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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

E se fosse sua mãe?

Jordan Campos*
Não, não vou calar minha voz. Minha missão como profissional da saúde mental e transpessoal é informar, retrucar, provocar reflexões e ousar tal como um Dom Quixote a evolução do caos estático e medonho em várias áreas da nossa vida “real”. Escuto o tempo todo a frase: “e se fosse seus filhos”, mas não vejo pronunciarem: “ e se fosse sua mãe”. Sabe por quê? Porque o povo está cansado de injustiças que os homens de colarinho branco permitem. Estão sem esperança de ver o controle da criminalidade, do tráfico, do seu medo real de sair de casa e não voltar. Estamos infelizes com os diagnósticos medonhos que nos fazem reféns de remédios e exames que nunca curam a dor profunda de nossa solidão. A dor da família em caos.
O povo não aguenta mais... E ao ver o acontecido em todos os jornais, televisão e comentários cria um julgamento rápido de reparação de um todo engasgado. Vêm na perseguição desta médica um pouco da vingança a tudo que não foi resolvido em suas vidas. Em psicologia, isso se chama “projeção”, esta faceta organizada por Freud é um mecanismo de defesa mental que usamos no dia a dia quando espelhamos em uma outra pessoa ou situação social nossos mais profundos medos, tristezas e injustiças. Distorcemos a verdade então, hiperbolizando o indivíduo ou situação, projetado nele o que representa todas as nossas queixas e dores. A projeção psicológica social ocorre quando os sentimentos do povo são ameaçados, reprimidos e costumeiramente, projetados em alguém público ou alvo da mídia.
A projeção psicológica reduz a ansiedade e dá um certo conforto mental por permitir a expressão de toda a repressão própria, em outra pessoa. (...) Não conseguem entender que esta médica tem dois filhos que estão “mortos vivos” vendo sua mãe sendo execrada publicamente, que tem um marido sem dormir há dias, e não entendem que ela morreu também socialmente, emocionalmente e talvez isso nunca mais tenha volta. Não sei o tal “carma” que os envolvia... Mas a fatalidade ocorreu. A fatalidade da hipervigilância, do medo, da raiva. Do que no fundo NUNCA vamos saber ou entender completamente. Alguém realmente acha que ela foi atrás da moto para matar? Improvável e infantil pensar nisso. Ela deve ter ido com raiva dizer uns desaforos no próximo sinal, tinha um carro possante que talvez nunca tenha sido apertado o seu acelerador como foi, e num movimento infeliz conduziu a ópera da morte dos três. Que fique claro: nada justifica as mortes! Não foi legítima defesa de um golpe de hipervigilância, mas também não foi algo arquitetado. Mas aconteceu. Uma pausa (...) Fui absorvido durante esta semana por uma avalanche que eu mesmo provoquei, mesmo sem procurar.
Estava saindo para o almoço de domingo quando escrevi de forma rápida aquele texto sobre “hipervigilância” que ganhou rapidamente uma propagação imensa. Por coincidência fui almoçar no restaurante Barravento, em frente ao movimento dos amigos e familiares dos jovens naquele dia. Era um sinal? Bem... aquele texto que escrevi passou por diversos programas de rádio e TV, foi lido e discutido pelo Mario Kertesz, Zé Eduardo, Medrado, líderes religiosos, políticos, artistas e por advogados e “representantes” dos dois lados da tragédia acontecida em Ondina. Eu visitei emissoras de Tv e rádio, minha agenda de atendimentos sofreu com isso, e até no Cidade Alerta fui parar. Nesta próxima semana mais e mais entrevistas e convites. Meu inbox do facebook se transformou em uma “inboxoteca” de mensagens, e li todas.
O Google mostrou 120.000 relações entre meu nome e o lamentável evento. Entrei sem querer em parte do carma da coisa. Eu escutei tanta gente, refleti sobre tantas opiniões e me coloquei em auto-terapia tentando entender minha missão neste chamado que não havia escolhido. Uma coisa no entanto me chamou muita atenção: 98% de todo este público maciço concordou e entendeu o meu texto, e fez algo que me tocou no meio desta sombra toda: se colocaram no lugar da médica, a Dra Kátia, mas tinham medo de falar isso. Não, não estou defendendo o ocorrido. Não estou tomando partido de ninguém. Que não me apareça nenhum fanático ou alguém que precise de aulas de interpretação de texto e senso me julgando errado.
