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domingo, 9 de fevereiro de 2014

A gigante extenuada

Jorge M. T. Camargo*
A Petrobras tem duas tarefas hercúleas pela frente: desenvolver as formidáveis descobertas no pré-sal na Bacia de Santos e sustentar a produção dos campos maduros da mesma bacia. Ambos desafios têm apresentado dificuldades e demandado recursos além dos que a empresa antevia e dispoe.
Sustentar e estender a vida produtiva de campos de petróleo em processo de envelhecimento não tem o mesmo charme que desenvolver novas descobertas. Mas, além da obrigação de aproveitar ao máximo essas preciosas reservas, é fundamental para a saúde financeira de uma empresa de petróleo. São as receitas dos velhos campos que financiam os investimentos em exploração e desenvolvimento de novas descobertas. Campos maduros se transformam com o tempo em grandes produtores de água salgada, tendo o petróleo como subproduto.
Os campos mais antigos da Bacia de Campos vêm apresentando em média taxas de declínio da ordem de 10% ao ano. É alta, mas dentro da normalidade. Estender-lhes a vida significa perfurar mais e mais poços, adequar as plataformas para processar volumes crescentes de água. Exige sondas de perfuração, gente capacitada e pesados investimentos.
Dobrar a produção de petróleo da Petrobras dos atuais 1,9 para 4,2 milhões de barris em 2020 é uma meta ambiciosa, mesmo que a empresa tivesse recursos financeiros ilimitados e fosse capaz de mobilizar toda a capacidade de fornecimento de bens e serviços mundiais. Mas não é esse o caso da Petrobras. Além dos imensos desafios operacionais e financeiros do seu programa de investimentos, é obrigada a subsidiar o consumo nacional de gasolina e diesel — que lhe custou cerca de R$ 45 bilhões nos últimos dois anos e elevou sua dívida para além de R$ 250 bilhões, testando os limites de sua capacidade de endividamento — e fomentar o desenvolvimento da indústria local de bens e serviços. Como se a Petrobras fosse uma superatleta tendo que enfrentar várias maratonas, mas obrigada a correr com uma mochila carregada de pedras às costas.
As dúvidas sobre a capacidade da empresa de sustentar seu programa de investimentos e entregar as metas anunciadas têm contaminado não só o humor dos seus acionistas — que vêm punindo com extrema severidade seus papéis —, mas também toda a indústria no seu entorno. A falta de confiança do mercado, em virtude dos claros sinais de sobrecarga da principal locomotiva do setor, vem afetando decisões de investimento que, por sua vez, diminuem a capacidade produtiva da indústria. Demonstra também o equívoco de concentrar em uma única empresa, por mais competente que seja, as operações no pré-sal. Operador único significa cliente único e maiores riscos, como os que estão hoje evidentes, para seus fornecedores locais.
As agruras conjunturais por que passa a Petrobras também enublam a visão do brilhante futuro que a empresa e a indústria do petróleo brasileira têm pela frente. As extraordinárias reservas do pré-sal, as bases tecnológicas e produtivas já instaladas no Brasil, nos permitem sonhar em triplicar a produção e as reservas nacionais. A receita para transformar o sonho em realidade é simples: um mercado aberto, transparente e competitivo; uma Petrobras governada por objetivos comuns a todos seus acionistas, não apenas do majoritário, capaz de vender seus produtos e planejar receitas e investimentos com independência; políticas macroeconômicas e industriais executadas por ministérios e autarquias do governo, não através de empresas estatais.
A Petrobras ajuda melhor o país entregando produção e resultados, com segurança e eficiência. Uma tarefa gigantesca.

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