos do PT se esgotou, sem que esses governos tivessem realizado as reformas estruturais que o Brasil precisava. A reforma tributária, a reforma agrária, a reforma política, a reforma trabalhista. Mas não creio que este governo possa fazer mais isso. Poderia sim preparar o país para um grande debate em 2018. Até lá não se trata de salvar o governo de Dilma sob a bandeira “não vai ter golpe” até porque o impeachment não seria um golpe. Mas também não podemos ter como remédio único, panaceia universal, a saída da presidente ou o impeachment.
Aprofundar e acelerar ainda mais as investigações e o julgamentos dos responsáveis pelos gravíssimos crimes de corrupção – que além de ser uma questão moral, tem também uma dimensão econômica. Punir culpados, sejam eles quais forem, independentes de filiação partidária. Crimes colocam qualquer cidadão abaixo da lei e não acima dela.
Mas é preciso ir além: implementar um grande programa de transparência com fiscalização social das contas públicas como propõe o autor da Lei de Transparência, Senador João A. Capiberibe. Partir para a formação de uma espécie de conselho de estado.
Finalmente, como militante socialista considero tão secundário integrar a oposição formal ao governo, quanto participar dele. Penso que nossa melhor contribuição, neste momento histórico, nesse quadro de sofrência para a esquerda brasileira, seria contribuir criativamente para uma saída que devolvesse ao Brasil sua energia, sua força e também alguma alegria para seu povo.
Se nada disso for possível, se não “for possível tentar o pneumotórax”, como disse o poeta Manuel Bandeira, a única coisa a fazer é tocar uma sofrência, muito próxima, aliás, do tango argentino.

Domingos Leonelli, ex-deputado federal e Presidente do Instituto Pensar

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