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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca

Vladimir Safatle*
Há algo de rara beleza em "Ninfomaníaca", último filme de Lars von Trier. Depois de algumas semanas em cartaz, boa parte dos leitores interessados em cinema já viram ou ouviram falar da história da ninfomaníaca que "confessa" a um pescador sua história inesgotável de sexo com todo o tipo de homem. Por meio desse cenário improvável, Trier consegue fornecer mais uma vez as imagens de nossos impasses.
"Não sou uma pessoa boa", diz Joe ao pescador, enquanto narra sua maneira compulsiva e sem limites de fazer sexo. Em uma inversão dos papéis tradicionais, o pescador Seligman responde com metáforas primárias e discurso pseudocientífico não para levá-la ao arrependimento, mas para simplesmente tentar aliviá-la de sua culpa. Não há nada de errado em sua vida sexual, diz, no fundo, Seligman. O desejo constrói circuitos, alguns mais elásticos do que outros. Foi-se a época em que esconder suas fantasias sob recalques era sinal de normalidade.
Mas Joe sabe que errou; em algum momento ela errou. O filósofo francês Georges Bataille costumava dizer que o erotismo era uma das poucas formas que nos restavam para realmente nos perdermos pois, quando assumido em todas suas consequências, ele sempre nos levava para além do cálculo utilitarista de maximização do prazer e afastamento do desprazer. Do ponto de vista da lógica utilitária dos indivíduos modernos à procura da melhor rentabilização de suas experiências, o erotismo é um desperdício desprovido de sentido, algo inútil e completamente imprevisível.
Joe bem que gostaria de organizar toda essa bagunça, colocar horários em seus encontros, decidir o que falar para seus "amantes" apenas lançando dados. Então, para botar ordem, Joe começa a contar como, no fundo, sua procura se resume a três tipos de homens: os que se preocupam primeiro em fazê-la gozar, os que a tomam com força e... aquele que ela ama. Mas é exatamente esse que ela descobre, aterrada, nada sentir.
Esse nada que o amor trouxe não é o nada da indiferença própria ao caráter intercambiável dos seus amantes. Ele é o nada do que não tem lugar, não tem nome, do que quebra a música. Essa anestesia é aterradora porque demonstra que Joe errou, mas ela errou como quem entrou em uma errância cuja verdadeira função era descobrir o que não podia ser intercambiável.
Esse impossível de trocar não vem do fato de Joe estar diante de alguém que traz uma intensidade descomunal ou fantasias total- mente novas. Ela está simplesmente diante do que se sente de outra forma. Mas, para alguns, não há nada de mais aterrador.

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