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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Discurso duro não trará empregos de volta

Por Martin Wolf
Primeiro culpe os estrangeiros. Essa estratégia é sempre companheira de nacionalismo ressentido. Ela pode ser vista na proibição de Donald Trump à entrada de imigrantes de sete países. Ela será vista em seu protecionismo. Um pouco de verdade - terrorismo e o impacto direto das importações sobre o emprego - reforça uma mentira: minhas ações são suficientes para mantê-los seguros e restaurar a prosperidade passada.
No âmago do debate americano sobre política comercial está a história dos empregos na indústria de transformação. O fato individual mais importante é o declínio constante da proporção de empregos no setor de manufatura: de cerca de 30% do emprego total no início dos anos 1950 para pouco mais de 8% no fim de 2016.
A principal explicação para esse declínio de longo prazo nos EUA (e em outras economias de alta renda) foi o aumento do emprego em outros setores. Em 1950, o setor de manufatura empregava 13 milhões de pessoas, ao passo que no restante da economia o número era de 30 milhões. Até o fim de 2016, eram 12 milhões e 133 milhões, respectivamente. Assim, todo o aumento do emprego entre 1950 e 2016 ocorreu fora do setor de manufatura. Mas a produção americana não ficou estagnada. Entre 1950 e 2016, ela cresceu 640%, enquanto o emprego caiu 7%. Mesmo entre 1990 e 2016 a produção aumentou 63% e o emprego caiu 31%. As políticas propostas por Trump e pelos republicanos provavelmente imporá grandes custos a setores desprotegidos, deixando seus apoiadores ainda mais desesperados. Nada que Trump faça trará a indústria a seu antigo papel de gerador de "bons empregos" 
A explicação para o contraste entre produção e emprego é o aumento da produtividade. E com efeito, o problema está na recente estagnação da produtividade: em manufatura, a produção por hora aumentou apenas 1% entre os primeiros trimestres de 2012 e 2016. Como resultado, o emprego cresceu um pouco. Mas esse é um mau resultado: a economia precisa incrementar a produtividade, se quiser gerar uma melhoria sustentada dos padrões de vida.
Entre 1997 e 2005, o déficit comercial americano em produtos manufaturados cresceu 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas hoje está no mesmo nível que em 2005, depois de encolher durante a crise financeira. Quão maior poderia ser a produção do setor de manufatura se esse aumento no déficit comercial não tivesse ocorrido?
Façamos a suposição plausível de que o impacto sobre o valor agregado é cerca de dois terços do valor bruto dos produtos. Então, o valor agregado pela indústria poderia ser cerca de 1,7% do PIB maior. Suponhamos que o efeito sobre o emprego seja proporcional. O setor de manufatura empregaria cerca de 2,5 milhões de pessoas a mais do que atualmente. Isso poderia ter evitado metade das perdas de postos de trabalho na indústria desde 1997 e elevado a participação do setor de manufatura no emprego em mais de 10%.
Em suma, o aumento do déficit comercial no início dos anos 2000 teve um efeito significativamente negativo sobre o emprego na indústria de transformação, porém quase nenhum sobre a diminuição, no longo prazo, do percentual do emprego total na indústria de transformação. Mesmo se a balança comercial tivesse se mantido inalterada no início dos anos 2000, ainda haveria grande redução na participação do emprego na indústria de transformação a partir do fim dos anos 90. A principal razão para isso foi a fraca demanda: não é de surpreender que a queda absoluta do emprego na indústria manufatureira ocorreu durante as duas recessões, no início dos anos 2000 e novamente em 2007-09.
Que parte do aumento do déficit comercial se deveu ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e à adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC)? Bradford DeLong, de Berkeley, conclui que foi bastante modesto. Uma análise mais sofisticada, de Daron Acemoglu, do MIT, e outros, concluiu que o comércio com a China causou a perda de cerca de 10% do número total de empregos perdidos no setor de manufatura entre 1999 e 2011. Mas a análise dos vínculos entre empresas e o impacto sobre a demanda local tem efeitos negativos muito maiores - entre 2 milhões e 2,4 milhões de empregos, embora estes números sejam ainda inferiores a 2% do emprego total.
Surgem, então, duas grandes questões. A primeira é que o efeito da concorrência das importações é frequentemente concentrado geograficamente. Esse é um problema particularmente relevante num país tão grande quanto os EUA. A melhor resposta deveria ser uma combinação de ajuda às comunidades afetadas para gerar novas fontes de emprego e ajudar os trabalhadores (e não apenas aqueles diretamente afetados) a adquirir habilidades e, portanto, novos empregos. Uma parte da estratégia também deveria envolver a provisão de ajuda para restaurar a mobilidade americana perdida.
O segundo ponto é a necessidade de sustentar a demanda e assim garantir que novos postos de trabalho substituam os antigos na economia como um todo. A visão ortodoxa é que os EUA podem sempre alcançar o pleno emprego por meio do uso ativo de instrumentos de política fiscal e monetária. A experiência desde 2000, e especialmente desde a crise financeira, sugere que isso pode ser difícil. Como já argumentei, enormes superávits em conta corrente em alguns países obrigaram países deficitários a praticar excessos financeiros como uma forma (em última instância, insustentável) de manter a demanda ao nível da produção potencial. A crise confirmou a preocupação de John Maynard Keynes sobre o papel potencialmente maligno dos países superavitários na economia mundial.
Infelizmente, as políticas propostas por Trump e pelos republicanos no Congresso - uma combinação de protecionismo fragmentado com um grande estímulo fiscal, bem como a eliminação de grande parte da rede de segurança social - provavelmente imporá grandes custos a setores desprotegidos, deixando os apoiadores [de Trump] ainda mais desesperados. Nada que ele faça trará o setor de manufatura ao seu antigo papel de gerador de "bons empregos". Importações baratas e a capacidade de oferecê-las também trouxeram grandes benefícios aos consumidores domésticos e aos trabalhadores estrangeiros.
A abordagem correta seria proativa, e não defensiva: abriria mercados em todo o mundo; forçaria os países com enormes excedentes a focar mais a demanda interna e menos em demanda externa; ajudaria os trabalhadores e as comunidades atingidos por mudanças adversas, e não os abandonaria; deixaria de culpar os estrangeiros pelo "crime" de vender bens a preços baixos. Essas políticas fariam excelente sentido. Infelizmente, não são o que vamos ver. (Tradução de Sergio Blum)
Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT

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