Estou refletindo sobre a mulher que havia antes disso tudo - da médica que acabou sua vida e a de mais duas pessoas, seja de forma culposa ou dolosa, mas jamais premeditada em matar. Sim, mas acabou “matando”. Sim, e em nenhum momento questiono isso. Todo o meu texto é uma reflexão até o momento antes do choque do carro com a moto, e do depois. De acordo com as nossas Leis, ali está tipificado um crime. Duas mortes literais, e segundo a nossa Constituição deve-se pagar por isso. Sou a favor da justiça e do apuramento de tudo. Que de forma imparcial sejam feitos todos os esforços para desvendar o “todo” deste caso e que o processo ande como deve – está na mídia, tem clamor popular – vai ser rápido não é? Talvez até júri popular com esta raiva toda evocada. Que Deus ajude a todos os evolvidos nesta decisão.
Que Deus console a família dos jovens e da médica. E a sua também. Apenas acredito, como terapeuta e cuidador de gente, que este clima exacerbado e denso, com fotos dos corpos circulando livremente, com a internet parecendo o Iraque matando em praça pública seus criminosos, e com este povo lembrando Roma torcendo pelos leões devorando... Nos adoece - coloca nossa alma em um estado de baixa vibração e não ajuda nada a entender e se colocar nos dois lados e lugares do acontecido. Todas as vidas ali foram ceifadas. Não desonre a vida – existe uma administração maior que no fundo cuida de tudo. 98% de todos que lerão este texto já pronunciaram a frase: “E que seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”. E tantas vezes depois barganharam com o Deus de cada um querendo deste e daquele jeito. Limpem o coração e orem. Orem pelo que desconhecem destas Leis que de certa forma permitiram isso, se assim acreditarem.
Deixe que a justiça cuide disso e não você. Que isso nunca lhe aconteça quando for tirar aquela satisfação no trânsito na hora da fechada; que isso nunca lhe aconteça quando tiver que reagir por medo, que isso nunca lhe aconteça quando o improvável e inexplicável bater à sua porta e lhe transformar sem aviso de um cidadão trabalhador em um “assassino”. Então este meu novo texto se chama: “E se fosse a sua Mãe?” – Sim... Se fosse a sua genitora, aquela que cuidou de você, que estudou, trabalhou, perdeu noites, ficou brava e intolerante às vezes; e linda e amável em tantas outras? Se fosse esta mulher que proporcionou a tua vida e cuidou de você, que você ama e quer cuidar, que num infeliz dia, saiu de sua casa em mais um dia de rotina e acaba sendo devorada pela tragédia de um instante de desequilíbrio emocional? Que não saiu de casa querendo matar ninguém, mas acabou por infeliz combinação de uma das Leis de Murphy, causando a morte de dois irmãos?
Se fosse a sua mãe??? Você estaria com este fervor querendo ver o sangue pisado dela? Estaria a querendo enforcar em praça pública e a perseguindo como você nunca fez com os verdadeiros criminosos e assassinos diários de profissão? Ou estaria arrasado e morto junto com a alma dela sem saber nem se movimentar, paralisado com as mãos na cabeça, pedindo a Deus uma máquina do tempo, não para escapar de nada, mas para ter feito algo possível para as vidas dos irmãos estarem hoje intactas e em casa? O que você faria? (...) Que isso nunca aconteça com a sua mãe. Ninguém nunca vai saber exatamente o que aconteceu ali. Luz às duas famílias. Oração sincera a todos. Amém. Jordan Campos é terapeuta clínico, especialista em família, transtornos ansiosos e trauma.
* Jordan Campos é Terapeuta . Saiba mais em www.jordancampos.com.br 

Um comentário:

  1. Jordan, como profissional de saúde mental também não vou calar minha voz. Quando vejo a quantidade de pessoas que é presa sem provas, humilhada e linchada em programas diários de televisão, não calo e nunca calei minha voz. Da mesma forma, quando vejo um colega só soltar a sua voz quando a vítima do sensacionalismo da mídia baiana recai sobre uma "médica", "mãe de família" e "de classe média", também não consigo calar a minha voz... Quanto aos linchamentos públicos diários que acontecem na mídia baiana, só me recordo da jornalista Malu Fontes "soltando a sua voz". De resto, um silêncio sepulcral... Espero que sua compaixão e sua súbita responsabilidade em se pronunciar sobre casos como esses se mantenha e se amplifique para o resto da sociedade e não fique apenas restrito a pessoas que pertencem a mesma classe social que você...

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