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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Prisão de Cunha leva Moro para dentro do "esquema Temer" no PMDB

Por Raymundo Costa de Brasília

A prisão do ex-deputado Eduardo Cunha leva as investigações para o centro do esquema de poder do PMDB da Câmara. Nunca antes o juiz Sergio Moro esteve tão próximo do grupo, cuja figura mais proeminente é o presidente da República, Michel Temer. O ex-deputado provavelmente tem poder de fogo suficiente para causar estragos no grupo, o que não significa dizer necessariamente que tenha munição para derrubar o governo, como diz o PT.
Cunha é um integrante tardio do grupo de Michel Temer, formado, entre outros, por Moreira Franco, o secretário-executivo do Programa de Parcerias e Investimento (PPI), Eliseu Padilha e Geddel Vieira Lima, ministros da Casa Civil e da Secretaria de Governo, respectivamente, e pelo ex-ministro Henrique Eduardo Alves, já saído do governo. Tardio mas não lateral.
O ex-deputado foi parar no PMDB na caravana de Anthony Garotinho, ex-governador do Rio, em sua tentativa de ser o candidato presidencial do partido nas eleições de 2006. Garotinho ganhou uma eleição prévia para ser o candidato mas não levou e mais tarde deixou o partido. Cunha ficou e tornou-se um assíduo frequentador da liderança na Câmara, onde se revezavam nomes como Geddel e Henrique Alves, e da presidência do PMDB, onde Temer, ex-líder da bancada, reinava desde 2001.
Cunha ganhou a confiança do grupo e passou a ser escalado para tarefas importantes, designado por outro integrantes do grupo, sobretudo como relator de medidas provisórias de interesse do governo. Já como líder ele assumiu a relatoria da MP dos Portos, época em que suas desavenças com a ex-presidente Dilma Rousseff se aprofundaram. Já nesse período há registro de divergências com outros integrantes do grupo.
Na realidade, o ex-deputado logo criou o próprio grupo e distribuiu cada integrante estrategicamente por comissões e cargos-chave da Câmara. Do lado do PMDB, o petrolão era um esquema dos senadores do partido, como relata o ex-senador Delcídio Amaral em sua delação. Os nomes na vanguarda, até então, segundo os inquéritos, eram Renan Calheiros, presidente do Senado, o ex-presidente José Sarney, e Edison Lobão, ministro das Minas e Energia no governo Dilma Rousseff.
Cunha foi a ponte dos deputados do PMDB com o esquema da Petrobras. O ex-deputado nega que tenha feito indicações pessoais para a diretoria da Petrobras, reconhece apenas que encaminhou indicações da bancada. Já por essa época o atual presidente Michel Temer ouvia conselhos para se afastar de Eduardo Cunha, uma figura que se tornava mais tóxica quanto mais conquistava posições políticas.
O secretário do PPI, Wellington Moreira Franco, seguramente fez essa recomendação ao presidente da República. Se não falou com todas as letras com Temer, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, ao menos fez o presidente saber que concordava com o colega. Moreira e Padilha nunca esconderam que consideravam Cunha um "outsider". Em entrevistas recentes, Cunha levantou suspeição em relação a Moreira, mas não exibiu provas.
Do grupo mais próximo do presidente, o secretário de Governo, Geddel Vieira Lima, e o ex-ministro Eduardo Alves, ambos também ex-líderes da bancada do PMDB na Câmara, foram os que mais se aproximaram de Cunha.
Diante da proximidade e da convivência do ex-deputado com o grupo, é natural a onda de especulações sobre os danos que o ex-deputado pode causar ao governo Temer, se vier a fazer um acordo de delação premiada com a Justiça Federal. Em se tratando de Cunha, a inquietação não deve atingir apenas a cúpula do PMDB, hoje no comando do país. Ela é apenas a parte mais importante. Há mais de uma dezena de parlamentares que deve perder o no com essa possibilidade. Nem (ou sobretudo) o PT pode ficar tranquilo: o que mais Cunha insinuou nos últimos dias foi quem tem o que contar sobre suas relações com o governo do PT.
*Fonte: Jornal Valor Econômico

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